Cúpula do Exército confia em ex-comandante Freire Gomes, mas quer explicações sobre ‘minuta do golpe’ e bloqueios em quartéis
O general Marco Antônio Freire Gomes em foto de arquivo — Foto: Divulgação/Exército
Por Valdo Cruz
A cúpula do Exército mantém confiança no general Marco Antônio Freire Gomes – último a comandar as tropas no governo Jair Bolsonaro. A avaliação é de que ele atuou como legalista no posto e rejeitou colocar militares na defesa de um golpe de Estado que mantivesse Bolsonaro no cargo.
Os colegas de farda, no entanto, esperam que Freire Gomes esclareça em depoimento na Polícia Federal as dúvidas que ainda pairam sobre a conduta dele nos anos finais do governo anterior.
Generais da ativa querem que o ex-comandante esclareça como foram as conversas relatadas por Mauro Barbosa Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, sobre a “minuta do golpe”.
De acordo com a delação de Mauro Cid, o general Freire Gomes participou de pelo menos uma das reuniões preparatórias desse documento. O Exército espera explicações do porquê de essas conversas no Palácio do Alvorada não terem sido imediatamente denunciadas pelo então comandante.
O ex-chefe do Exército terá de explicar ainda por que não desmobilizou os acampamentos na frente dos quartéis.
Freire Gomes, inclusive, chegou a ordenar a interrupção de uma operação no fim de 2022 para retirar apoiadores de Jair Bolsonaro da frente do quartel-general do Exército, em Brasília. A Polícia Federal investiga esses acampamentos inconstitucionais como parte da estratégia golpista.
Essas dúvidas também devem ser levantadas pelos investigadores da Polícia Federal no depoimento que Freire Gomes dará aos investigadores no inquérito dos atos golpistas de 8 janeiro de 2023.
Em defesa de Freire Gomes, colegas de Exército dizem que o militar evitou o pior – que teria sido colocar as tropas do Exército a serviço de Bolsonaro para uma tentativa de intervenção militar.
Envolvimento de general foi ‘péssima surpresa’
Dentro do Exército, o envolvimento nas articulações golpistas do general Estevam Theophilo foi visto como uma “péssima surpresa”.
O nome de Theophilo surgiu na lista da última semana, quando policiais federais cumpriram dezenas de mandados de busca e apreensão e prenderam quatro suspeitos de capitanear a estratégia que, se levada a cabo, poderia resultar num golpe de Estado contra as eleições de 2022.
O Exército, inclusive, apoiou o cumprimento dos mandados contra 16 militares das Forças Armadas suspeitos de participação nesses preparativos.
A cúpula do Exército sabia das posições de Estevam Theophilo a favor de Bolsonaro. O envolvimento como suposto intermediário para tentar mobilizar as tropas na direção do golpe, no entanto, estava fora do radar das Forças Armadas.