Motta indicou para a Codevasf aliado proibido de ter cargo por cometer fraude em prefeitura na Paraíba, diz jornal

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O presidente da Câmara, Hugo Motta (PB) - Mário Agra-9.jul.24/Divulgação Câmara dos Deputados

por O Globo

Indicado pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), o novo superintendente da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e Parnaíba (Codevasf) na Paraíba, Fred Queiroga Pinto, está proibido de exercer cargos públicos por cinco anos devido a uma condenação por desvio de verba pública. Na ação, que corre no Tribunal de Justiça da Paraíba (TJPB), o Ministério Público estadual acusou Queiroga e seu pai, Dudu Pinto, ex-prefeito de Boa Ventura, de forjarem contratos para locação de automóveis que somaram R$ 170 mil, em valor corrigido pela inflação.

Queiroga tomou posse como superintendente da Codevasf na Paraíba, empresa vinculada ao governo federal, no último dia 28. Até então, ele era o diretor-presidente do Porto de Cabedelo, cargo sob a alçada do governo estadual, por indicação do Republicanos, partido de Motta.

A assessoria do presidente da Câmara informou, em nota, que não há “ilegalidade” na indicação. A defesa de Queiroga disse que ele está recorrendo da sentença e negou ter cometido atos ilícitos.

Tesoureiro

O caso que levou à condenação de Queiroga, em junho de 2023, se refere à sua atuação como tesoureiro na gestão do pai na prefeitura de Boa Ventura, município de cinco mil habitantes na região conhecida como Vale do Piancó. Segundo a denúncia do MP, o atual superintendente da Codevasf ajudou a forjar duas licitações que terminaram na locação do mesmo veículo, uma Chevrolet Veraneio, que pertencia ao próprio prefeito. Além disso, o MP apontou o uso de documentos adulterados em contratos de locação de outro automóvel, cujos recursos serviram para quitar despesas pessoais de Queiroga.

As irregularidades ocorreram, de acordo com o MP, entre 2005 e 2006, e somaram R$ 60,2 mil, em valores da época, ou R$ 169,1 mil corrigidos pela inflação do período.

Queiroga chegou a ser condenado em primeira instância a nove anos de prisão. Após recurso, o Tribunal de Justiça da Paraíba modificou a pena para cinco anos e quatro meses, em regime semiaberto, mas manteve a “inabilitação, pelo prazo de 05 (cinco) anos, para o exercício de cargo ou função pública, eletivo ou de nomeação”. Na decisão, o desembargador Márcio Murilo da Cunha Ramos afirmou que a conduta do ex-prefeito e de seu filho “contribuiu decisivamente” para o desvio de recursos “através de meio fraudulento”.

“É possível identificar motivação mais do que suficiente para ensejar a aplicação da pena, na modalidade de inabilitação, considerando a violação, pelos réus, das suas respectivas responsabilidades como agentes públicos”, diz a decisão.

Procurada, a defesa de Queiroga informou que o processo ainda não esgotou a fase de recursos, e que ele demonstrará nos autos a “lisura da conduta ao longo de toda a vida pública”. Em nota, a assessoria de Motta disse que a verificação dos requisitos para a contratação de Queiroga “é de responsabilidade do órgão contratante”.

A Codevasf afirmou, em nota, que a nomeação de Queiroga “foi precedida de análise de requisitos técnicos e legais, além de análise de formação e experiência”, e que não se constatou nenhuma proibição a ter cargo na administração federal.

“Após a análise da documentação legal e pessoal do empregado pelas instâncias concluiu-se pela aptidão ao cargo”, disse a Codevasf.

Choques de Prefeitura

A investigação do MP da Paraíba afirma que Queiroga e seu pai, à época prefeito de Boa Ventura, manipularam uma licitação aberta em janeiro de 2005 para aluguel de automóvel. No papel, a disputa terminou vencida por um empresário local, que se apresentou como dono da Chevrolet Veraneio alugada à prefeitura por R$ 15 mil.

No entanto, segundo o MP, o veículo estava registrado em nome de um ex-deputado, Adauto Pereira Lima, que havia falecido em 2003. O depoimento de um dos filhos do ex-deputado, Francisco Lima, mostrou que o carro estava emprestado à família de Queiroga. Após a licitação fraudulenta, o carro foi comprado por Dudu Pinto e pago “com cheques da Prefeitura”, segundo o depoimento.

O mesmo veículo foi envolvido em outro contrato fraudulento de locação da prefeitura de Boa Ventura, em 2006. Segundo o MP, Queiroga manipulou documentos assinados na venda do carro para apresentar Francisco Lima, o filho do ex-deputado, como vencedor da licitação. No entanto, em seu depoimento, Lima negou ter participado da concorrência.

Segundo a Justiça estadual, o contrato em questão, no valor de R$ 29,7 mil, apenas serviu para Dudu Pinto e Fred Queiroga “desviarem verbas públicas em benefício próprio”.

Já o segundo veículo envolvido nas fraudes, de acordo com a denúncia, era um carro de som registrado em nome da viúva do ex-deputado, e que também estava cedido ao pai de Queiroga desde as eleições de 2004. Conforme o MP, a locação deste carro foi simulada pelo prefeito e seu filho em dois contratos, de R$ 15,5 mil ao todo, e o recurso foi na verdade usado para pagar a primeira Chevrolet Veraneio, “favorecendo a si mesmos na medida do acréscimo patrimonial”.

A investigação apontou ainda que parte dos recursos usados pela prefeitura para o suposto aluguel dos veículos serviram, na verdade, para quitar empréstimos do atual superintendente da Codevasf. Um desses cheques foi destinado a seu primo, Deusdete Queiroga. Em depoimentos ao MP, Deusdete afirmou que o recurso depositado em sua conta “decorreu de pagamento de empréstimo pessoal” devido pelo primo, e que Fred Queiroga “pediu para trocar cheques da Prefeitura de Boa Ventura” nessa operação.

Atualmente, Deusdete é secretário estadual de Infraestrutura da Paraíba. Ele participou, em maio, junto com Fred Queiroga e Hugo Motta, de um evento para inaugurar a nova sede do Porto de Cabedelo, sob gestão do aliado do presidente da Câmara.

O ex-prefeito Dudu Pinto também foi condenado em outra ação, em 2020, a devolver R$ 85 mil ao município por um esquema de empréstimos fraudulentos na prefeitura de Boa Ventura. Neste caso, segundo o MP, o pai e dois tios de Queiroga usaram contracheques falsificados da prefeitura para contrair empréstimos consignados em valores que excediam os próprios salários, e depois deram calote no banco.

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