Entenda como morte de advogado levou à descoberta de grupo de espionagem e ‘caça’ a comunistas
Armas apreendidas em MG com alvos da operação Sisamnes — Foto: PF/Reprodução
A Polícia Federal prendeu na quarta-feira (28) cinco suspeitos de serem os mandantes e coautores do assassinato de um advogado em Cuiabá (MT) em 2023.
O grupo se autodenominava o “Comando C4”, que, segundo as investigações, significa “Comando de Caça a Comunistas, Corruptos e Criminosos”.
🪖A organização criminosa era composta por militares da ativa e da reserva e por civis. E oferecia serviços de espionagem de autoridades.
⚖️Para a Polícia Federal, esse grupo está envolvido em um esquema de venda de sentenças no Tribunal de Justiça de Mato Grosso, que chegou ao Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Os suspeitos foram presos na sétima fase da operação Sisamnes, que foi autorizada pelo ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF).
⛓️💥Com o grupo, os policiais federais apreenderam armas, munição e documentos, como a relação de armamentos, despesas e preços de serviços oferecidos.
Quem são os cinco presos?

A Polícia Federal prendeu na quarta-feira (28):
- Aníbal Manoel Laurindo (produtor rural);
- Coronel Luiz Caçadini (militar reformado);
- Antônio Gomes da Silva;
- Hedilerson Barbosa;
- Gilberto Louzada da Silva.
Do que eles são suspeitos?
Os cinco são suspeitos de atuar como mandantes ou coautores do homicídio do advogado Roberto Zampieri.
Zampieri foi morto com 10 tiros em dezembro de 2023, na capital do Mato Grosso. Ele foi executado dentro do próprio carro em frente ao escritório em que trabalhava.
O advogado foi surpreendido em uma emboscada por um homem de boné, que aguardava Zampieri e efetuou os disparos.
Segundo a Polícia Civil de Mato Grosso, o produtor rural Aníbal Laurindo teria sido o mandante do crime, praticado em razão de uma disputa judicial por terras avaliadas em mais de R$ 100 milhões.
O coronel Luiz Caçadini teria financiado a ação. Antônio Gomes da Silva seria o autor dos disparos e foi auxiliado por Hedilerson Barbosa, dono da pistola 9mm usada no assassinato.
A participação de Gilberto Louzada da Silva ainda não foi esclarecida.
⚖️ A investigação da morte do advogado Roberto Zampieri levou à descoberta de um suposto esquema de venda de sentenças no Tribunal de Justiça de Mato Grosso – e, em seguida, à identificação de suspeitas também no Superior Tribunal de Justiça (STJ).
📱Os investigadores chegaram às conclusões por meio de mensagens no aparelho celular do advogado assassinado.
O que é o ‘Comando C4’?
Segundo investigações da Polícia Federal, os presos fazem parte de uma organização criminosa – formada por militares da ativa, da reserva e civis – dedicada à espionagem e a homicídios por encomenda.
Esse grupo se autodenominava o “Comando C4”, que, conforme as apurações, significa “Comando de Caça a Comunistas, Corruptos e Criminosos”.
Essa organização, segundo os investigadores, assassinou Roberto Zampieri.
Qual a relação com a ditadura militar?
O nome do grupo formado pelos presos nesta quarta-feira se assemelha ao Comando de Caça aos Comunistas (CCC), grupo de extrema-direita que atuou durante a ditadura militar brasileira.
O CCC surgiu no início dos anos 1960, pouco antes do golpe de 1964, e se consolidou como uma organização formada por estudantes conservadores, policiais, militares e civis.
O grupo promovia ações violentas contra militantes de esquerda, artistas e representantes de movimentos sociais. Suas ações iam desde ameaças e perseguições até agressões físicas e depredações de espaços públicos e culturais.
Quanto o grupo cobrava para espionar autoridades?
💵De acordo com a apuração, o grupo mantinha uma tabela de preços de espionagem conforme o perfil do alvo:
- Ministros do STF: R$ 250 mil
- Senadores: R$ 150 mil
- Deputados: R$ 100 mil
Além disso, segundo o documento apreendido pela PF, o grupo cobrava R$ 50 mil para espionar “figuras normais”, ou seja, pessoas que não ocupam cargos e funções públicas.
🚗Para as atividades de espionagem, o “Comando C4” utilizava diversos recursos, como carros com placas frias, rastreadores veiculares e drones.
Quais eram as ‘iscas’ usadas pela quadrilha?

💻De acordo com documentos apreendidos pela PF, o “Comando C4” projetava a utilização de hackers e pessoas com experiência em atividades de inteligência para realizar as suas ações.
Além disso, previa a contratação de prostitutas e garotos de programa para serem utilizados como “iscas” para atrair os alvos.
🏠E também avaliava alugar imóveis temporários e comprar materiais de disfarce, como perucas e bigodes falsos para as atividades.
O grupo listou também materiais e veículos que poderiam ser acionados nas operações:
- 5 fuzis de “snipper” (sic) com silenciador
- 15 pistolas com silenciador
- munição
- lança rojão tipo AT 34 de ombro
- minas magnética e explosivos com detonação remota
Quem eram os alvos de interesse?
Conforme as apurações, o grupo planejava monitorar ministros do STF, senadores, deputados e, até mesmo, pessoas sem cargos públicos.
O nome do senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), ex-presidente do Senado, é mencionado nas anotações do grupo como sendo um alvo de interesse.
De acordo com os investigadores que acompanham o caso, Pacheco estava “na mira” do grupo, mas só a análise completa do material vai delinear, explicam os que acompanham o caso, qual a magnitude do monitoramento e o motivo.
Em nota, Pacheco disse externar repúdio e que espera que a lei prevaleça:
“Externo meu repúdio em razão da gravidade que representa à democracia a intimidação a autoridades no Brasil, com a descoberta de um grupo criminoso, conforme investigação da Polícia Federal, que espiona, ameaça e constrange, como se o país fosse uma terra sem leis. Que as autoridades competentes façam prevalecer a lei, a ordem e a competente investigação sobre esse fato estarrecedor trazido à luz”, disse.
A PF identificou, ainda, escritas à mão com referências a outras autoridades brasileiras.
O que dizem os citados?
A defesa do coronel Caçadini divulgou nota em que afirma acompanhar as ações da Polícia Federal.
Os advogados afirmam, no comunicado, que “até o momento foi encontrado qualquer elemento ilícito relacionado aos acusados nas buscas realizadas”. E que estão à disposição para prestar todos os esclarecimentos solicitados pelas autoridades.
Os demais citados ainda não se manifestaram sobre a operação e as suspeitas da PF.