Por que o Brasil tem a eleição municipal com o menor número de candidatos em 16 anos
Foto: Maurício Cattani/NSC TV
As eleições de 2024 vão ter o menor número de partidos em 12 anos e a menor quantidade de candidatos em 16 anos.
- Até o momento, há 460 mil candidaturas registradas para concorrer, quase 18% a menos que em 2020 – recuo de 97.792 candidaturas em comparação às 557.679 daquele ano;
- O recuo é um pouco maior nas candidaturas de vereador (20%) do que nas de prefeito (18%);
- O tamanho do enxugamento varia, mas acontece mais de 2/3 das cidades brasileiras;
- O número de partidos também caiu: serão 29, cinco a menos que os 34 de 2020;
- Desses 29, 18 reduziram o número de postulantes.
Para especialistas, a diminuição no número de candidatos era previsível e decorre, principalmente, de reformas políticas que levaram à diminuição de candidatos e que os partidos apostassem em candidaturas mais competitivas.
São três as mudanças principais, feitas a partir de 2017:
- O limite máximo de candidaturas a vereador diminuiu;
- As federações partidárias, que substituíram as coligações partidárias já em 2020 (vale tanto para vereadores quando para deputados; e
- A cláusula de barreira.
Em 5 anos (de 2019 a 2023), 11 partidos deixaram de existir no Brasil por terem sido incorporados por outras legendas ou terem se fundido para criar uma nova. Nos 23 anos anteriores, de 1995 a 2018, haviam sido 8.
“A gente tem um processo que você vai diminuindo o número de partidos e isso não é ruim, isso é bom”, afirma o cientista político Carlos Melo, professor do Instituto de Ensino e Pesquisa, o Insper. “Organiza melhor o sistema político, torna o sistema menos confuso com tantas letrinhas, tantas legendas que o eleitor não é capaz de controlar, e acaba com os partidos de aluguel”.
1) O limite máximo de candidaturas a vereador diminuiu
Se uma cidade tem 10 vagas para vereador, cada partido pode lançar até 11 candidatos em 2024. Em 2020, podia lançar 15.
Isso porque o limite máximo de candidaturas por partido foi reduzido de 150% do total de vagas na Câmara Municipal para 100% mais 1.
A mudança decorre de uma alteração na legislação feita em 2021.
“[Com isso], a gente vai ter um quadro talvez até mais acentuado de redução dos partidos nas pequenas cidades, de termos 3 ou 4 partidos [nas Câmaras] em média nas pequenas cidades, porque ficou muito difícil um partido ter mais de 10%, 11% [dos votos] para eleger um vereador nessa cidade”, afirma o cientista político Jairo Nicolau, da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
📉Em média, cada cidade brasileira vai ter 164 candidatos a vereador em 2024. Em 2020, foram 200 por cidade.
2) As federações partidárias
Esta é a primeira eleição das federações, que permitem a dois ou mais partidos atuarem como se fossem um só durante, no mínimo, 4 anos (diferente das coligações, que valiam só durante o período eleitoral).
Como atuam como um só partido, cada federação deve respeitar o limite máximo de vereadores descrito acima. Além disso, devem lançar um só candidato a prefeito em cada município.
“A minirreforma de 2017, que vai acabando com as coligações proporcionais. Então, partidos que pegavam carona do partido maior para fazer deputados e tudo mais, não interessa mais. Não adianta mais. Se não adianta, o cara está inviabilizado. Então nem candidato vai ter mais”
“Se dois ou três partidos estão juntos e têm que lançar candidato, a tendência é lançar um só [a vereador]”, disse o cientista político Eduardo Grin, também da FGV.
O modelo também limita as chances de partidos pequenos lançarem candidaturas com poucas chances de vitória – já que o número de vagas para candidatura é mais limitado.
🧑🤝🧑Dos 5 partidos que mais reduziram as candidaturas em 2024, quatro se uniram em federações (Cidadania, PCdoB, PV e PSDB).
3) A cláusula de barreira
A terceira mudança é a cláusula de barreira, que entrou em vigor em 2018 – já valia, portanto, em 2020 –, e que sobe progressivamente a cada eleição.
A regra estabelece que os partidos precisam ter um número mínimo de votos ou de deputados federais eleitos para ter acesso ao Fundo Partidário e à propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV.
Esse piso sobe a cada eleição – o número mínimo de votos vai passar dos atuais 2% dos votos válidos para 2,5% em 2026 e 3% em 2030. O de número deputados eleitos vai dos 11 de hoje para 13 em 2026 e 15 em 2030.
Embora os cálculos sejam sobre a eleição para a Câmara dos Deputados, a eleição municipal é fundamental para atingir a cláusula de barreira, segundo especialistas. Isso porque eleger prefeitos, vices e vereadores ajuda a ter palanque e base eleitoral para a disputa federal. Isso induz os partidos a concentrar esforços em candidaturas competitivas.
“As eleições municipais são muito importantes porque preparam as eleições estaduais e federais daqui dois anos. Quanto mais prefeitos aliados um deputado tem, mais terá em estrutura de campanha. Os partidos lançam suas bases de apoio [agora] para daqui a dois anos”, afirma Eduardo Grin.
Onde vai ter mais candidato? E onde vai ter menos?
Todas as regiões brasileiras tiveram queda no número de candidaturas. As maiores foram no Norte (-23%) – onde todos os estados tiveram queda – e no Nordeste (-20%).
A queda acontece também em todos os estados, mas com menor intensidade em quatro dos cinco maiores colégios eleitorais do país: São Paulo, Minas Gerais, Bahia e Rio Grande do Sul.
A exceção é o Rio de Janeiro. Terceiro maior eleitorado, o estado vai ter 34% menos candidatos que em 2020, o segundo maior recuo, atrás apenas do Amapá, o segundo menor colégio do país, e que tem queda de 36%.
Em relação aos municípios, o cenário é diferente: a maior parte teve redução, mas não todos.
Segundo os dados do TSE, 3.691 das cidades brasileiras – ou 2/3 do total – teve queda nas candidaturas. Em outra 1.741 (pouco menos de 1/3) o número de candidatos aumentou, em 137, permaneceu idêntico ao de 2020.
Tanto no caso das diminuições como no dos aumentos, o mais comum é que as variações fiquem entre 10% e 20%. Variações mais elevadas, acima de 50%, são mais raras.
🔎A maior queda ocorreu em Fazenda Nova (GO), cidade de 5 mil habitantes, perdeu 73% dos candidatos e tem, até aqui, um candidato a prefeito, um a vice e 18 a vereador (a Câmara tem 9 vagas).
🔎A maior alta, em Inhacorá (RS), que tem 2 mil habitantes e vai ter dois candidatos a prefeito, dois a vice e 36 a vereador (também há 9 vagas lá).
A queda é mais acentuada quanto maiores são os municípios e o aumento, quanto maiores eles são.
Nas cidades com mais de 500 mil habitantes, as candidaturas caíram 38%, 6 vezes o recuo registrado nas que tem até 5 mil, onde em média recuaram 6%. A cidade de São Paulo, por exemplo, a maior do país, tem pouco mais da metade dos candidatos que teve em 2022: são 10 a prefeito (foram 14 em 2022) e 1.008 a vereador (foram 2.002).
Inversamente, entre os 1.741 mil municípios que vão ter aumento, a maioria absoluta (67%) tem até 10 mil habitantes. Além disso, as altas estão concentradas em estados com grandes colégios eleitorais, com exceção, novamente, do Rio de Janeiro: 20% das cidades com aumento de candidatos são de MG (o 2º maior), 13%, de SP (o maior), 9% do Rio Grande do Sul (o 5º maior) e 9% do Paraná (6º maior).