Em semana de más notícias, governo Lula celebra sufoco de Bolsonaro
Redação 21 de agosto de 2023 0
Por Raphael Veleda
A última semana foi dura para o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), por causa de más notícias como o reajuste na gasolina e no diesel. Porém, as revelações que complicaram o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) ajudaram a mudar o foco do noticiário e provocaram alívio e euforia no entorno do petista.
Nem mesmo os ministros de Lula esconderam a empolgação com as desventuras de Bolsonaro, aproveitando para alfinetar em público o ex-presidente. Alexandre Padilha, das Relações Institucionais, está sob a pressão de ter de costurar uma complicada e demorada reforma ministerial, mas encontrou tempo, na última quinta-feira (17/8), para vibrar com as acusações do hacker Walter Delgatti Neto contra Bolsonaro na CPMI dos atos golpistas de 8 de janeiro.
De seu gabinete no Palácio do Planalto, um sorridente Padilha gravou e postou vídeo nas redes sociais, dizendo que quem não estava assistindo à sessão da CPMI deveria fazê-lo. Horas depois, o titular da pasta fez nova postagem, mais uma vez celebrando as acusações do “hacker da Vaza Jato” e falando ainda da possível confissão de Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, no caso da venda das joias – confissão ora confirmada, ora negada pelo advogado de Cid.
“Cada vez mais, a gente vê que as malas [que Cid carregava para Bolsonaro] eram cheias de joias, de contrabando e de dinheiro vivo irregular”, acusou o ministro responsável pela articulação política do Planalto.
Já Simone Tebet, ministra do Planejamento, fugiu do protocolo e usou parte do seu discurso na posse do economista Márcio Pochmann como presidente do IBGE, na sexta (18/8), para comentar as investigações e denúncias contra Bolsonaro. “Podemos dizer que o cerco se fechou contra o ex-presidente”, disse Tebet, ao lado de Lula, que não discursou.
“Graças ao trabalho da operação da Polícia Federal [no caso das joias] e dos depoimentos dados da CPI dos atos golpistas [especialmente Walter Delgatti Neto], podemos dizer que o cerco se fechou contra o ex-presidente da República. Ali está claro: está apontado como autor e mandante de tentativa de fraudes às urnas eletrônicas e fraude à decisão legítima do povo brasileiro”, disse Tebet.
“Ali estava a tentativa de violar, de atentar contra a democracia brasileira. (…) E não se enganem: que busquem o mais rápido possível apreender o passaporte. Quem fugiu para não passar a faixa para um presidente democraticamente eleito, com certeza, vai tentar abandonar o Brasil para salvar a própria pele”, completou a ministra, antes de voltar ao discurso lido. Veja:
Simone Tebet pede apreensão do passaporte de Bolsonaro. “Vai querer abandonar o Brasil pra poder salvar a própria pele”.
Ministra do Planejamento classificou ex-presidente como mandante de tentativas de fraude. pic.twitter.com/fgmV3ehhPh
— Metrópoles (@Metropoles) August 18, 2023
Também em conversas de bastidores, aliados e auxiliares de Lula admitem que a desgraça de Bolsonaro é um belo refresco para o governo em um momento turbulento.
Ao longo da semana, Bolsonaro viu se agravar o cerco judicial que o pressiona desde a saída do cargo. A defesa de Mauro Cid começou a indicar que o ex-ajudante de ordens pode implicar o ex-presidente diretamente no caso da venda de relógios e joias que foram considerados patrimônio público pelo Tribunal de Contas da União (TCU).
E o hacker Walter Delgatti Neto disse, na CPMI, que Bolsonaro lhe pediu ajuda em um plano para desacreditar as urnas eletrônicas e contribuir com as Forças Armadas nos questionamentos ao sistema eleitoral. O ex-presidente ainda teria prometido indulto em caso de complicações com a Justiça.
Bolsonaro nega ter cometido irregularidades, mas seu entorno já fala abertamente no temor de que esse cerco judicial culmine na prisão do ex-presidente.
O que atrapalhou o governo
Dois eventos com grande capacidade de afetar a percepção da sociedade sobre o governo assombraram o Palácio do Planalto nos últimos dias. O pior foi o reajuste nos preços dos combustíveis, anunciado pela Petrobras na última terça-feira (15/8): o preço médio da gasolina para distribuidoras subiu R$ 0,41 por litro, indo para R$ 2,93. Para o diesel, o aumento foi de R$ 0,78 por litro.
Após ter mudado a política de preços da petroleira em maio, deixando de seguir a paridade com a cotação internacional, o governo conseguiu reduzir o preço dos combustíveis pelo menos duas vezes, mas não foi possível segurar o reajuste esta semana, sob o risco de desabastecimento.
Ainda na terça, um apagão no sistema elétrico atingiu quase todo o país e deixou sem luz, por algum tempo, quase 30 milhões de pessoas. As causas do problema ainda estão sendo investigadas, mas o evento trouxe à memória dos brasileiros traumas do passado e serviu como combustível para a oposição bater no governo.
Disputa de poder com Arthur Lira
Para além dessas dificuldades mais pontuais, o governo Lula segue esticando a corda numa disputa de poder com o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL). Lula e Lira acertaram há semanas que PP e Republicanos, partidos do Centrão que já estiveram na base de Bolsonaro, ganhariam mais espaço no atual governo, com cargos de primeiro escalão na Esplanada dos Ministérios.
A reforma ministerial, porém, vai se arrastando, enquanto os negociadores políticos pressionam de lado a lado para ver o tamanho do poder de cada um no acerto. A estratégia de Lula, de ganhar tempo, vinha rendendo frutos, mas Lira viu a oportunidade de recuperar terreno a partir de uma entrevista em que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, atacou a Câmara.
Haddad criticou, no início da semana, o tamanho do poder da Câmara. O ministro disse, durante entrevista ao jornalista Reinaldo Azevedo, da Band, que a Câmara não pode “humilhar” o Senado e o Executivo. Em reação, Lira cancelou reunião de líderes que acertaria a votação do novo marco fiscal, que voltou do Senado, e essa pauta tão importante para o governo foi adiada.
Como Lula inicia a semana em viagens internacionais para países africanos, tudo indica que a resolução dessa disputa com Lira ainda vai se arrastar por mais alguns dias.
O que refrescou o governo, além de Bolsonaro
Além dos problemas de Bolsonaro, o governo Lula celebrou, na última semana, a mais recente rodada da pesquisa Quaest sobre aprovação e reprovação da gestão. No levantamento, a aprovação do governo Lula chegou a 60%, o maior percentual dos oito meses de mandato, com uma subida de quatro pontos ante a última rodada de entrevistas, em junho.
O ponto mais baixo da avaliação do governo Lula, segundo a Quaest, foi em abril, quando a aprovação bateu em 51%.
Os auxiliares de Lula creditam a melhora à consolidação da retomada de programas sociais, como o Minha Casa Minha Vida, e ao aumento acima da inflação do salário mínimo, além do refresco na inflação nos últimos meses.
O aumento no preço da gasolina e do diesel, avaliam os mesmos auxiliares, pode cobrar seu preço em popularidade nas próximas pesquisas. A ver.