A reunião ocorreu sob a sombra de uma guerra no Oriente Médio, que ameaça se transformar em um conflito regional mais amplo – e serviu como uma clara demonstração do aprofundamento das divisões entre as potências mundiais.
Enquanto líderes e representantes de países, principalmente do “Sul Global”, reuniam-se na capital chinesa, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, desembarcou em Israel na quarta (18), em uma demonstração de firme apoio ao aliado norte-americano, que prometeu eliminar o Hamas após a ação terrorista do grupo radical islâmico a Israel no início deste mês.
A China e a Rússia apelaram pelo cessar-fogo no conflito e se recusaram a condenar o Hamas explicitamente – indo de encontro à forte manifestação de apoio a Israel por parte dos EUA e dos líderes de toda a Europa.
No Fórum do Cinturão e Rota, em Pequim, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, apelou para um cessar-fogo humanitário imediato.
“Estou plenamente consciente das profundas queixas do povo palestino após 56 anos de ocupação, mas por mais graves que sejam essas queixas, elas não podem justificar os atos de terror contra civis cometidos pelo Hamas em 7 de outubro [que] imediatamente condenei”, disse.
“Mas esses acontecimentos não podem justificar a punição coletiva do povo palestino.”
Xi Jinping não abordou o conflito no discurso, mas comentou sobre uma aparente mudança no poder e na liderança globais. “Mudanças no mundo, nos nossos tempos e com significado histórico, estão se desenrolando como nunca antes”, afirmou.
“A China está se esforçando para se transformar em um país mais forte e rejuvenescer a nação chinesa em todas as frentes. A modernização que procuramos não é apenas para a China, mas para todos os países em desenvolvimento por meio de esforços conjuntos.”
Em uma aparente referência aos Estados Unidos, o líder chinês disse que a China se opõe a sanções unilaterais, à coerção econômica, à dissociação e à interrupção da cadeia de suprimento.
“O confronto ideológico, a rivalidade geopolítica e a política de bloco não são uma escolha para nós”, disse.
“Ver o desenvolvimento dos outros como uma ameaça ou assumir a interdependência econômica como um risco não melhora a própria vida nem acelera o próprio desenvolvimento.”
Outros líderes mundiais presentes, incluindo o presidente do Cazaquistão, Kassym-Jomart Tokayev, e indonésio, Joko Widodo, também discursaram, ecoando o apelo de Xi para um maior desenvolvimento global e um mundo mais cooperativo e multilateral.
Xi Jinping e Putin mantiveram conversas após o evento. Chamando Putin de “meu velho amigo”, o líder chinês elogiou o aprofundamento da confiança política entre as duas nações e a “coordenação estratégica estreita e eficaz”, informou a emissora estatal chinesa CCTV.
A visita a Pequim é uma viagem ao exterior rara para Putin, que é procurado pelo Ocidente e pelo Tribunal Penal Internacional por alegados crimes de guerra na Ucrânia.
O encontro dele com Xi ocorre no momento em que a Rússia continua fazendo ataques na Ucrânia, onde duas pessoas foram mortas nesta quarta, após um ataque com mísseis russos na cidade de Zaporizhzhia, segundo autoridades ucranianas.
Uma nova ordem mundial
Xi Jinping, o líder chinês mais poderoso e assertivo em décadas, tem intensificado esforços para projetar a China como um líder alternativo aos EUA – com uma visão de como a segurança e o desenvolvimento globais devem ser garantidos.
Receber líderes em Pequim – o primeiro grande evento internacional da China desde o fim da pandemia de Covid-19 – é uma parte fundamental do esforço para apresentar essa visão às nações com as quais estabeleceu laços estreitos ao longo da última década, à medida que Xi pretende expandir a posição influência global.
Líderes mundiais, representantes e delegações de mais de 140 países – incluindo do Oriente Médio e do Talibã – participam do encontro que marca uma década desde o lançamento da Iniciativa Cinturão e Rota emblemática de Xi Jinping.
Mas também surge em um momento em que a China enfrenta grandes desafios internamente, com uma economia em desaceleração, um elevado desemprego e uma série de recentes abalos inexplicáveis nos escalões superiores do Partido Comunista.
Pequim pretende encobrir esses desafios na reunião para projetar o seu poder e elogiar as contribuições para o desenvolvimento global como um excelente exemplo de liderança.
Essa política externa emblemática reuniu centenas de bilhões em finanças chinesas para construir portos, centrais elétricas, pontes, ferrovias e estradas em todo o mundo – expandindo significativamente os interesses internacionais e a influência da China ao longo do caminho.
Mais de 150 países cooperaram no programa, que Pequim afirma ter mobilizado “até um trilhão de dólares em investimentos”, estimulando o crescimento em países emergentes.
Mas enfrenta obstáculos crescentes à medida que o motor de crescimento econômico da China enfraquece, em um contexto de mudança no cenário financeiro global e de questões sobre elevados custos para os países – desde dívida ao impacto ambiental.
Agora, a onda de construção de infraestruturas da China a tornou no maior colecionador de dívidas do mundo, dizem os analistas.
No discurso desta quarta, Xi rejeitou as críticas e reiterou o compromisso com a iniciativa.
“O que foi alcançado nos últimos dez anos demonstra que a cooperação do Cinturão e Rota está do lado certo da história. Representa o avanço dos nossos tempos e é o caminho certo a seguir”, disse.
Xi também propôs um plano de ação em oito partes sobre a iniciativa Cinturão e Rota, incluindo a remoção total das restrições ao investimento estrangeiro na indústria chinesa e a iniciativa sobre a governança global de inteligência artificial.