Família é união estável entre homem e mulher, diz papa Leão 14 em discurso a diplomatas
Papa Leão 14 durante audiência com diplomatas no Vaticano - Imprensa do Vaticano/via AFP
O papa Leão 14 afirmou na sexta-feira passada (16) que a família é fundada pela “união estável entre homem e mulher”, durante audiência ao corpo diplomático do mundo inteiro. Embora não seja surpreendente, pois condiz com a doutrina católica e com a posição já conhecida que ele tinha como cardeal, a declaração repercutiu mundialmente por ter sido a primeira do novo papa sobre o tema.
A referência feita pelo pontífice ocorreu quando ele dizia que é responsabilidade dos governos construir “sociedades civis harmoniosas e pacíficas”. Segundo o papa, isto pode ser alcançado “investindo na família, fundada na união estável entre homem e mulher”.
Questionado sobre a declaração do papa, o arcebispo de Porto Alegre, dom Jaime Spengler, presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), disse que ela não representa nenhuma mudança em relação ao conceito católico de família.
Independentemente disso, declarou dom Jaime, todos são iguais perante Deus. “Está no Evangelho. São todos pessoas”, afirmou o cardeal, que está em Roma para a missa inaugural do papado, no domingo (18).
Francisco, antecessor de Leão 14, deu ao longo de seu pontificado (2013-2025) algumas declarações interpretadas como sinais de uma possível mudança de postura da Igreja sobre o casamento homoafetivo.
Em 2020, por exemplo, Francisco declarou que os homossexuais precisavam ser protegidos por leis de união civil. Mas no ano passado, jornais italianos relataram que Francisco teria se queixado de frocciaggine (termo homofóbico que pode ser traduzido como viadagem) nos seminários, instituições de formação de sacerdotes.
O tema principal do discurso do papa Leão 14 na sexta-feira (16), porém, foi a tolerância à diversidade. Ele citou sua própria “experiência de vida, desenvolvida entre a América do Norte, a América do Sul e a Europa”, como evidência da necessidade de diálogo entre os povos.
Nascido nos EUA, Robert Prevost trabalhou como missionário e depois bispo no Peru, adquirindo a nacionalidade peruana; e também trabalhou no Vaticano, como prior geral da Ordem de Santo Agostinho e prefeito do Dicastério para os Bispos, que aprova nomeações para dioceses do mundo inteiro.
“A minha própria história é a de um cidadão, descendente de imigrantes, que por sua vez emigraram”, discursou o papa. “Cada um de nós, ao longo da vida, pode encontrar-se saudável ou doente, empregado ou desempregado, na sua terra natal ou numa terra estrangeira. A nossa dignidade, no entanto, permanece sempre a mesma, a de uma criatura querida e amada por Deus.”
Como tem feito em quase todos os seus pronunciamentos, o papa também fez um apelo pela paz mundial na sexta (16). “No nosso diálogo, gostaria que tivéssemos presentes três palavras-chave”, afirmou aos diplomatas, citando paz, justiça e verdade.
A audiência ao corpo diplomático é um evento obrigatório do calendário do novo pontificado. O Brasil foi representado pelo embaixador do país junto à Santa Sé, Everton Vieira Vargas.
Vargas, que era colega de academia de Prevost antes do conclave, conversou brevemente com o papa, em português, por iniciativa do pontífice. O embaixador transmitiu os votos de êxito do presidente Lula e convidou o papa a visitar o Brasil, se possível em novembro, na COP30, a conferência da ONU sobre o clima, sediada neste ano em Belém.
O Brasil, assim como os demais países, tem embaixadas separadas para a Itália e a Santa Sé. Trata-se de uma exigência da Igreja, como forma de afirmar a independência do minúsculo (0,44 quilômetro quadrado) Estado do Vaticano, criado em 1929 por um tratado entre o ditador Benito Mussolini e o papa Pio 11.
No domingo (18), o papa celebrou na praça São Pedro a missa inaugural de seu pontificado. Leão 14 já rezou algumas missas desde que foi escolhido no conclave da semana passada, mas a de domingo (18), chamada “de entronização”, foi um marco importante do início do papado. Cerca de 250 mil pessoas estiveram no Vaticano para assisti-la, além de 200 delegações estrangeiras. O Brasil foi representado pelo vice-presidente, Geraldo Alckmin.