Um ano após enchente histórica, casas ainda não foram entregues no vale do Taquari, no RS
Destruição em Roca Sales (RS), no vale do Taquari, após enchente de maio; região já havia sido castigada pelas chuvas em setembro de 2023 - Pedro Ladeira - 9.mai.2024/Folhapress
Um ano após a devastadora enchente que atingiu a região do vale do Taquari, no Rio Grande do Sul, nenhuma moradia definitiva foi entregue às pessoas que perderam suas casas.
A demora coloca em risco a recuperação plena da região, devastada por uma cheia histórica no dia 4 de setembro de 2023 —quando o nível do rio Taquari chegou a 29 metros, 10 metros acima da cota de inundação— e enchentes subsequentes.
A água alcançou o terceiro andar de prédios e arrancou casas do lugar. Ao todo, 54 pessoas morreram, sendo 17 em Muçum e 14 em Roca Sales, as duas cidades mais afetadas.
O problema causado pela tragédia que até então era a pior em 40 anos no Rio Grande do Sul foi agravado pelas enchentes sem precedentes de maio deste ano, que elevaram o rio a 33 metros, repetindo o caos.
Dias após a enchente do ano passado, uma comitiva liderada pelo então presidente em exercício Geraldo Alckmin (PSB) visitou o vale do Taquari e anunciou ajuda inicial de R$ 741 milhões à região, sendo R$ 195 milhões para moradia.
Em março, o presidente Lula (PT) anunciou em Lajeado a contratação de 857 novas moradias do Minha Casa Minha, Vida em 13 municípios, sendo seis no vale do Taquari, no valor de R$ 209 milhões de um total de R$ 344 milhões em verbas para infraestrutura.
O vice-governador do estado, Gabriel Souza (MDB), afirma que as obras de reconstrução ainda não foram iniciadas pelo governo federal.
“O governo federal diz ‘olha, o município não entregou os laudos, o município não alimentou o sistema’, e o município diz ‘não, nós alimentamos, mas há burocracia do governo federal'”, disse o vice do governador Eduardo Leite (PSDB).
Procurada, a Secretaria Extraordinária para Apoio à Reconstrução do Rio Grande do Sul, que comanda os esforços do governo federal no estado, não respondeu à reportagem.
Outro desafio no vale do Taquari é a qualificação de terrenos em áreas consideradas seguras por parte dos municípios mais afetados. E mais uma vez a questão esbarra em problemas como burocracia e falta de estrutura.
De acordo com o secretário de habitação do Rio Grande do Sul, Carlos Gomes, muitos lugares ainda precisam de obras como terraplanagem e rede de saneamento.
“O estado está aprendendo que os municípios, muitos deles, têm limitações em corpo técnico para a preparação dessas áreas”, afirmou o secretário. “Em outros, que nem sequer áreas tinham, o estado teve que desapropriar áreas para preparar e receber essas habitações.”
Alguns terrenos já foram disponibilizados e preparados para construção, outros devem ser entregues em setembro e outubro. Segundo Gomes, a entrega de terrenos está avançada em cidades como Santa Tereza, Encantado, Lajeado e Estrela.
Outras cidades exigem um preparo maior, visto que o plano não inclui apenas moradias. Em Muçum, por exemplo, a estimativa é que ao menos 30% do município precise ser remanejado, dentre habitações, serviços e empresas. Em Roca Sales esse percentual pode chegar a 50%.
“Nós vamos entregar várias casas em tempos diferentes, e esse tempo diferente se dá porque os terrenos também serão entregues em tempos diferentes”, disse o secretário.
Fatores climáticos, contudo, ainda representam riscos. “Chuva, para nós, é fonte de preocupação, porque pode atrasar início de obra, pode comprometer os terrenos”, explica.