UE prepara plano de retaliação enquanto EUA endurecem política comercial
Foto: iStock
Autoridades da União Europeia devem se reunir ainda esta semana para formular um plano de medidas retaliatórias caso não alcancem um acordo tarifário com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
A preferência esmagadora é por manter as negociações com Washington, na tentativa de obter uma resolução para o impasse das tarifas de importação antes do prazo de 1º de agosto. Mas Trump parece ter endurecido sua postura em relação às empreitadas de negociação.
Os esforços da UE ainda não tiveram progresso após conversas na capital dos EUA na semana passada, segundo pessoas familiarizadas com o assunto. As negociações continuarão nas próximas duas semanas.
Os EUA parecem acenar para uma tarifa quase universal superior a 10% sobre produtos da UE e com cada vez menos isenções, agora aparentemente limitadas a aviação, alguns dispositivos médicos e medicamentos genéricos, várias bebidas destiladas e um conjunto específico de equipamentos de fabricação de que os EUA necessitam, disseram as pessoas sob condição de anonimato.
Um porta-voz da Comissão Europeia, que lida com questões comerciais para o bloco, disse que não tinha comentários a fazer sobre as negociações em andamento.
Os dois lados também discutiram um possível teto para alguns setores, bem como cotas para aço e alumínio e uma maneira de proteger as cadeias de suprimentos de fontes que fornecem em excesso os metais, disseram as pessoas. As pessoas alertaram que, mesmo se um acordo fosse alcançado, ele precisaria da aprovação de Trump –e sua posição não está clara.
“Estou confiante de que chegaremos a um acordo”, disse o Secretário de Comércio dos EUA, Howard Lutnick, no programa Face the Nation da CBS no domingo. “Acho que todos esses países-chave perceberão que é melhor abrir seus mercados para os Estados Unidos do que pagar uma tarifa significativa.”
Lutnick acrescentou que havia falado com negociadores comerciais europeus no domingo (20).
CARTA DE TRUMP
O presidente dos EUA escreveu à UE no início do mês, alertando que o bloco enfrentaria uma tarifa de 30% na maioria de suas exportações a partir de 1º de agosto. Junto com uma taxa universal, Trump impôs uma tarifa de 25% sobre carros e autopeças, e o dobro disso sobre aço e alumínio.
Ele também ameaçou atingir produtos farmacêuticos e semicondutores com novas tarifas já no próximo mês, e recentemente anunciou uma taxa de 50% sobre o cobre.
No total, a UE estima que as tarifas dos EUA já cobram 380 bilhões euros (US$ 442 bilhões, ou R$ 2,4 trilhões), ou cerca de 70% de suas exportações para os EUA.
Antes da carta de Trump, a UE estava esperançosa de que pudessem chegar a uma estrutura de acordo inicial. A ideia era estabelecer uma taxa universal de 10% sobre muitas das exportações do bloco e, depois, aprofundar discussões sobre setores específicos.
A UE tem buscado isenções mais amplas do que os EUA estão oferecendo, além de procurar proteger o bloco de futuras tarifas setoriais.
Embora há muito aceite que qualquer acordo seria assimétrico em favor dos EUA, a UE avaliará o desequilíbrio geral de qualquer acordo antes de decidir se aciona quaisquer medidas de retaliação, informou a Bloomberg anteriormente.
O nível de dor que os estados-membros estão preparados para aceitar varia, e alguns estão abertos a taxas tarifárias mais altas se forem garantidas isenções suficientes, disseram as pessoas.
Qualquer acordo também abordaria barreiras não tarifárias, cooperação em questões de segurança econômica, consultas sobre comércio digital e compras estratégicas.
AGIR RAPIDAMENTE
Com as perspectivas de um resultado positivo diminuindo e o prazo se aproximando, a expectativa é que a UE comece a preparar um plano para agir rapidamente caso não o acordo não aconteça, disseram as pessoas. Qualquer decisão de retaliação provavelmente precisaria de aprovação política dos líderes do bloco, porque os riscos são muito altos.
Contramedidas de qualquer substância provavelmente provocariam uma disputa comercial transatlântica ainda mais ampla, dados os avisos de Trump de que retaliações contra interesses norte-americanos serão respondidas com medidas ainda mais duras.
O bloco já aprovou potenciais tarifas de 21 bilhões de euros sobre produtos dos EUA, que poderiam ser rapidamente implementadas em resposta às taxas de Trump sobre metais. Elas visam estados americanos politicamente sensíveis e incluem produtos como soja da Louisiana, lar do presidente da Câmara dos Representantes, Mike Johnson, outros produtos agrícolas, aves e motocicletas.
A UE também preparou uma lista de tarifas de 72 bilhões de euros adicionais sobre produtos americanos em resposta às chamadas taxas recíprocas e tarifas automotivas de Trump. Elas visariam bens industriais, incluindo aeronaves da Boeing Co., carros fabricados nos EUA e uísque bourbon.
O bloco também está trabalhando em potenciais medidas que vão além das tarifas, como controles de exportação e restrições em contratos de compras públicas.
INSTRUMENTO ANTI-COERÇÃO
Como reportado pela Bloomberg na semana passada, um número crescente de estados-membros da UE quer que o bloco ative sua ferramenta comercial mais poderosa —o chamado instrumento anti-coerção (ACI)— contra os EUA caso as duas partes não consigam chegar a um acordo aceitável e Trump cumpra suas ameaças tarifárias.
O ACI daria aos funcionários amplos poderes para tomar medidas retaliatórias. Essas medidas poderiam incluir novos impostos sobre gigantes da tecnologia dos EUA, ou restrições direcionadas a investimentos dos EUA na UE. Também poderiam envolver a limitação do acesso a certas partes do mercado da UE ou a restrição de empresas dos EUA de participarem de licitações para contratos públicos na Europa.
O instrumento anti-coerção foi projetado principalmente como um elemento dissuasor e, se necessário, uma forma de responder a ações coercitivas deliberadas de países terceiros que usam medidas comerciais como meio de pressionar as escolhas políticas soberanas do bloco de 27 nações ou de estados-membros individuais.
A comissão pode propor o uso do ACI, mas cabe aos estados-membros determinar se há um caso de coerção e se ele deve ser implantado. Durante todo o processo, a UE buscaria consultar a parte coercitiva para encontrar uma resolução.
Os estados-membros foram informados sobre o status das negociações comerciais com os EUA na sexta-feira.