Trump anuncia sobretaxas de 30% sobre União Europeia e México
Donald Trump em coletiva na Flórida — Foto: REUTERS/Brian Snyder
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou no sábado (12) sobretaxa de 30% para produtos importados da União Europeia e do México a partir de 1º de agosto.
As novas tarifas foram anunciadas em cartas separadas publicadas no Truth Social, rede social do republicano, destinadas aos líderes das duas regiões.
Para aplicar a taxação ao México, Trump voltou a citar a droga fentanil.
“Apesar do nosso forte relacionamento, a senhora deve se recordar que os Estados Unidos impuseram tarifas ao México para lidar com a crise de fentanil em nosso país, causada, em parte, pela falha do México em deter os cartéis, que são compostos por algumas das pessoas mais desprezíveis que já pisaram na Terra, ao despejarem essas drogas em nosso país. O México tem ajudado a proteger a fronteira, MAS, o que foi feito ainda não é suficiente. O México ainda não conseguiu deter os cartéis que tentam transformar toda a América do Norte em um playground do narcotráfico”, escreveu Trump na carta destinada à presidente do México, Claudia Sheinbaum, publicada na sua rede social.
O governo mexicano classificou como a tarifa como um “tratamento injusto”, afirmaram os Ministérios da Economia e das Relações Exteriores em um comunicado conjunto.
As autoridades também disseram que o país já está em negociações para chegar a um acordo sobre uma alternativa às tarifas “que proteja empresas e empregos em ambos os lados da fronteira”.
O México é um dos países mais vulneráveis às tarifas do presidente republicano, já que 80% de suas exportações têm como destino os Estados Unidos, seu maior parceiro comercial.
No início desta semana, Trump emitiu novos anúncios de tarifas para vários países, incluindo Japão, Coreia do Sul, Canadá e Brasil, bem como uma tarifa de 50% sobre o cobre.
Neste sábado, também estendeu a taxa a países europeus, contra os quais tem se insurgido periodicamente. Em fevereiro, Trump disse que a UE foi “formada para ferrar os Estados Unidos”, questionando a exportação de carros europeus para os EUA.
Sua maior queixa é o déficit comercial de mercadorias dos EUA com a UE, que em 2024 chegou a US$ 235 bilhões, de acordo com dados do U.S. Census Bureau.
Já a UE tem apontado repetidamente para o superávit dos EUA em serviços, argumentando que ele, em parte, reequilibra a balança.
Combinando bens, serviços e investimentos, a UE e os Estados Unidos são, de longe, os maiores parceiros comerciais um do outro.
“A União Europeia permitirá o acesso completo e aberto ao mercado dos Estados Unidos, sem que nenhuma tarifa seja cobrada de nós, em uma tentativa de reduzir o grande déficit comercial”, escreveu Trump na carta divulgada neste sábado.
A UE esperava chegar a um acordo comercial abrangente com os EUA para o bloco de 27 países, incluindo tarifas zero por zero sobre produtos industriais, após meses de negociações difíceis.
A publicação foi tida com surpresa pelo bloco. Para oficiais da UE, o anúncio deste sábado é uma tática de negociação de Trump.
Em março, a Câmara de Comércio Americana para a UE disse que a disputa comercial poderia comprometer US$ 9,5 trilhões em negócios na relação comercial mais importante do mundo.
Em resposta, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, a quem a carta é endereçada, disse que a UE está pronta para retaliar para salvaguardar seus interesses se os EUA continuarem a impor a ameaça de uma tarifa de 30%, mas que também estava pronta para continuar trabalhados para chegar a um acordo até 1º de agosto.
“Poucas economias no mundo se equiparam ao nível de abertura e adesão da União Europeia a práticas comerciais justas”, disse ela.
“Tomaremos todas as medidas necessárias para salvaguardar os interesses da UE, incluindo a adoção de contramedidas proporcionais, se necessário”, disse ela sobre possíveis tarifas retaliatórias sobre os produtos dos EUA que entram na Europa.
Membros do bloco deram suporte à posição da presidente.
O presidente francês, Emmanuel Macron, expressou a “forte desaprovação” de seu país ao anúncio de seu homólogo americano. Ele pediu à Comissão Europeia que “acelere a preparação de contramedidas confiáveis, mobilizando todos os instrumentos à sua disposição”.
A ministra da Economia da Alemanha, Katherina Reiche, pediu em uma declaração um “resultado pragmático para as negociações” focando os “principais pontos de discórdia”.
A Alemanha está na vanguarda das repercussões da ofensiva comercial dos EUA porque sua economia depende fortemente das exportações para o país, especialmente nas indústrias química, farmacêutica, automotiva, siderúrgica e de fabricação de máquinas.
“A Europa não deve se deixar intimidar por isso, mas deve buscar sobriamente uma solução na mesa de negociações em termos iguais”, disse Dirk Jandura, presidente da associação de exportadores alemães BGA, acrescentando que as últimas ameaças eram uma parte “bem ensaiada” de sua estratégia de negociação.
O Ministério da Economia da Espanha apoiou novas negociações, mas acrescentou que a Espanha e outros países da UE estavam prontos para tomar “contramedidas proporcionais, se necessário”.
Em comunicado, a Itália disse ser crucial manter o foco nas negociações comerciais com os EUA e evitar uma polarização ainda maior e que a primeira-ministra Giorgia Meloni está confiante de que um “acordo justo” pode ser alcançado.
Na Itália, o principal sindicato agrícola do país, Coldiretti, estimou que as tarifas de 30% anunciadas por Trump poderiam custar às famílias americanas e à indústria agroalimentar italiana até 2,3 bilhões de euros (US$ 2,68 bilhões ou R$ 14,9 bilhões).
Já o primeiro-ministro holandês, Dick Schoof, disse que o anúncio do republicano é “preocupante” e não o caminho a seguir.
“A Comissão Europeia pode contar com o nosso total apoio. Como UE, devemos permanecer unidos e determinados na busca por um resultado com os Estados Unidos que seja mutuamente benéfico”, escreveu na rede social X.
Em suas últimas projeções econômicas, o Banco Central Europeu utilizou uma tarifa de 10% sobre as exportações da UE para os Estados Unidos como base de referência para os cálculos, que colocam o crescimento da produção na zona do euro em 0,9% este ano, 1,1% no próximo e 1,3% em 2027.
Segundo o relatório, uma tarifa de 20% imposta pelos EUA reduziria o crescimento em 1 ponto percentual no mesmo período e também diminuiria a inflação para 1,8% em 2027, de 2,0% no cenário de referência. O relatório não apresentou sequer uma estimativa para a possibilidade de uma tarifa de 30%.
A série de ordens tarifárias de Trump desde seu retorno à Casa Branca começou a gerar dezenas de bilhões de dólares por mês em novas receitas para o governo americano. A receita com taxas alfandegárias ultrapassou US$ 100 bilhões no ano fiscal federal até junho, de acordo com dados do Tesouro dos EUA divulgados na última sexta (11).
(Com Reuters e AFP)