Década de 2020 no Brasil começa com o dobro de desastres ligados a chuvas, diz estudo

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Socorristas retiram corpo dos escombros após temporal em São Sebastião, no litoral norte de São Paulo - Bruno Santos - 24.fev.23/Folhapress

O Brasil registrou, apenas nos três primeiros anos da década atual, 1.885 desastres ligados a chuvas, ante 899 no período de 2010 a 2019. Os números tratam da média de casos a cada ano.

Oito de cada dez municípios brasileiros foram afetados no período mais recente, sendo 4.645 no total —328 a mais do que na década anterior inteira. A média anual de 3,2 milhões de pessoas afetadas no Brasil até 2023 ainda fica abaixo do período de 2010 a 2019, que teve 3,8 milhões.

Quando considerados os afetados pelas chuvas no Rio Grande do Sul em 2024, a média salta para 6,8 milhões.

É o que diz o estudo Temporada das Águas: O Aumento das Chuvas Extremas, da série Brasil em Transformação, desenvolvido pela Aliança Brasileira pela Cultura Oceânica. O programa é coordenado pelo programa Maré de Ciência, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, a Unesco e a Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza —que desenvolve projetos de conservação ambiental com foco em segurança hídrica e proteção costeira. Os dados são do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres, do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional.

Em todo o período analisado, de 1991 a 2023, foram 4.247 mortes. O número representa 86% do total de 4.923 óbitos relacionados a desastres climáticos no país.

Os registros de danos para as cidades também aumentaram, com média anual de 4,9 milhões de unidades afetadas de 2020 a 2023, ante 501,2 mil de 2010 a 2019. O cálculo considera danos registrados em unidades habitacionais, de saúde e ensino e obras de infraestrutura pública, entre outros.

Nove de cada dez foram causados em obras de infraestrutura pública em todo o período analisado, iniciado em 1995.

A conta também ficou pior para prejuízos econômicos causados por esses eventos. A média anual de 2020 a 2023 ficou em R$ 10,76 bilhões, em valores corrigidos, com alta de 58% na comparação com a década de 2010, que chegou a R$ 6,81 bilhões.

O setor privado, segundo o estudo, representa 83% das perdas econômicas na análise iniciada em 1995. Os destaques são os segmentos da agricultura (47%) e do comércio (30%).

Já os prejuízos públicos se concentram no transporte (52%) e no saneamento básico (28%).

Para o professor Ronaldo Christofoletti, do Instituto do Mar da Unifesp, os dados evidenciam danos causados pelo aquecimento global, ainda não devidamente enfrentado na sociedade.

Parte do problema pode ser explicado pela exigência de investimentos de médio e de longo prazo. “É tratar de um problema cuja resposta não é clara para as pessoas e que vai demorar para mostrar resultados, quando já passou a [chance de] reeleição. Devemos mudar esse ciclo”, diz Ronaldo.

O que se desenha para o futuro gera outro alerta. Mudanças nos regimes de chuva até 2100 podem aumentar a precipitação no Sul e no Sudeste em 30%, e reduzi-la no Norte e no Nordeste em 40%, segundo o professor. “Menos chuva aumenta o estresse [hídrico] nas bacias hidrográficas, podendo levar algumas delas a problemas de abastecimento de água.”

Por outro lado, mais eventos extremos também tendem a prejudicar o cenário registrado pelos dados até o momento. “Onde tende a chover mais, haverá momentos de chuva muito mais fortes. Onde tende a ter seca, vai ter seca mais forte. É o que vai ocorrer.”

O estudo faz alerta já conhecido sobre adaptação para enfrentar esses eventos mais fortes. É o caso dos jardins de chuva, medida apontada pela bióloga Juliana Baladelli, gerente de projetos da Fundação Grupo Boticário.

“No caso de cidades como São Paulo, as soluções podem incluir jardins de chuva. Hoje já são mais de 400 espalhados pela cidade, que ajudam a compensar o sistema convencional de drenagem urbana.” Ela também cita como exemplo os parques alagáveis, como o Barigui, de Curitiba. Diferentemente de piscinões, que possuem uma capacidade maior de absorção de água, essas estruturas também têm outros usos, como amenizar a temperatura em meio a ilhas de calor, afirma Juliana.

E como promover adaptação após impactos em lavouras inteiras após a água carregar a cultura e a terra para os rios? Foi o que ocorreu durante as chuvas no Sul, segundo a especialista. Além da destruição das lavouras, os corpos d’água também ficam mais assoreados. As soluções para adaptação não são novidade: preservação de nascentes, conservação de mata ciliar e das margens dos córregos.

“É preciso implementar unidades de conservação e parques que possam conectar essas áreas, usando essa malha verde no entorno dos corpos hídricos. Se você tem um parque, mesmo pequeno, ou um parque urbano, que possa estar perto de uma área maior, como uma unidade de conservação nacional ou estadual, é preciso conectá-las.”

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