Brasil é referência no combate à fome, mas falha na alimentação digna; entenda

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Sem dinheiro para comprar gás de cozinha, moradora de Parelheiros (SP) cozinha feijão em fogão à lenha improvisado no quintal de sua casa - Lalo de Almeida/Folhapress

O Brasil virou referência mundial em políticas públicas de combate à fome, mas tem que seguir vigilante com a qualidade da alimentação e contra retrocessos, avaliam organizações sociais sobre a saída do Brasil do Mapa da Fome da ONU.

O anúncio de que menos de 2,5% dos brasileiros estão em risco de subnutrição ou sem acesso à alimentação suficiente entre 2022 e 2024 foi feito na segunda-feira (28) pela FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) e agências parceiras da ONU em Adis Abeba, na Etiópia.

“É uma conquista histórica e simbólica em um mundo em que a fome resiste em cair”, diz Maria Siqueira, codiretora executiva do Pacto Contra a Fome.

“Esse é o resultado de políticas públicas continuadas e do compromisso de organizações da sociedade civil e de empresas que se sensibilizaram sobre o direito à alimentação digna. Precisamos de mais arranjos que estimulem que setores participem da erradicação da fome”, avalia Siqueira.

O relatório “O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo”, lançado pela FAO, estima que entre 638 e 720 milhões de pessoas (7,8% a 8,8% da população mundial) tenham enfrentado a fome em 2024.

Em 2023, o Brasil chegou a 3,9% de pessoas desnutridas, dado que indicava 8,4 milhões de pessoas passando fome no período. Agora, o percentual chegou a 2,5% —quando isso acontece, os números absolutos não são informados, segundo a ONU.

Siqueira elenca políticas públicas que foram fundamentais para a redução de brasileiros desnutridos: a retomada de políticas de proteção social e de transferência de renda, o aumento do salário mínimo, o programa de alimentação escolar e as compras públicas de agricultores familiares.

Mesma avaliação de Rodrigo ‘Kiko’ Fernandes, diretor-executivo da Ação da Cidadania, ONG fundada por Betinho há mais de 30 anos. “Quando tem vontade política, a solução vem rápido”, diz ele.

“O Brasil tem uma tecnologia social de combate à fome e à miséria que é eficiente. Saímos de 33 milhões para 7 milhões de pessoas com fome. Nenhum outro lugar no mundo teve uma mudança tão radical em pouco tempo, e agora temos que refiná-las e nos manter vigilantes para não ter retrocessos.”

O sociólogo acredita que a sociedade civil organizada foi ator chave nesse processo. “Não presenciamos calados a destruição de políticas públicas de combate à fome no governo Bolsonaro. A Ação da Cidadania alimentou 15 milhões de pessoas na pandemia, fiscalizamos o governo e soltamos pesquisas importantes sobre a escalada da fome.”

A ONG carioca foi palco do lançamento da Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, em 2024, durante a presidência do Brasil no G20.

A proposta era a de levar para países mais pobres a experiência bem-sucedida do país, seja pelo histórico de políticas sociais em larga escala, como Bolsa Família e Cadastro Único, seja pela imagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como líder empenhado no combate às desigualdades —uma das promessas de sua campanha foi a de tirar o país do Mapa da Fome da ONU até 2026.

“Hoje é dia de comemorar, Betinho deve estar feliz onde estiver, mas a fome não acabou. Ela precisa estar no discurso de todos os governantes”, diz ele.

Para Maria Siqueira, o país tem desafios no acesso à alimentação adequada, uma vez que a renda média do brasileiro não permite que ele acesse as frutas, verduras e legumes que a OMS (Organização Mundial da Saúde) recomenda —5 porções diárias.

“Uma cesta básica adequada custa em torno de R$ 400. O que se acessa na área nobre das cidades não é o mesmo que se acessa em áreas periféricas, na zona rural ou em comunidades de povos tradicionais”, diz ela.

O Pacto Contra a Fome vai se apropriar dos dados do relatório apresentado pela FAO, além de seguir atuando pela proteção da conquista do país.

“Não adianta sair do Mapa da Fome se a alimentação não for adequada. Estamos com diversos desafios que vão da desnutrição à obesidade”, diz Maria Siqueira. “Ainda temos milhões de pessoas com fome, milhões que não acessam políticas públicas. Não podemos aceitar.”

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