A corrida maluca (e perigosa) de Cid antes da viagem com Bolsonaro
Jair Bolsonaro e Mauro Cid. Foto: Reprodução
Por Arthur Guimarães
Depoimentos, mensagens, ofícios e outros documentos mostram que o tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro preso na quarta-feira pela Polícia Federal, dedicou suas últimas horas no cargo a uma corrida contra o tempo – e, ao que tudo indica, também contra a lei – para resolver controversas pendências do núcleo duro bolsonarista antes da decolagem coletiva para a Flórida, nos Estados Unidos, em 30 de dezembro de 2022.
Simultaneamente, ele atuou na operação de resgate das joias retidas no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, e na suposta fraude do sistema nacional de vacinação, usando dados forjados de um posto de saúde de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro (veja galeria).






O tenente-coronel disse que as “as coisas estavam muito tumultuadas” porque “faltavam apenas quatro dias para o término do governo e o presidente, como o declarante (o próprio Cid), sairiam do Brasil dentro de dois dias”.
Documento falso e ofício da Receita
Foram dias intensos – e repletos de movimentos para lá de polêmicos. Em 21 de dezembro, concretizando o plano do militar, sua filha Gabriela Cid embarcava para Miami, nos Estados Unidos, usando um certificado de vacinação “ideologicamente falso”. Para a PF, um caso de “crime de documento falso”.
Vencida a etapa, Cid se empenhou em outra frente, que hoje também é alvo da PF. Como ele mesmo contou, falou diretamente com o então secretário especial da Receita federal, Júlio Cesar Vieira Gomes, para buscar formas de liberar as joias que haviam sido retidas em Guarulhos, o que investigadores veem como uma atuação indevida do ex-comandante da Receita – e um sinal de que a Presidência cogitava levar os supostos presentes na bagagem.
Cid disse que falou “sobre o assunto” com Júlio César, “por telefone”, quando recebeu orientações de “como deveria ser feito o documento para solicitar a retirada” dos itens. No dia 28 de dezembro, o ajudante de ordens de Bolsonaro assinou o ofício, endereçado ao próprio Júlio, registrando a vontade do Planalto de recuperar os bens. O documento, com o brasão da Presidência da República, é tratado na investigação como um ato de ofício que expõe a dupla – o presidente e seu ajudante de ordens – na tentativa de resgate.
Preparando o desembarque
No dia seguinte, em 29 de dezembro, Cid mandou um subordinado despencar de Brasília até o aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, com o tal ofício em mãos. Naquele dia, ainda segundo o depoimento que prestou à PF, o ajudante de ordens de Bolsonaro fez ligações para o então chefe da Receita para pedir ajuda, já que o emissário enfrentava dificuldades para cumprir a missão no aeroporto — os funcionários da Receita no local se recusavam a entregar as joias.
Vinte e quatro horas depois, com o mesmo telefone, Cid voltava a cuidar da documentação para atestar, com base em dados falsos, que ele, Bolsonaro e outros integrantes do núcleo duro do então presidente estavam vacinados contra a Covid-19 — um requisito básico para entrar nos Estados Unidos. Segundo a investigação da PF, Cid usou seu próprio aparelho de telefone celular para emitir, usando o acesso de Jair Bolsonaro, um certificado de vacinação gerado com informações previamente falsificadas.
Mais evidências à vista
O tenente-coronel foi o braço-direito (e esquerdo) de Bolsonaro em dois dos mais rumorosos escândalos recentes da era Bolsonaro. Para além disso, também está encrencado em outras histórias, como aquela em que é investigado por disseminar informações falsas sobre a Covid-19 e por vazar documentos sigilosos para desacreditar o sistema eleitoral.
Nas investigações mais recentes, o militar pode ser peça fundamental para que a PF avance ainda mais na direção de Bolsonaro — nos dispositivos eletrônicos apreendidos com ele, o celular em especial, os investigadores poderão encontrar mais provas capazes de comprometer o presidente nessas e em outras frentes. Cid e Bolsonaro continuam abraçados, só que agora de uma forma nada confortável — nem para um, nem para outro.