‘Tinha desejo de fazer justiça com as próprias mãos’, diz Gazolla sobre morte de Daniella Perez; leia entrevista
Raul Gazolla
por Teté Ribeiro, da Folha de S.Paulo
“A dor pela perda da Dani não passa nunca, vai morrer comigo”, me diz Raul Gazolla, numa sala de ensaio no centro de São Paulo. É onde ele se prepara, junto com um elenco de jovens atores, cantores e bailarinos, além de coreógrafa, pianista, figurinista, produtores, professores de canto, dança e diversas outras pessoas, para a estreia, no dia 18, da nova montagem do musical “A Chorus Line” —sobre o qual falaremos mais para a frente.
“Quando você perde uma pessoa por acidente, por doença ou por assassinato, a dor é a mesma, mas a recuperação, não”, continua o ator. “Você não consegue se recuperar por perder uma pessoa por assassinato, não consegue. Porque aquilo não devia ter acontecido, foi a vontade de alguém que tirou a vida da pessoa”.
O combinado, antes da entrevista, era que Gazolla não falaria sobre o crime que marcou a sua vida, quando, no finalzinho de 1992, no dia 28 de dezembro, sua mulher à época, a atriz e bailarina Daniella Perez, foi brutalmente morta por um colega de elenco da novela que ela fazia, “De Corpo e Alma”. O assassino, Guilherme de Pádua (morto em 2022) e sua mulher, Paula Thomaz, foram condenados a quase 20 anos de prisão.
A criadora da novela era a mãe de Daniella, a escritora Gloria Perez, ex-sogra de Gazolla, que se tornou sua grande aliada na luta por justiça e pela preservação da memória da jovem atriz, que tinha 22 anos quando morreu. A trama virou uma série documental premiada, lançada em junho de 2022, poucos meses antes de o crime completar 30 anos. “Pacto Brutal: O Assassinato de Daniella Perez” foi exibida no canal de streaming HBO.
“Esse documentário matou o assassino”, me diz Gazolla, que não pronuncia o nome do casal responsável pelo crime que o deixou viúvo aos 36 anos. “A assassina é mais esperta que ele, ela não aparece, ninguém sabe dela. Mas aquele marginal era tão egocêntrico que ficou bradando pros jovens da igreja em que ele era pastor que não era nada daquilo, que ia falar a versão dele, e aí teve um infarto fulminante e morreu, quatro meses depois de a série ir ao ar.”
“Eu tinha um desejo absurdo de fazer justiça com as próprias mãos e não ficaria culpado. Esse era o meu maior problema. Eu não me sentiria culpado”, afirma. “A nossa lei é tão falha que os assassinos cometem crimes absurdos e, quando são pegos, ficam presos quatro, cinco anos e em seguida estão soltos de novo. Mas eu sabia que qualquer ato que eu fizesse me deixaria no mesmo patamar dos assassinos, então controlei os meus leões. Eles continuam vivos dentro de mim, mas eu não os alimento.”
“Já sofri seis infartos e estou aqui, inteirão, dando entrevista”, diz o ator, que acaba concordando em falar sobre o assunto e, no final das quase duas horas de entrevista, parece até aliviado por se expressar livremente sobre o crime e suas terríveis consequências.
Inteirão, a propósito, é uma ótima definição para Raul Gazolla, que completou 70 anos no último dia 7 de agosto com porte de atleta e mil aventuras para contar —além da volta aos palcos, a que chegaremos daqui a pouco. “Atravessei três estados do Brasil de kitesurf, uma aventura inesquecível. Passei pelo Ceará, pelo Piauí e pelo Maranhão, foi a viagem mais incrível que eu fiz na vida”.
Kitesurf é um esporte aquático quase surreal, mistura surfe com parapente e com técnicas de windsurf. Exige muito preparo físico, muita técnica e habilidade para unir algo que acontece na água com outra coisa que ocorre no ar. No kitesurf o atleta usa uma prancha presa aos pés com alças e tem o corpo conectado a uma barra de metal, pela qual ele controla um paraquedas preso na cintura. Ou seja, ele surfa e flutua, alternadamente, de acordo com a força do vento.
Para conseguir essa façanha, Gazolla treina musculação todo santo dia e é faixa preta de jiu-jítsu. “Depois dos 40 anos, musculação tem que ser que nem escovar os dentes, não tem saída”, afirma. A ligação com o esporte é uma coisa da vida inteira para o ator, “viciado em adrenalina”.
Gazolla conta que o mar é sua segunda casa. Carioca até o último fio de cabelo, fez natação desde criança, aprendeu a surfar na adolescência e foi capoeirista profissional antes de virar ator. “A capoeira me ensinou muita coisa na vida, a principal delas é a malandragem”, conta. “O malandro não é aquele que bate em todo mundo. O malandro não é o herói. O malandro é o que está vivo”, completa.
Ele lembra que fez sem nenhum preparo um teste para o papel principal da novela “Kananga do Japão”, da TV Manchete, usando só o que aprendeu na capoeira. “A Tizuka (Yamazaki, diretora do folhetim da Rede Manchete) só me disse assim: ‘Você tem que cantar aquela moça do bar como se fosse um malandro dos anos 1940′, e eu sabia fazer isso porque convivia com os malandros dessa época, todos eram capoeiristas”, afirma.
“Eu sou antigo, sou um ator de época”, ri, quando conta essa história. Aliás, é impossível falar sobre Raul Gazolla sem dizer como ele é alto astral, divertido, tá na cara que teria passado a vida na praia, como passou mesmo grande parte dela, sem levar nem mesmo a vida muito a sério. Mas aí o destino lhe puxou o tapete. A propósito, foi durante as filmagens de “Kananga do Japão”, entre 1989 e 1990, que conheceu e se apaixonou por Daniella Perez, sua colega de elenco.
Agora, casado pela oitava vez há 22 anos com Fernanda Loureiro, CEO de uma empresa de investimentos, pai de uma filha já adulta, de outro casamento, e das duas filhas do relacionamento anterior de sua mulher, diz que nunca foi tão feliz na vida. No aniversário de 70 anos do ator, no último dia sete, as filhas de sua mulher, em vez de darem um presente, pediram um a ele. “Elas perguntaram se eu concordava que elas usassem o meu sobrenome”, conta, todo emocionado.
Se reinventou também como influencer motivacional voltado aos esportes e à superação de desafios pessoais dois anos atrás. “Não falo de política, nem de religião, nem de futebol, tenho zero pretensão filosófica e só gravo textos que eu gostaria de ouvir”, conta.
Com 1,5 milhão de seguidores no Instagram, Raul diz que é muito mais popular hoje em dia do que quando fazia novela na Globo. “Viralizei totalmente por acaso em 2023, quando gravei um texto falando sobre o uso do dinheiro em papel e do cartão de crédito. Foi uma loucura, comecei a ganhar entre 10 e 15 mil seguidores por dia durante um tempão.”
A rede social acabou virando também uma fonte de renda, mas a paixão por atuar falou mais alto quando apareceu o convite para interpretar o diretor de elenco Zach, no musical “A Chorus Line”, o mesmo em que estreou como ator em 1983, com Claudia Raia no papel principal, outra estreante.
“Esse é um momento muito ímpar da minha vida”, diz ele. “Aos 70 anos fui convidado para fazer de novo esse espetáculo que hoje enxergo com olhos totalmente diferentes do que enxergava da primeira vez. Hoje em dia vejo como esses personagens são verdadeiros, como o que eles dizem ali vale para todo mundo, como todo mundo rala para chegar aonde quer chegar”.
Entre as lições que a vida insistiu em lhe ensinar, talvez a mais importante, segundo ele, é nunca desistir, nem fazer as coisas de qualquer jeito. “Tudo que eu faço na vida, faço com muita paixão, não faço nada meia-bomba”.