Ex-refém do Hamas relata 52 dias de inferno em entrevista; confira
A israelense Karina Engel-Bart, ex-refém do Hamas - Marlene Bergamo/Folhapress
A israelense Karina Engel-Bart descreve como “52 dias de um inferno diário” o período em que ficou mantida refém pelo grupo terrorista Hamas na Faixa de Gaza, em Israel. Ela e sua família foram sequestrados em sua casa no ataque de 7 de outubro de 2023.
Nascida na região de Córdoba, na Argentina, ela se mudou para o país do Oriente Médio aos 17 anos. Conheceu seu marido, Ronen, enquanto os dois caminhavam pelas ruas com seus respectivos cachorros —”como em uma cena do filme [da Disney] 101 Dálmatas”, descreve ela.
Os dois viviam no kibutz de Nir Oz, situado perto da fronteira com Gaza, e tinham três filhos: Tom, 22, Yuval, 20 e Myca, 12. O local foi uma das comunidades mais atingidas nos ataques de 7 de outubro de 2023. Um em cada quatro moradores morreu ou foi sequestrado durante o ataque.
A família de Karina foi uma delas —o único que se salvou foi Tom, que não estava em casa naquele fim de semana. Seu marido Ronen foi o primeiro a ser levado e acabou sendo assassinado. Seu corpo, porém, não foi devolvido. Ele faz parte do grupo de 69 reféns, vivos e mortos, que ainda permanecem em Gaza.
Em seguida, os terroristas levaram Karina. Myca e Yuval também foram sequestradas, mas ficaram em um local separado. Mãe e filhas só se reencontraram 23 dias depois em um hospital em Gaza até que foram devolvidas em um acordo de cessar-fogo em novembro de 2023.
Karina relembrou os detalhes daquele período em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo realizada na sexta-feira passada (21/3), em um hotel em São Paulo, data do aniversário de seu marido. Ela viajou ao Brasil a convite da Federação Israelita de São Paulo (Fisesp) e da organização pró-Israel StandWithUs Brasil. No domingo (23/3), participou de um evento no clube Hebraica, e depois seguirá para agendas no Rio e em Brasília.
A israelense conversou com a coluna segurando um desenho de Ronen e usando um broche com um laço amarelo, símbolo da luta pela libertação dos que foram sequestrados. Apesar de viver perto de uma região com histórico de conflitos, ela diz que considerava sua casa “o lugar mais lindo e seguro do mundo” e que jamais imaginou que um ataque como o de 7 de outubro pudesse ocorrer.
Ela afirma que sua missão, no momento, é dar voz à luta dos reféns e trazer de volta o corpo de seu marido para que possa enterrá-lo. Questionada sobre como o governo do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu tem lidado com o conflito e as negociações, ela diz que “não fala sobre política”, mas que na guerra “não há vencedores”.
O ATAQUE
Queria voltar ao dia 7 de outubro de 2023. O que aconteceu com a sra. e sua família?
Nós [ela e o marido, Ronen] nos levantamos como sempre fazíamos nas manhãs de sábado para dar um passeio dentro do kibutz. Às 6h30 começou o bombardeio. Já estamos acostumados aos mísseis [vindos de] de Gaza, mas desta vez foi mais intenso. Havia algo diferente. E naquele momento tudo começou e tudo acabou.
Às 7h30 vimos os primeiros terroristas da janela de casa. Ronen pediu para que eu entrasse no quarto seguro, que tem a porta blindada, com as meninas e as cachorras. Fechei a porta e essa foi a última vez que vi o meu marido.
Ronen estava armado e houve um confronto entre eles. Conseguia escutar tudo. Consegui manter a porta fechada por mais ou menos uma hora, mas conseguiram entrar. Eles me levaram de maneira violenta. Me arrastaram, me bateram. Me colocaram em uma moto com dois homens e me levaram. No caminho, me apontaram uma faca e tentaram me estuprar.
Onde a sra. ficou?
Em um porão de uma casa com outras duas mulheres. Quatro terroristas nos vigiavam. Ficamos 23 dias ali, fechadas em um quarto pequeno, dormindo no chão. Havia um colchão muito fino. Era um cômodo sem luz, sem janelas, havia apenas uma lâmpada. Levaram meus óculos [de grau], não enxergava direito.
Houve algum episódio de violência física?
Física não, mas psicológica. Nos tratavam mal. Não tínhamos nenhuma notícia do que se passava fora dali. Todos os dias eu perguntava onde estavam as minhas filhas. Eles me prometeram que não raptavam crianças porque não era permitido pelo Islã. Era mentira.
Como a sra. se reencontrou com suas filhas?
No dia 29 de outubro, nos avisaram que íamos para outro lugar e nos levaram a um hospital. Ficamos algumas horas fechadas em um quarto muito pequeno. De noite, nos levaram para um outro cômodo em que estavam Sharon e David [Cunion, seus vizinhos no kibutz] com as filhas gêmeas de três anos e meio. Nesse momento me dei conta de que minhas meninas também estavam em Gaza. Caí em um poço de angústia e dor. No dia seguinte, um homem [do Hamas] me disse que era meu dia de sorte.
Foi nesse momento que a sra. se reencontrou com suas filhas?
Havia uma estrutura de fotografia e vídeo montada quando me encontrei com Myca e Yuval. Elas estavam feridas, com as pernas engessadas. Sujas, fracas.
Myka e Yuval estiveram todo esse tempo sozinhas no hospital. Elas sofreram um acidente e se machucaram quando foram levadas [pelo Hamas]. Myca tem uma fratura no pé e até hoje sente dores. Yuval ficou sem um pedaço do dedo e do músculo [do pé].
A cena foi filmada?
Sim. Nos filmavam uma vez por semana mais ou menos. Eles nos davam instruções do que tínhamos que falar. Tínhamos que explicar que eles nos tratavam bem, que nos davam comida e nos deixava tomar banho. Era para fazer propaganda. Nos filmavam como se fôssemos animaizinhos em uma jaula. Mas não podíamos usar o banheiro sem permissão. Nos deixavam tomar banho apenas a cada dez dias. Usávamos sempre a mesma roupa. Éramos nove pessoas em um quarto pequeno.
Como era a rotina neste hospital?
Os dias eram iguais. Tentávamos dormir o máximo que conseguimos para não sentir fome e para passar o tempo. Tentávamos manter as crianças calmas para não chorarem. Cuidávamos [reféns] uns dos outros.
Como conseguia manter a força e o espírito?
Não me sinto uma heroína, nem valente. Eu sou mãe e a única coisa que me importava era sair de lá com todos vivos. E isso é o que me ajudava a pensar que nós tínhamos que manter a cabeça erguida e sem baixar o olhar. Nunca mais, ninguém mais vai nos humilhar novamente.
Vocês escutavam os barulhos do conflito?
No começo não. Mas nos últimos dias, sim, porque a guerra ficou mais intensa. E assim chegamos até 27 de novembro [de 2023], o dia em que íamos ser libertados. Na noite anterior nos avisaram.
Vestiram-nos com roupas muçulmanas e nos levaram em uma caminhonete. Fomos até a passagem de Kerem Shalom [controlada por Israel], onde um grupo de médicos e soldados nos esperava. Nesse momento pudemos respirar e o corpo começou a relaxar. Foram 52 dias de um inferno diário.
Nos levaram de helicóptero para o hospital em Tel Aviv. [Os cuidados que receberam] Nos ajudaram a acreditar novamente nas pessoas. E no dia 1º de dezembro nos informaram que Ronen já havia falecido.
FIM DO CESSAR-FOGO
Há uma discussão de que o governo de Israel ignora a situação dos reféns e continua com a guerra por razões políticas. Depois de todo o sofrimento que você passou, como encara a atual situação?
Não entro na questão política. Não vou te dizer se está certo ou errado, porque tudo está errado. Na guerra não há vencedores. Há um lado que perde mais, há um lado que perde menos, mas todos perdem. A única coisa importante agora é que os 59 reféns israelenses [voltem]. Para que aqueles que ainda estão vivos possam ser resgatados. E os que estão mortos sejam devolvidos às suas famílias para serem enterrados em suas terras.
Entendo que não queira falar sobre política, mas é impossível fugir do tema. Queria saber como a sra. recebeu a notícia de que Israel rompeu o cessar-fogo e realizou uma série de ataques em Gaza
Não vou responder. Raptaram-me de casa de pijama. Isso é a única coisa que importa. Mataram-me no dia 7 de outubro. Esta guerra não foi iniciada por Israel, mas pelo Hamas.
E como acabar com esse ciclo de violência?
Quando o Hamas libertar os reféns. Não sou a favor da guerra. Mas ela não foi iniciada por Israel. E a única forma de terminar é que os reféns voltem.
SITUAÇÃO DOS PALESTINOS
Queria falar de outro tema, não sobre Gaza, mas a situação na Cisjordânia. O filme “Sem Chão” (em inglês “No Other Land”) levou o prêmio de melhor documentário no Oscar deste ano…
Eu não vi o filme.
Bem, é sobre a situação dos palestinos…
Não importa e também não vou responder. Não tenho como levar em conta o que acontece com outras pessoas, porque estou muito ocupada com que acontece comigo, com meu povo. Sei que você tem que fazer seu trabalho, mas eu tenho que fazer o meu.
Só queria entender como a senhora acompanha tudo o que está ocorrendo [nos dois territórios]
Não acompanho nada. Não concordo com o que está acontecendo. Mas viver e deixar viver é o principal. Só que não me deixaram viver. Eu não fiz nada de errado. Apenas vivíamos em um lugar lindo a 1 km e 700 metros de Gaza. Entraram em minha casa e eu fui raptada.
Nenhuma mãe deve enterrar seu filho, nenhum filho deve perder seu pai. Meu marido foi morto da forma mais cruel possível. Não me perguntem o que acontece do outro lado, porque não me importa. Quero que me devolvam o corpo de Ronen e dos 59 reféns.
PAZ
Como era a vida de vocês?
Éramos uma família normal. Ronen trabalhava como engenheiro, meus filhos iam à escola, eu trabalhava na área de contabilidade de uma empresa. Há uma frase que dizemos sobre o local onde vivemos: 95% do tempo é um paraíso e 5% é um caos, quando começam os conflitos e os bombardeios.
Como estão as coisas agora?
Minha vida antes do 7 de outubro acabou. Tivemos que aprender a viver novamente. E apesar da dor, da angústia, tentamos seguir a vida como ele [Ronen] gostaria, com um sorriso. Tentamos continuar. Niroz está destruído. Estamos em outra cidade provisoriamente. Vivemos [ex-habitantes do kibutz] em um prédio. É diferente, mas tentamos manter a comunidade viva.
Depois de tudo o que aconteceu, e ainda acontece, ainda será possível a paz?
Sim, a esperança é a única que não se perde.
A senhora está magoada, ofendida e devastada. Assim como mães e pais do outro lado. Como será possível superar essa mágoa?
Quando as pessoas deixarem de ser mandadas por… e o coração quiser a paz. Não importa se você é amarelo, vermelho, verde ou azul.
E se os povos querem a paz porque isso ainda não ocorreu?
Quando o povo escolher por si próprio haverá paz. Enquanto isso os que nos governam…