‘Egos ditam hoje o caminho do SBT’, diz Callegari, o melhor amigo de Silvio Santos; confira entrevista completa

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Luciano Callegari ao lado de Silvio Santos no casamento do apresentador com Iris Abravanel, em 1967

Ex-manda-chuva do SBT, Luciano Callegari, 86, conta que Iris Abravanel foi até a casa dele há cerca de cinco meses para fazer um pedido especial: Silvio Santos queria falar com ele. Os dois trabalharam juntos por mais de 40 anos, desde quando Silvio apresentava shows em circos, passando pela criação da emissora e durando até o fim dos anos 1990.

Desde a pandemia de Covid-19 o dono do SBT vivia recluso, recebendo poucas visitas. Callegari atendeu ao pedido e, no dia seguinte, foi vê-lo. O jantar na casa de Senor Abravanel, em São Paulo, reuniu as duas famílias. O ex-diretor do SBT, porém, achou que Silvio já não estava muito bem de saúde. “Eu sentia que ele queria falar alguma coisa, mas não conseguia”, diz.

“O que ficou gravado [na minha memória] é que na hora em que eu estava saindo, ele me chamou numa outra sala e me perguntou se eu precisava de alguma coisa. Foi a última vez que eu falei com meu amigo”, recorda. Silvio Santos morreu no dia 17 de agosto de 2024, aos 93 anos.

Callegari foi o braço-direito dele na fundação e nas primeiras décadas do SBT, quando a emissora conquistou a vice-liderança de audiência e chegou a ter embates com a Globo pelo primeiro lugar.

Na visão dele, o sucesso aconteceu porque ambos eram apaixonados por TV e conversavam dez horas por dia para debater os “melhores talentos para a programação e o que deveria ser feito”. As brigas também eram frequentes, admite Callegari.

“Mas não tinha ego envolvido. A nossa intimidade e o fato de podermos falar tudo um para o outro, sem qualquer tipo de preocupação, ajudou no desenvolvimento da emissora”, acrescenta.

Callegari saiu do SBT em 2000, quando Silvio assumiu também as decisões executivas da emissora.

Avesso a entrevistas, o executivo aceitou falar com a jornalista Mônica Bergamo, do jornal Folha de S.Paulo, por intermédio do seu filho Rogério. As respostas foram dadas por escrito.

Ele disse não ver com bons olhos os caminhos que Iris e as filhas de Silvio têm tomado nos últimos dois anos, quando começaram a assumir o comando dos negócios. “Nós vimos que a falta de experiência e os egos são o que ditam hoje o caminho do SBT.”

Também critica a afirmação feita à Folha por Daniela Beyruti, filha número 3 e apontada como sucessora na condução do SBT, de querer transformar o canal numa “Disney brasileira”. “É uma brincadeira, não pode ser levado a sério.”

Callegari falou ainda sobre a aposta da emissora em contratar influenciadores e que vê “muito barulho na saída da Eliana”. “Não acho que ela seja uma estrela de primeira grandeza”, diz.

ENCONTRO

Eu não falava com o Silvio fazia um tempo, até que um dia a Iris foi na minha casa e me pediu para falar com ele. Ela passou a tarde comigo e com meu filho Rodrigo. No dia seguinte, fomos jantar na casa dela. Vi o Silvio, ele não estava bem. Eu sentia que ele queria falar alguma coisa, mas não conseguia. O que ficou gravado é que, na hora em que eu estava saindo, ele me chamou numa outra sala e me perguntou se eu precisava de alguma coisa. Foi a última vez que eu falei com meu amigo.

PARCERIA

A principal qualidade do Silvio é que quando ele pegava o microfone, em frente ao público, acontecia a mágica, as pessoas ficavam hipnotizadas. Fora a parte artística, fazíamos uma dupla que deu muito certo. Brigávamos muito, mas, no final, a programação se tornava um sucesso.

FAMÍLIAS UNIDAS

A minha maior satisfação não foi ser o melhor amigo do Silvio, como ele disse diversas vezes. Mas foi ver que nossas famílias se davam bem também.

A Anna [mulher de Callegari, já falecida] e a Iris sempre se deram muito bem, viajávamos muito juntos nas férias para a Flórida, e os meus filhos [Luciano Jr., Mauro, Rodrigo e Rogério] e as meninas [filhas de Silvio] sempre se deram muito bem também. A gente era uma família como na televisão.

Uma curiosidade, da qual a gente ri até hoje, é que o Silvio me deu de Natal uma viagem para qualquer lugar do mundo com a Anna e meus filhos. Depois de pensar muito, fomos parar na Flórida novamente, porque era onde nós nos sentíamos bem, e o que importava mesmo era estarmos todos juntos.

ACERTOS NO SBT

Só aconteceram porque nós conversávamos dez horas por dia, em média. Não tinha ego envolvido [entre] ele e eu. Discutíamos por horas os melhores talentos para a programação e o que deveria ser feito.

A nossa intimidade, e o fato de podermos falar tudo um para o outro, sem qualquer tipo de preocupação, ajudou no desenvolvimento da emissora. A paixão que tínhamos pela televisão se refletia na audiência.

PELO TELEFONE

A maioria das conversas era pelo telefone. Silvio não era um executivo, ele ficava em casa, no seu escritório. Ele fazia seu programa e ia para casa.

LIVRO DE MEMÓRIAS

Já pensei em escrever um livro, mas desisti. Impossível colocar certas coisas.

IDA DE ELIANA PARA A GLOBO

Acho que foi feito muito barulho com a saída da Eliana. A Globo tirou a Eliana do SBT devido ao faturamento que ela alcançava. Não acho que ela seja uma estrela de primeira grandeza. Já achei estranho quando o SBT permitiu que ela fizesse o Criança Esperança junto com a Xuxa e com a Angélica. Foi uma ingenuidade do SBT, deram um espaço para ela de estrela de Hollywood.

A Globo testou as águas naquele momento. E depois que a Eliana já não participou das celebrações de final de ano do SBT, a saída já era certa. Eu acredito que, em outra gestão, a Eliana estaria ainda no SBT.

SBT SEM SILVIO

Não precisou o Silvio morrer para sabermos qual será o caminho do SBT. Desde que o Silvio deixou de participar, e suas filhas e a Iris começaram a liderar os negócios, nós vimos que a falta de experiência e os egos são o que ditam hoje o caminho do SBT. Infelizmente, o SBT deixou de ser vice-líder numa rapidez alarmante, e o caminho contrário é muito mais difícil.

Acho que tem que haver um equilíbrio entre a marca colocada pelo Silvio e a modernização. Modernizar não quer dizer você destruir o DNA da empresa. É triste ver o caminho que o SBT está tomando.

GESTÃO E ‘DISNEY BRASILEIRA’

A Daniela [Beyruti] tem que descobrir alguma forma de melhorar o SBT. Faço votos para que ela consiga. Mas, até agora, ela não agradou. Transformar o SBT em ‘Disney brasileira’ é uma brincadeira, não pode ser levado a sério. A Daniela vai ter muitos problemas.

INFLUENCIADORES NA TV

Converso muito com o meu filho Rogério que, como eu, é muito ligado em televisão.

Quando a Daniela divulgou essas contratações [de influenciadores como Virginia e outros], falei com ele, que mora nos Estados Unidos faz quase 20 anos. Fizemos uma análise de influenciadores que as televisões americanas tentaram colocar na TV, tanto aberta quanto fechada, e não foram nem de perto o sucesso esperado. A maioria desses programas com influenciadores não durou uma temporada, como eles dizem lá fora.

O público da televisão aberta não é o mesmo público que eles têm em redes sociais. O DNA da televisão é outro. Você não pode esperar que o influenciador vire um apresentador, não é assim. Se a pessoa não tem talento, e como bem dizia o Boni, “lastro”, não vai durar.

O programa com a Virginia é muito fácil de se destacar, mas não quer dizer que é um sucesso. Dar dois pontos [de audiência] e, eventualmente, cinco pontos não é um sucesso, principalmente naquele horário de sábado à noite.

A Globo tentou com a Jade Picon, que tem no Instagram 22 milhões de seguidores. Colocou ela na novela [“Travessia”] e não deu mais audiência do que a novela daria.

A migração das redes sociais para a televisão não é assim, os números são muito maiores na televisão. Não podemos também esquecer do fato de que muita gente que só acompanha a televisão não sabe quem são esses influenciadores. Nós vivemos num país onde a grande massa ainda não tem todo esse conhecimento.

NOVELAS

[Luciano Callegari foi o responsável pelo investimento feito pelo SBT em produções nacionais, como o remake de “Éramos Seis”, que fez muito sucesso em 1994]

Eu já não aguentava as novelas mexicanas. Chamei o Nilton Travesso e sabia que só ele poderia mudar nosso caminho em novelas. E foi o que aconteceu. Ele veio com David Grimberg e Del Rangel e construímos a cidade cenográfica onde gravamos “Éramos Seis”, “As pupilas do Senhor Reitor” e outras.

Eu acredito na continuidade das novelas. Com bons autores e boas histórias, vão continuar fazendo sucesso.

REALITIES SHOWS

Acho que tem que existir mais integração com novas tecnologias. O Big Brother já não trouxe o resultado de dois anos atrás, apesar de ser um sucesso comercial. Enquanto a TV não estiver com as tecnologias imersivas, que estão aperfeiçoando, e a integração com plataformas digitais, eu acredito que não será o sucesso que já foi um dia.

O FUTURO DA TV ABERTA

A TV aberta ainda mantém relevância e pode continuar a ser uma parte importante do panorama midiático no futuro. Mas isso dependerá de sua capacidade de adaptação às novas realidades do mercado e de sua habilidade em integrar tecnologias e estratégias digitais.

A TV aberta pode incluir uma combinação de tradição e inovação.

SAUDADES DA TV

A gente tem saudade de tudo o que foi bom, mas não tenho interesse em voltar para a TV. O que eu e o Silvio começamos do zero, levando o SBT ao segundo lugar em audiência, foi, sem dúvida nenhuma, a maior realização da minha vida profissional.

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