Cientistas amargam fracasso dos roteiros para eliminar fósseis e desmate na COP30
Ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, se emociona na plenária de encerramento da COP30, em Belém (PA) - Fernando Donasci/MMA
Os cientistas que acompanharam as negociações da COP30 reagiram com frustração e desânimo à falta de consenso entre as nações sobre os planos para reduzir o uso dos combustíveis fósseis e eliminar o desmatamento, que acabaram excluídos do acordo da conferência climática da ONU realizada em Belém (PA).
Diante da resistência dos países produtores de petróleo, o embaixador André Corrêa do Lago, presidente da cúpula, afirmou que criará os “mapas do caminho” por iniciativa própria, sem a obrigação de que as nações obedeçam a eles.
O pesquisador sueco Johan Rockström, autor de estudos sobre os limites planetários, mostrou preocupação com a saída apresentada. “Definitivamente não é suficiente, e há o risco de levar a uma falsa esperança”, diz ao jornal Folha.
“Temos que dar uma chance, acho que a presidência brasileira tem lidado com isso de uma maneira exemplar, e foi um prazer vê-los guiar o caminho até aqui, mas precisamos da implementação. É uma grande interrogação se isso [o mapa do caminho sem consenso] realmente vai ganhar apoio.”
A estratégia de isolar um tema delicado da negociação e colocá-lo sob a alçada exclusiva da presidência da conferência repete o que foi feito na COP29, em 2024. Na ocasião, o acordo considerado insuficiente para uma nova meta global de financiamento climático, que ficou estabelecida em US$ 300 bilhões anuais, motivou a criação de um roteiro para mostrar como elevar os recursos a US$ 1,3 trilhão.
Essa tarefa foi entregue na forma de outro mapa do caminho, feito pelos presidentes das COPs 29 e 30, mas sem qualquer obrigação vinculante. Apesar disso, o compromisso para esse plano de trabalho ficou explícito no documento final da conferência no Azerbaijão, o que não aconteceu com os roteiros para o fim dos combustíveis fósseis e do desmatamento.
“Eu vejo isso como uma falha, é muito sério. Nós estamos em 2025, dez anos após o Acordo de Paris, e ainda não começamos a cumpri-lo. Como é possível que uma década depois ainda não tenhamos começado a implementar o Acordo? Estamos realmente ficando sem tempo”, diz Rockström.
O climatologista Carlos Nobre também lamenta o fracasso em se chegar a um acordo para reduzir o uso de petróleo, carvão e gás. “O presidente Lula disse várias vezes que essa tinha de ser a mais importante das COPs. Essa não foi a mais importante das COPs, porque ela não desenhou uma super-rápida redução do uso de combustíveis fósseis.”
“Nós sonhávamos muito que seria a primeira COP a colocar as metas de zerar o uso de combustíveis fósseis, mas infelizmente os países produtores não permitiram”, afirma Nobre.
Apesar da frustração, o cientista brasileiro coloca esperanças na primeira conferência sobre o abandono dos fósseis, convocada pela Colômbia e marcada para abril de 2026. “Vamos torcer muito para todos os países estarem lá, para que os países produtores de combustíveis fósseis não fujam dessa reunião.”
Rockström e Nobre idealizaram o pavilhão da Ciência Planetária na COP30, um espaço inédito nas conferências, que tinha a missão de tentar aproximar as evidências científicas dos negociadores.
“Eu estive em muitas COPs e nunca vi a ciência tão ativa em se engajar no processo político. Isso foi bem notável, na verdade, de uma comunidade que normalmente não faz isso. Mas nós tivemos sucesso? Eu diria que não, nós não tivemos”, afirma o pesquisador sueco.
Nobre diz que o pavilhão deve continuar na COP31, a ser realizada na Turquia, para reforçar o papel dos cientistas em convencer os países, segundo ele. “Nada fácil, mas esse é o caminho que temos de tomar.”
O físico Paulo Artaxo, que também fez parte do espaço científico em Belém, atribui o fracasso do mapa do caminho contra fósseis à influência de empresas. “É por interesses puramente econômicos da indústria dos combustíveis fósseis, que tinham mais de 1.200 representantes infiltrados dentro da COP como um todo. Eles estavam lá defendendo os interesses de curtíssimo prazo da indústria, sem levar em conta os danos que podem causar aos outros bilhões de pessoas que vão ter um clima muito menos amistoso”.
Artaxo afirma que o roteiro para o fim dos fósseis deve ocupar um lugar cada vez maior. “Enquanto nas últimas COPs o elefante praticamente não apareceu no meio da sala, a COP30 teve a enorme vantagem que explicitar que o elefante existe e que é ele que a gente tem que combater.”
A pesquisadora Mercedes Bustamante analisa o impasse de forma similar. “Temos que entender o quanto de expectativa podemos colocar num processo complexo como as COPs, em que é preciso atingir o consenso de muitos países com realidades diferentes.”
“Ainda que os mapas do caminho não tenham saído da COP30, o fato de a presidência seguir com essa pauta ao longo do ano mantém o tema na mesa. E manter o tema na mesa na COP é muito importante, porque cria o espaço de empurrar as fronteiras dentro das negociações”, afirma
Para ela, a COP30 não termina como a “COP da verdade”, como defendia Lula, mas como a da realidade. “Agora que vimos a dificuldade de colocar isso [o roteiro para o fim dos fósseis] na forma de uma declaração, começa todo o trabalho de entender como desenhar mapas do caminho que contemplem as diferentes demandas.”
Ela reflete sobre a dimensão que o abandono das fontes poluentes de energia precisa alcançar dentro do próprio país. “Se a gente colocou o tema na mesa, agora temos mais do que a obrigação de fazer essa discussão no Brasil também de forma muito robusta.”
Nobre critica também o fracasso do roteiro para o fim do desmatamento, de início considerado até mais fácil de ser pactuado na COP30. A exclusão no documento final é especialmente simbólica, considerando que essa foi a primeira edição da conferência na amazônia.
O texto menciona apenas a importância de “conservar, proteger e restaurar a natureza e os ecossistemas”, inclusive “por meio de esforços intensificados para deter e reverter o desmatamento e a degradação florestal até 2030”.
“É totalmente desnecessário desmatar, não só por causa do risco da emergência climática, das emissões, mas pelo gigantesco risco de perder a biodiversidade e gerar epidemias e pandemias”, diz o cientista.
Ele alerta para o risco do colapso da floresta amazônica caso o aumento da temperatura não seja contido. “Nós, cientistas que trabalhamos com o ponto de não retorno, estamos apavorados.”
Artaxo critica ainda a decisão sobre o financiamento para a adaptação climática, área dedicada a preparar os territórios para enfrentar os impactos de eventos extremos. O texto não cita valores e pede apenas que os repasses sejam triplicados.
“É muito abaixo das necessidades mínimas dos países em desenvolvimento. O mundo desenvolvido está dando uma mensagem clara para o mundo em desenvolvimento: ‘Vocês vão ter que se virar sozinhos’”.
Os cientistas também apontam para o esgotamento do modelo de decisões das conferências de clima, baseadas em consenso. Rockström diz que as negociações estão chegando a um ponto sem saída. “A única forma de nos movermos mais rápido é ter um voto por maioria.”
“O que temos na mesa hoje após Belém não é mais ambicioso do que o que estava na mesa depois de Dubai, há dois anos”, afirmou. “Há muitos debates desnecessários acontecendo nessas reuniões, que nos levam a uma situação em que estamos simplesmente parados, não nos movemos para frente, apenas repetimos as mesmas coisas de novo e de novo. É como se estivéssemos em círculos.”