Ex-jogador de futebol de ultradireita é eleito presidente da Geórgia em pleito contestado; entenda

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O novo presidente da Geórgia, Mikheil Kavelashvili, participa da sessão que o elegeu no Parlamento em Tbilisi, capital do país - Irakli Gedenidze - 14.dez.24/Reuters

O Parlamento da Geórgia elegeu no sábado (14) o ex-jogador de futebol Mikheil Kavelashvili para a Presidência do país em processo que tem sido alvo de acusações de fraude por parte da oposição.

Kavelashvili é um político de ultradireita conhecido por seu posicionamento anti-União Europeia, acenos à Rússia e falas homofóbicas. O resultado sinaliza que a ex-república soviética do Cáucaso deverá se afastar do Ocidente e se aproximar de Moscou nos próximos anos.

Manifestantes protestam nas ruas desde que o governo em Tbilisi paralisou o processo de adesão à UE, medida que provocou revolta e contraria a opinião da maior parte da população, favorável à entrada do país no bloco, segundo pesquisas.

Em outubro, o partido de direita e de tendências autoritárias Sonho Georgiano venceu as eleições parlamentares com 54% dos votos. Desde então, a oposição boicota o Legislativo com o argumento de que o pleito foi fraudado —por isso, Kavelashvili foi escolhido por 224 dos 225 eleitores aptos a votar para presidente, que incluem membros do Parlamento e representantes de governos regionais.

Observadores de organismos internacionais, da União Europeia e da sociedade civil georgiana apontaram fraude, manipulação e constrangimento nas eleições. A atual presidente do país, Salome Zourabichvili, foi à Justiça, pediu o cancelamento do pleito e estimulou uma onda de manifestações e desobediência civil —a oposição diz que vai continuar considerando a política como presidente legítima.

Defensora da aproximação da Geórgia com a União Europeia, Zourabichvili ainda galvanizou partidos de oposição para deslegitimar o Parlamento, dominado antes e depois do pleito pelo Sonho Georgiano. A resposta foi violenta. Segundo as forças de segurança, 460 prisões foram feitas, 300 pessoas ficaram feridas e 80 foram hospitalizadas. A oposição afirma que os números estão longe da realidade.

Em publicação na plataforma X logo antes dos votos no Parlamento, Zourabichvili escreveu que a votação de sábado (14) representava “um gesto de desprezo à democracia”. Já o premiê, Irakli Kobakhzide, parabenizou Kavelashvili e disse, sem provas, que Zourabichvili estava a serviço de potências estrangeiras.

Neste sábado, centenas de pessoas enfrentaram neve para protestar contra a eleição de Kavelashvili em frente à sede do Parlamento. Alguns dos manifestantes ergueram cartões vermelhos, em referência irônica à carreira no futebol do agora presidente georgiano.

Vezi Kokhodze, ouvido pela agência de notícias Reuters, disse que o pleito representou uma traição ao desejo do georgianos de se aproximar da UE e do Ocidente. “Isso representa a vontade do sistema de levar a Geórgia de volta às raízes soviéticas”, afirmou.

Kavelashvili é o líder da corrente Poder Popular, uma facção dentro do partido Sonho Georgiano que foi responsável pela controversa lei sobre “agentes estrangeiros”, aprovada em maio deste ano. Segundo a legislação, organizações que recebam mais de 20% de seu financiamento do exterior devem se registrar como agentes de influência estrangeira —segundo a oposição, a medida persegue ONGs e entidades contrárias ao governo.

O novo presidente foi indicado ao posto no mês passado pelo ex-primeiro-ministro Bidzina Ivanishvili, um bilionário pró-Rússia que ajudou a fundar e é considerado o principal líder do Sonho Georgiano.

As eleições acabaram sendo traduzidas como uma escolha entre Bruxelas e Moscou. Em comunicado nesta semana, o bloco manifestou preocupação com os rumos do país e pediu garantia aos direitos e à segurança dos manifestantes.

O presidente da França, Emmanuel Macron, gravou na sexta-feira (13) um vídeo direcionado à Geórgia. Ele disse que “pertencer à Europa não é sobre chantagem”, mas sim sobre “aceitar regras como um modo de resolver diferenças”.

O esforço diplomático de Macron é explicado pelo fato de Zourabichvili ter nascido na França, filha de imigrantes georgianos. Nos anos 2000, ela abdicou da cidadania francesa para se envolver com a política da Geórgia.

Macron, porém, tem igualmente boa interlocução com Ivanishvili. O oligarca já morou na França, onde tem diversas propriedades, e recebeu um telefonema do presidente francês nesta semana. O teor da conversa não foi divulgado.

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