© Prateleiras vazias nos mercados de Londres. Brits Experience Food Shortages And Rising Energy Prices
Com a economia afetada pela saída da União Europeia e pela pandemia da covid-19, o Reino Unido sofre com falta de mão de obra em diversos setores, como hotelaria, transportes e na produção agrícola, e também com desabastecimentos.
A brasileira Carla Viviane Paulino, professora de história que mora em Londres, diz que muitos estrangeiros da área de transportes já não querem trabalhar por lá por causa das regras mais rígidas de entrada.
“Muita gente que trabalha aqui como caminhoneiro ou motorista de van acabou retornando ao seus países na Europa e continuam fazendo suas rotas em outros países do bloco. Tudo isso porque a burocracia [no Reino Unido] aumentou demais”, contou Carla em entrevista à BandNews FM.
Depois de um referendo histórico realizado em 2016, o Reino Unido optou por sair da União Europeia em um processo conhecido como Brexit, que foi finalizado no ano passado.
Professor de Relações Internacionais da USP e especialista em política externa e integração regional na Europa, Kai Lehmann diz que a crise poderia ter sido evitada se o acordo para a saída do bloco não fosse tão rígido. “O Reino Unido rejeitou participação do mercado único e rejeitou a opção de sair da União Europeia, mas participar ainda da união aduaneira. Toda essa situação era previsível”, disse.
Questionado se a situação do Reino Unido estaria mais relacionada com a pandemia do que com o acordo do Brexit, Lehmann disse que toda a Europa sofreu com a crise sanitária, mas que o momento britânico se agravou por conta da saída da União Europeia.
“Essa falta de produtos na prateleira não existe em nenhum outro país europeu, só no Reino Unido. Então, qual é o fator que acontece no Reino Unido e em nenhum outro país da região? Brexit”, afirmou o professor.
Na avaliação de Lehmann, uma volta para a União Europeia está descartada enquanto o governo Boris Johnson estiver no poder.
Efeitos práticos: britânicos viram opções sumirem
McDonald’s
A gigante de fast food precisou retirar temporariamente os milkshakes e outras bebidas do cardápio. A regra valeu para Inglaterra, País de Gales e Escócia e foi justificada por “problemas de cadeia de suprimentos”
KFC
A rede especializada em frangos ficou sem itens essenciais para a venda de alimentos, como sacos de papel, copos e o pior: molhos e temperos. Assim como o ‘Méqui’, a KFC precisou tirar do cardápio as bebidas vendidas em copos
NHS
O sistema de saúde do Reino Unido, equivalente ao SUS (Sistema Único de Saúde) no Brasil, ficou sem tubos para exames de sangue, o que reduziu em 25% as coletas na região. Na semana passada, os hospitais também precisaram cancelar consultas de pacientes com câncer
Um ‘divórcio’ para o povo britânico
Até janeiro de 2020, na saída do Reino Unido do bloco, a União Europeia era composta por 28 países. O grupo, fundado em 1993, previa um livre mercado entre as economias dos países, o que permitia que todos os cidadãos trabalhassem e morassem em qualquer um dos países-membros.
No entanto, ganhou força no Reino Unido, desde 2010, um movimento que pedia a saída dos britânicos do bloco. O que começou como um movimento pequeno, apenas entre grupos da direita, cresceu e, em 2016, foi feito um referendo para avaliar a opinião da população sobre o assunto. Na época, foram 52% dos votos favoráveis à saída e 48% contra o desembarque.
Mas se a medida prometia restringir a entrada de imigrantes ao país e aumentar a soberania dos britânicos, agora pode estar dificultando negócios antes favorecidos pela burocracia em comum e a circulação de trabalhadores europeus não-britânicos.