Musk reduz postagens sobre política e foca tecnologia em meio à crise na Tesla
Elon Musk. Foto: Getty Images
Elon Musk diminuiu drasticamente o número de postagens sobre política em sua conta no X, coincidindo com o anúncio do seu afastamento do governo Trump e no momento em que enfrenta queda de vendas em suas empresas e pressão de investidores.
Às vésperas das eleições americanas em 2024, o empresário chegou a publicar 100 vezes por dia, quase exclusivamente sobre assuntos políticos em favor da campanha do republicano, da qual foi um dos grandes financiadores, para além da influência exercida nas redes sociais.
Seu perfil foi um dos epicentros de desinformação durante o pleito, recheado de conspirações e mentiras contra imigrantes e políticos democratas. Agora, aos seus 210 milhões de seguidores, o bilionário passou a falar muito mais sobre negócios e tecnologia. Trump passou a ser raramente citado.
Um levantamento do jornal The Washington Post mostra a mudança de comportamento nos últimos três meses. Em fevereiro, segundo a análise, mais da metade das postagens de Musk eram sobre o Doge (Departamento de Eficiência Governamental), órgão supervisionado por ele no início do governo Trump com o objetivo de enxugar a máquina pública americana.
Após cerca de seis meses de trabalho, marcados por demissões em massa e drásticos cortes de custos em iniciativas tradicionais do governo, o departamento gerou economias muito abaixo do esperado, de US$ 2 trilhões, e um enorme desgaste de imagem para Musk e suas empresas.
Em maio, segundo o levantamento, publicações sobre o Doge ou sobre a política americana ficaram abaixo dos 20%; o nome do presidente americano, por sua vez, foi citado em apenas 3% das publicações.
O empresário passou a falar em mais da metade das vezes sobre suas próprias companhias ou questões tecnológicas mais amplas envolvendo carros elétricos, inteligência artificial e exploração espacial. Os nomes de suas empresas são citados em mais de 20% dos tuítes.
O levantamento do jornal utilizou inteligência artificial para coletar e categorizar as postagens da conta do bilionário durante o período, excluindo apenas as respostas do perfil por não permitirem analisar o contexto, diz a publicação.
A guinada de Musk reflete o recuo anunciado por ele em sua atuação política. No fim de abril, ele afirmou que reduziria “significativamente” o tempo dedicado ao seu papel de funcionário especial do governo americano, a um ou dois dias por semana, buscando acalmar investidores preocupados com sua falta de tempo para a Tesla, a maior companhia de Musk.
Além da ineficiência e da impopularidade das ações do Doge, as visões políticas do empresário e as tentativas de interferir em eleições ao redor mundo desencadearam ondas de protestos contra a montadora nos EUA e na Europa, levando a uma queda de 71% dos lucros no primeiro trimestre de 2025.
Ele prometeu seguir mais cinco anos como CEO da montadora e disse que gastaria menos com eleições no futuro, após destinar mais de US$ 290 milhões (cerca de 1,6 bilhão de reais) a candidaturas republicanas e se tornar um dos maiores doadores individuais da história dos EUA.
Em um vídeo republicado por seu perfil na quarta-feira (21), Musk diz que odeia a política, mas sentiu que precisava se envolver. “Eu construo foguetes e carros. Não quero estar na política. Mas a situação era tão grave que não tive outra opção senão me posicionar.”
POV: Como é o feed de Musk no X
O New York Times criou uma versão do que seria o feed, a área onde são exibidas as postagens nas redes sociais, da conta de Elon Musk No X, com o intuito de imaginar que tipo de conteúdo o magnata consome e como eles se relacionam com as visões defendidas por ele.
Para isso, a publicação criou uma conta fantasma, seguiu os mesmos 1.109 usuários seguidos por Musk e analisou mais de 175 mil postagens desses perfis. A aba analisada foi a de “seguindo”, que exibe apenas conteúdos dos seguidores, sem sugestões recomendadas pelo algoritmo do X.
De acordo com o levantamento, os conteúdos mais comuns no feed do magnata são de influenciadores, políticos e veículos de comunicação de direita. Logo abaixo, vêm perfis de empresas de tecnologia e ciência.
Segundo a análise, vários dos temas debatidos por usuários seguidos por Musk, incluindo alguns repostados por ele, apareceram depois no debate público americano, um indício de como a experiência na plataforma influencia suas visões políticas, segundo a reportagem.
Um dos assuntos mais populares seria o próprio Musk, já que ele segue dezenas de usuários que se declaram superfãs e produzem rotineiramente conteúdos elogiosos e favoráveis.
“Seu feed representa uma realidade alternativa lisonjeira, repleta de elogios sem limites — para ele, para a Tesla, para o X e para sua política”, diz a reportagem.