Irã acelerou enriquecimento de urânio e fez testes nucleares secretos, diz ONU
Bandeira da AIEA tremula do lado de fora da sede da agência, em Viena, durante reunião do Conselho de Governadores - Joe Klamar - 20.nov.2024/AFP
O Irã acelerou o enriquecimento de urânio e, no passado, já realizou atividades nucleares secretas com material não declarado à ONU em três locais, segundo um relatório confidencial da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) ao qual agências de notícias tiveram acesso no sábado (31/5).
As conclusões do documento, solicitado em novembro pelo Conselho de Governadores da agência, abrem caminho para o órgão declarar que o Irã violou suas obrigações —resolução que enfureceria o país e poderia complicar ainda mais as lentas negociações nucleares entre Teerã e Washington.
Segundo a Reuters, o relatório diz que o Irã acelerou o ritmo de produção de suas reservas de urânio enriquecido com 60% de pureza —nível próximo dos 90% necessários para produzir armas nucleares. Já os testes seriam parte de um programa nuclear anterior a 2000.
Até o dia 17 de maio, o país teria acumulado 408,6 kg de urânio enriquecido em até 60%, segundo a Associated Press, que também teve acesso ao documento. Seriam 133,8 kg a mais em comparação com o último relatório, divulgado em fevereiro —o que representa um aumento de cerca de 50%.
De acordo com a agência da ONU, são necessários 42 kg de urânio enriquecido a 90% para produzir uma bomba atômica. “Este aumento considerável na produção e no acúmulo de urânio altamente enriquecido pelo Irã, o único Estado sem armas nucleares que produz esse tipo de material nuclear, é motivo de grande preocupação”, escreveu a agência das Nações Unidas.
Israel, 1 das 9 potências nucleares do mundo —e a única que não o admite—, reagiu imediatamente. “A comunidade internacional deve agir agora para deter o Irã”, afirmou o gabinete do primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, em um comunicado, acrescentando que o nível de enriquecimento de urânio atingido pelo adversário histórico “existe apenas em países que buscam ativamente armas nucleares e não tem qualquer justificativa civil”.
Com base no documento, Estados Unidos, Reino Unido, França e Alemanha planejam apresentar um projeto de resolução para o Conselho de Governadores da agência adotar em sua próxima reunião, na semana de 9 de junho, afirmaram diplomatas à Reuters. Seria a primeira vez em quase 20 anos que o Irã seria formalmente considerado em descumprimento.
O Ministério das Relações Exteriores do Irã, por sua vez, afirmou que o relatório é “politicamente motivado” e que Teerã tomará “medidas apropriadas” em resposta a qualquer tentativa de ação contra o país na reunião do Conselho de Governadores, informou a mídia estatal, sem dar mais detalhes. Há muito a nação afirma querer dominar a tecnologia nuclear para fins pacíficos.
Embora muitos das pontos levantados pelo relatório se refiram a atividades de décadas atrás que já haviam sido revelados antes, as conclusões foram mais definitivas. O documento resumiu os desenvolvimentos dos últimos anos e apontou com mais clareza para atividades coordenadas e secretas, algumas das quais relevantes para a produção de armas nucleares.
O relatório também afirma que a cooperação do Irã com a AIEA continua sendo insatisfatória. A agência ainda busca explicações para vestígios de urânio encontrados anos atrás em dois dos quatro locais que vem investigando. Três deles abrigaram experimentos secretos, segundo o órgão: Lavisan-Shian, Varamin e Turquzabad.
“Esses três locais, e outros possíveis locais relacionados, faziam parte de um programa nuclear não declarado e executado pelo Irã até o início dos anos 2000”, afirma o relatório. Algumas atividades utilizavam material nuclear não declarado.
Segundo a agência, em Lavisan-Shian, na capital, um disco feito de urânio metálico foi usado na produção de fontes de nêutrons explosivas pelo menos duas vezes em 2003. O processo é realizado para iniciar a explosão de uma arma nuclear, afirma o relatório.
No curto prazo, é provável que o Irã acelere ou expanda novamente seu programa nuclear rapidamente, como já fez após críticas anteriores do conselho. A divulgação também pode complicar ainda mais as negociações com os EUA.
As conversas entre os dois países enfrentam um impasse. Na sexta-feira passada (23), as delegações participaram em Roma da quinta rodada de conversas desde o mês passado, mas não conseguiram avançar. Na ocasião, o chanceler de Omã, Badr al-Busaidi, que faz a mediação dos encontros, afirmou que não houve “progresso conclusivo” no encontro na embaixada do país na capital italiana.
As agências de inteligência dos EUA e a AIEA acreditam que o Irã manteve um programa nuclear secreto e coordenado para fins bélicos, que foi interrompido em 2003. O Irã nega.
No sábado (31/5), o Ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, afirmou que seu homólogo de Omã apresentou elementos de uma proposta dos EUA para um acordo nuclear entre Teerã e Washington durante uma breve visita a Teerã.
Em Washington, a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse também neste sábado que o enviado americano Steve Witkoff “enviou uma proposta detalhada e aceitável ao regime iraniano, e é do interesse deles aceitá-la.” Ela se recusou a fornecer mais detalhes.
Araqchi afirmou em uma publicação no X que o Irã “responderá à proposta dos EUA em conformidade com os princípios, os interesses nacionais e os direitos do povo iraniano”. Sua declaração foi feita antes da esperada sexta rodada de negociações entre Washington e Teerã. A data e o local das negociações ainda não foram anunciados.