“Não existe na Terra nenhum homem mais representativo do que Raoni”, diz Lula ao condecorar cacique em MT

O presidente Lula (PT) com o cacique Raoni Metuktire em encontro na Terra Indígena Capoto/Jarina, nesta sexta-feira (4) - Ricardo Stuckert/Divulgação
O presidente Lula (PT) chegou no início da tarde da sexta-feira (4) à aldeia Piaraçu, na Terra Indígena (TI) Capoto/Jarina, em Mato Grosso, para um encontro com o cacique Raoni Metuktire. Raoni é o líder indígena mais conhecido e respeitado do país e foi um dos oito brasileiros que subiram a rampa do Palácio do Planalto na posse de Lula em 2023.
No início da visita, Lula e Raoni fizeram uma reunião privada. Por volta de 13h30, o presidente condecorou o cacique Raoni com a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito, concedida a cidadãos brasileiros por serviços de destaque prestados ao país. Em troca, foi oferecido a Lula um colar feito de conchas, usado pelos indígenas kayapós em celebrações.
“É um encontro histórico, que marca a reunião de duas grandes lideranças globais”, disse Sonia Guajajara, ministra dos Povos Indígenas. “Hoje, o presidente Lula vem subir a rampa na terra do cacique Raoni.”
Além de Sonia, acompanharam a visita a primeira-dama, Janja, a ministra de Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, o ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro, a ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Macaé Evaristo, o ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira, e a ministra da Cultura, Margareth Menezes. Joenia Wapichana, presidente da Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas), também esteve no encontro.
Raoni disse que Lula fez a visita após ter recebido, pessoalmente, três convites do próprio cacique. “Três vezes me encontrei com ele. Ele disse que viria, e não veio. Mas agora ele está aqui”, disse.
Em discurso, o líder cobrou Lula para que não seja feita a exploração de petróleo na Foz do Amazonas. “O senhor está pensando no petróleo que está debaixo do mar, mas eu penso que não [deve ser assim]. Essas coisas, como estão, garantem que tenhamos o meio ambiente e a Terra com menos poluição e menos aquecimento. Podemos ter consequências muito grandes se não pararmos”, disse, em língua kayapó.
O cacique também pediu a Lula que pense em um sucessor alinhado à causa indígena. “Não quero que entremos em contradição, mas que façamos um trabalho que beneficie os povos indígenas do Brasil. Eu fiz uma cobrança para que ele [Lula] não repita erros que já fez na gestão anterior. Presidente, daqui para a frente, vamos trabalhar certo, para que as pessoas sejam felizes com o nosso trabalho”, afirmou.
O líder indígena disse ainda que, em conversa com Lula, pediu que fossem revisados os limites do entorno da TI Capoto/Jarina. “Estou cobrando para que ele faça uma limpeza, um novo limite, para que nossos filhos e netos possam usufruir desta terra”, concluiu.
Lula, em seu discurso, elogiou a liderança de Raoni. “Já viajei muito pelo mundo, já encontrei com os presidentes mais importantes do planeta, mas nenhuma dessas pessoas que encontrei, ou palácios que visitei, é mais importante do que a visita que estou fazendo aos povos indígenas do Xingu”, disse.
“Não existe na face da Terra nenhum homem, nenhum presidente, nenhum rei mais representativo do que Raoni. Ele é uma liderança que inspira paz, sabedoria ancestral e profundo conhecimento sobre as necessidades da Terra e a relação do homem com a natureza. Por isso, atrai atenção e apreço de tanta gente em todo o mundo. Anônimos, intelectuais, celebridades nacionais e internacionais”, completou.
Segundo o presidente, a visita serviu para homenagens, mas também para ouvir demandas dos indígenas. “Sem a proteção dos povos indígenas, a proteção das florestas e dos rios, a crise climática traria eventos ainda mais extremos, de secas e inundações para toda a população brasileira, sem exceção”, disse.
Lula afirmou também que os direitos dos indígenas são prioridade do governo. “Vocês são fundamentais para atingirmos a meta de zerarmos o desmatamento na amazônia até 2030.”
O evento incluiu a presença de outras lideranças da bacia do rio Xingu. A partida do presidente e do grupo que o acompanha deve acontecer às 19h50, em direção a São Paulo.
Os indígenas planejaram entregar a Lula uma carta no evento com uma série de demandas ligadas à proteção da região. A articulação foi assinada por 48 comunidades indígenas e ribeirinhas, e cinco organizações da sociedade civil que atuam na região da bacia do Xingu.
A TI Capoto/Jarina é referência na luta contra o desmatamento e contrasta com os entornos dominados pelo garimpo ilegal e a produção agrícola. Dados oficiais apontam que apenas 0,15% do território foi desmatado entre 2008 e 2024.
No entanto, o restante do estado teve cerca de 33 mil km² de áreas degradadas de janeiro a outubro de 2024, segundo o Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia). O valor representa um aumento de 187% se comparado ao mesmo período em 2017, último pico de degradação.
A carta também cita os incêndios florestais. De 2023 a 2024, o aumento de queimadas na bacia do Xingu foi de 353%. No território indígena do Xingu, especificamente, a alta foi de 124%, enquanto a Terra Indígena Kayapó sofreu com o acréscimo de 1.886% em florestas perdidas para o fogo.
Relação com o presidente
Durante o primeiro mandato do petista, em 2003, Raoni advogou contra a construção da hidrelétrica de Belo Monte, àquela época em fase de planejamento. A usina foi inaugurada em 2011, já no mandato de Dilma Rousseff (PT).
Em episódio mais recente, em 2023, o cacique convidou Lula para o evento Chamado do Cacique Raoni, que reuniu mais de 700 pessoas na aldeia Piaraçu para discutir o marco temporal.
O presidente acabara de realizar uma cirurgia no quadril e não compareceu, enviando em seu lugar a ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara. Na mesma semana, no entanto, Lula foi à festa do senador Randolfe Rodrigues (sem partido) em Brasília.
Em entrevistas, Raoni tem feito críticas a projetos do governo. Em fala recente à agência AFP, o cacique afirmou que permitir a exploração de petróleo na amazônia seria como “repetir erros do passado”, se referindo a Belo Monte, e se posicionou contra o projeto de exploração da Bacia Foz do Amazonas. A construção da Ferrogrão –ferrovia que ligará Sinop (MT) a Miritituba (MT)– também é uma de suas preocupações.
Em setembro de 2024, Raoni disse ao jornal Folha que “muitas coisas melhoraram” para os indígenas e o ambiente com a troca de Bolsonaro por Lula, embora a gestão petista ainda precise avançar na demarcação de terras indígenas.
Em outubro do ano passado, o líder indígena foi a Brasília em uma tentativa de ser recebido pelo presidente, sem uma agenda marcada previamente. Na ocasião, esperou por cerca de 20 minutos no saguão do Planalto antes de ter a confirmação de que o encontro não aconteceria.
Trajetória
Nascido na década de 1930 (a data exata não é conhecida) na aldeia Krajmopyjakare, no nordeste de Mato Grosso, Raoni Metuktire passou anos vivendo como nômade junto aos indígenas kayapós. Teve o primeiro contato com a língua portuguesa em 1954 e, desde então, é ativista pela proteção das florestas e dos modos de vida indígenas.
Em 1984, o cacique conseguiu a demarcação de 15 km de terras indígenas em negociação com o então ministro do Interior, Mario Andreazza. Também participou da Assembleia Constituinte de 1988, levando dezenas de kayapós a Brasília para pressionar por uma Constituição que protegesse os povos originários.
Já recebeu títulos como o de Membro Honorário da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), em 2021, e de cavaleiro da Legião de Honra da França, em 2025. Também foi indicado ao Nobel da Paz em 2020.
Visita de Hollywood
Ainda nesta semana, o cacique recebeu uma visita da atriz americana Angelina Jolie. Ela viajou à aldeia na última quarta-feira (2), com o apoio da organização ambiental Re:wild, fundada por cientistas e pelo ator Leonardo DiCaprio. Imagens publicadas por um fã-clube mostram Jolie ao lado do cacique.
O motivo oficial da presença da estrela de cinema e ativista social na aldeia não foi divulgado.
