“Houve estratégias machistas de desqualificação do meu trabalho”, diz ex-ministra de Lula
A ministra da Saúde Nisia Trindade recebe a dose da vacina bivalente contra a Covid-19, em 2023; estados e municípios tem se queixado de estoques escassos da vacinação neste ano, em especial para menores de 12 anos - Pedro Ladeira - 27.fev.2023/Folhapress
Mesmo a longa trajetória na área da saúde não impediu a ex-ministra Nísia Trindade de ser o primeiro alvo da reforma ministerial ensaiada pelo governo Lula (PT). Sob pressão do centrão e vivendo um processo de fritura política, a ex-presidente da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) enfrentou uma sequência de crises, que incluiu, por exemplo, o recorde histórico de casos e mortes por dengue no país em 2024.
Ao jornal Folha de S.Paulo, a ex-ministra diz que sua saída da pasta foi marcada por estratégias machistas de desqualificação do seu trabalho, mas evita apontar dedos.
“Eu acho que foram tantos os atores que, como eu disse… Já falei o que devia sobre isso. Basta ver imagens, ângulos que são pegos, ideias de fragilidade, expressões nesse sentido. Mas eu me sinto uma pessoa, sobretudo, consciente no meu papel, preparada para a função que eu exerci”, declara.
“Eu diria que isso é um processo difuso na sociedade, que muitas vezes acontece sem os atores perceberem. E houve, claro, estratégias de desqualificação.”
De volta ao ambiente acadêmico, em visita ao Instituto de Estudos Avançados da USP (Universidade de São Paulo), onde assumiu a titularidade da Cátedra Olavo Setubal ao lado dos acadêmicos Alemberg Quindins e Fernando José de Almeida, Nísia conta o que tem feito desde que deixou a posição, e reluta em falar sobre o período na gestão.
“Nossa entrevista vai ser sobre a minha gestão, é um balanço de gestão?”, questiona, ao ser perguntada sobre o desabastecimento de vacinas que atingiu seis em cada dez municípios brasileiros, segundo estudo da CNM (Confederação Nacional dos Municípios).
“Esse estudo mencionado foi amplamente discutido e os dados mostram que onde houve problemas imediatamente se buscaram alternativas, outras vacinas existentes, estratégias de vacinação. Então, o Brasil avançou na vacinação durante esses dois anos”, avalia.
A ex-ministra analisa que seu período à frente da pasta foi curto, mas diz ficar contente de ter dado a sua contribuição, e deseja sucesso ao governo Lula.
Como tem sido o período desde que a senhora deixou o ministério até a titularidade na Cátedra? Um período de retomada de alguns projetos. Eu tenho uma grande pesquisa sobre vulnerabilidade na área de saúde e organização de movimentos sociais. Também dei continuidade à participação em conselhos importantes na área de saúde, como o Conselho sobre Desigualdades, Aids e Pandemias, vinculado à Unaids, organismo da OMS [Organização Mundial da Saúde] que atua em relação ao HIV e a garantir o acesso com mais equidade entre os países.
Então, dei continuidade a ações podendo dedicar mais tempo, porque é claro que não é possível nem comparar à agenda de ministra da Saúde, muito intensa. Eu já vinha da gestão com muita responsabilidade também na Fiocruz, mas é claro que o nível de responsabilidade de recuperação do sistema de saúde coloca um desafio muito diferente. Assim, eu continuo a atuar no campo da saúde nessa perspectiva.
Sobre o período no ministério, como estava a situação da pasta quando a sra. assumiu, após o mandato do então presidente Jair Bolsonaro? A situação era de total descontinuidade de programas, total abandono mesmo do ponto de vista de ter um corpo técnico em condições de trabalhar. O resultado disso é o Ministério da Saúde, que tem como missão coordenar o SUS, sem nenhuma capacidade de realizar essa coordenação e com uma perda orçamentária muito grande.
Então, uma situação de desmonte de políticas, e isso é muito importante porque o lema do governo é “união e reconstrução”. Mas quando você passa pelo que o Brasil passou a partir de 2015, a partir do impeachment da presidenta Dilma, o que acontece? Muitos programas precisam de tempo para atingir a escala em todo o Brasil. Não se trata só de retomar o programa, mas de acelerar, porque nós ficamos defasados em relação à meta de garantir e qualidade de acesso.
Fui muito obstinada, junto com a liderança do presidente, em fazer que os programas realmente atinjam todo o Brasil. Acho que isso tem um valor muito grande em um país tão desigual como o nosso.
“Fui muito obstinada, junto com a liderança do presidente, em fazer que os programas realmente atinjam todo o Brasil. Acho que isso tem um valor muito grande em um país tão desigual como o nosso” —- Nísia Trindade, ex-ministra da Saúde.
No ano passado, um estudo apontou que 6 em cada 10 municípios brasileiros relataram falta de vacina, creditadas às questões de fabricação e logística pelo ministério na época. O que de fato aconteceu? Nossa entrevista vai ser sobre a minha gestão, é um balanço de gestão?
Um pouco sobre tudo. Porque eu já respondi essas questões tantas vezes. Bom, sobre a questão das vacinas, toda a nossa estratégia, como eu disse, foi de recuperar. Desabastecimento mundial foi um dos problemas que enfrentamos em algumas vacinas, como foi o caso da tríplice viral, mas o que nós alcançamos foi a vacinação recuperada de 15 das 16 vacinas infantis. Então esse é o dado mais importante.
Todos os problemas que ocorreram de falta momentânea de algumas vacinas, buscamos alternativas e o resultado da vacinação foi absolutamente positivo, conforme números que nós amplamente divulgamos. E nós temos isso, o aumento da vacinação, a cobertura alcançada para sarampo, proteção para pólio com alcance da meta, nas doses de poliomielite [paralisia infantil]. Então, acho que os dados de vacinação são absolutamente positivos.
Esse estudo mencionado foi amplamente discutido e os dados mostram que onde houve problemas, imediatamente se buscaram alternativas, outras vacinas existentes, estratégias de vacinação. Então, o Brasil avançou na vacinação durante esses dois anos.
Sobre a escalada da epidemia de dengue, a sra. teria feito algo diferente hoje, avaliando em retrospecto? Sempre é possível melhorar, sempre é possível ver algo que poderia ser feito diferente. Do ponto de vista de ação de saúde pública, foi feito tudo que poderia ser feito.