A sessão foi marcada por provocações, interrupções e embates. Em outro momento tenso, o presidente da comissão, senador Marcos Rogério (PL-RO), afirmou que a ministra deveria se pôr no lugar dela —provocando protestos da senadora Eliziane Gama (PSD-MA).
“Essa é a educação da ministra Marina Silva. Ela aponta o dedo e… Mas eu não vou me vitimizar, não”, disse Rogério durante um embate entre a ministra e o líder do PSD, Omar Aziz (AM).
“Eu tenho educação, sim. O que o senhor gostaria é que eu fosse uma mulher submissa. Eu não sou. Eu vou falar”, reagiu Marina.
Durante a discussão com Plínio, Rogério pediu respeito de “parte a parte” e disse que a ministra estava “provocando novamente”. Depois, acrescentou que a ministra será convocada pela comissão na próxima sessão.
Uma das principais discussões foi travada entre Marina e Aziz sobre a BR-319, rodovia federal que liga Porto Velho (RO) a Manaus (AM) e enfrenta, há anos, dificuldades de licenciamento ambiental para ser novamente pavimentada.
Aziz disse que Marina não era “mais ética” do que ninguém que estava na sala. O senador também afirmou que o presidente Lula (PT) se comprometeu a asfaltar a BR-319 e que a população tinha o direito de usar a rodovia para passear, se quisesse.
Marina disse que é usada como bode expiatório no tema e que ficou 15 anos fora do governo (entre 2008 a 2023). A ministra do Meio Ambiente argumentou ainda que a BR poderia ter sido asfaltada no governo anterior, de Jair Bolsonaro (PL).
Lula ligou para Marina na terça (27) à tarde e disse que ela agiu certo ao deixar a sessão. A primeira-dama, Rosângela Silva, a Janja, mandou uma mensagem e saiu em defesa dela nas redes sociais dizendo ser impossível não se indignar com os desrespeitos.
A ministra Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais) classificou o comportamento de Plínio e Rogério como inadmissível, enquanto a ministra das Mulheres, Márcia Lopes, disse que o episódio foi grave, lamentável e misógino.
Janja publicou uma foto ao lado de Marina e disse estar indignada com os desrespeitos sofridos por ela na comissão.
“Sua bravura nos inspira e sua trajetória nos orgulha imensamente. Uma mulher reconhecida mundialmente por sua atuação com relação à preservação ambiental jamais se curvará à um bando de misóginos que não têm a decência de encarar uma ministra da sua grandeza”, escreveu a primeira-dama.
O assunto mobilizou diversos senadores durante a sessão do plenário —parte deles em defesa dos colegas, parte em solidariedade a Marina. Plínio repetiu que Marina não tem respeito o dele e disse que ela “não respeita uma população inteira”.
Já Rogério disse que Marina não estava “com um comportamento de um agente público federal” que “deve explicações com respeito, com urbanidade, com equilíbrio e com respeito institucional”.
Ao deixar o Congresso, Marina disse que se sentiu agredida durante a audiência e que não pode aceitar que alguém diga qual deve ser o seu lugar.
“Não fui convidada por ser mulher. Fui convidada como ministra. Como convidada dei a chance de ele pedir desculpas, e aí permaneceria na reunião. Como pessoas que não respeitam a democracia, as mulheres, os indígenas, o povo preto, não são afeitas a pedir desculpas, ele disse que não ia se desculpar, e obviamente que me tirei da audiência”, disse.
“O que não pode é alguém achar que, porque você é mulher preta, vem de trajetória de vida humilde, que você vai dizer quem eu sou e dizer que devo ficar no meu lugar. Meu lugar é onde todas as mulheres devem estar”, completou.
Marina disse ainda que foi vítima de violência de gênero. Ela afirmou que se sentiu agredida fazendo o seu trabalho, que era explicar tecnicamente a criação das unidades de conservação no Amapá, algo que deveria estar em discussão na audiência.
Marina foi convidada pela comissão para explicar a criação de uma unidade de conservação marinha no litoral norte do país, conhecido como Margem Equatorial, onde a Petrobras reivindica a prospecção e posterior exploração de petróleo.
A ministra disse que a discussão em torno da criação da unidade de conservação se arrasta desde 2005 e não foi proposta para inviabilizar o empreendimento.
“[A unidade de conservação] não incide sobre os blocos de petróleo. E não foi inventado agora para inviabilizar a margem equatorial. Isso é um processo que vem desde 2005”, disse Marina, mostrando um histórico do debate aos senadores.
Marina também afirmou que o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente) tem “queimado todas as sobrancelhas” com a prospecção de petróleo na Foz do Amazonas.
“Vocês notem que vai ter o leilão, já está estabelecido, de cerca de 47 [áreas exploratórias]. O que está lá é para prospecção, não é ainda exploração. Prospecção, como todo mundo diz, para verificar se tem petróleo, a qualidade do petróleo”, disse.
“Mas é algo tão complexo, em torno de 5 mil metros de profundidade, que o Ibama tem queimado todas as sobrancelhas porque essa é frente nova em uma região muito delicada”, completou a ministra.
A autorização de órgãos ambientais para exploração de petróleo na Foz do Amazonas divide o governo Lula e é alvo de pressão do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).
No último dia 19, o Ibama informou que a estrutura de resgate à fauna construída pela empresa em Oiapoque (AP) foi aprovada —liberando, assim, a realização de um teste da perfuração.