Forças Armadas de Guiné-Bissau dão golpe e tomam poder no país

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Dinis N'Tchama, porta-voz do Alto Comando Militar de Guiné-Bissau, discursa em Bissau - Televisao da Guine-Bissau/via Reuters

As Forças Armadas de Guiné-Bissau deram um golpe e tomaram o poder na quarta-feira (26) no país lusófono da África Ocidental. A ruptura democrática acontece um dia antes da divulgação prevista dos resultados de uma eleição presidencial contestada e sob suspeita de fraudes.

Em um comunicado lido na televisão estatal pelo porta-voz Diniz N’Tchama, oficiais afirmaram ter deposto o presidente Umaro Sissoco Embaló, suspendido o processo eleitoral, fechado as fronteiras e decretado toque de recolher.

Logo depois, Embaló disse à emissora France 24: “Fui deposto.”

Os oficiais disseram, no comunicado, que haviam formado o “Alto Comando Militar pela Restauração da Ordem” e que permaneceriam no comando da nação até novo aviso. Eles não informaram se Embaló havia sido detido, e seu paradeiro era desconhecido.

O golpe militar é o mais recente episódio de instabilidade nesta pequena ex-colônia portuguesa, conhecida como ponto estratégico para o tráfico de cocaína com destino à Europa.

Ainda não estava claro se os militares contavam com o apoio de todas as alas das Forças Armadas do país ou se tinham controle sobre todo o território, de cerca de 2 milhões de habitantes.

O comunicado afirmou que a decisão de assumir o poder respondia a um “plano de desestabilização” articulado por “certos políticos nacionais” e “notórios barões da droga nacionais e estrangeiros”, além de uma tentativa de manipular os resultados eleitorais.

Pouco antes do pronunciamento, tiros foram ouvidos próximos à sede da comissão eleitoral, ao palácio presidencial e ao ministério do Interior, segundo testemunhas. O tiroteio na capital, Bissau, durou cerca de uma hora. Não havia informações sobre vítimas.

A comissão eleitoral deveria anunciar nesta quinta-feira (27) os resultados provisórios da eleição realizada no domingo, na qual Embaló enfrentou o candidato do Partido da Renovação Social (PRS) Fernando Dias. Ambos declararam vitória no primeiro turno.

Embaló tentava se tornar o primeiro presidente em três décadas a conquistar um segundo mandato consecutivo em Guiné-Bissau.

Um porta-voz de Embaló, Antonio Yaya Seidy, disse à agência de notícias Reuters que homens armados não identificados atacaram a comissão eleitoral para impedir o anúncio dos resultados. Sem apresentar provas, afirmou que os agressores estavam ligados a Dias. Um porta-voz de Dias não respondeu a perguntas.

O ex-primeiro-ministro Domingos Simões Pereira, derrotado por Embaló em uma acirrada eleição em 2019 e agora apoiador de Dias, nega envolvimento do candidato opositor no episódio.

Dias estava reunido com observadores eleitorais quando “algumas pessoas invadiram a sala para anunciar que havia tiros no centro da cidade”, afirmou Pereira, que disse estar no mesmo encontro. Segundo ele, Dias está seguro e permanece em Bissau.

O governo de Portugal pediu o fim da violência em Guiné-Bissau e a retomada do processo eleitoral. “O governo português apela a todos os envolvidos que se abstenham de qualquer ato de violência institucional ou cívica e que retomem o funcionamento regular das instituições, para que o processo de contagem e proclamação dos resultados eleitorais possa ser concluído”, disse o Ministério das Relações Exteriores em comunicado.

Guiné-Bissau sofreu pelo menos nove golpes ou tentativas de golpe desde 1974, ano de sua independência de Portugal, até 2020, quando Embaló assumiu o cargo. Embaló afirma ter sobrevivido a três tentativas de deposição durante seu mandato. Seus críticos o acusam de fabricar crises para justificar repressão.

Tiros ecoaram por horas na capital em dezembro de 2023 em um episódio que o governo classificou como um golpe frustrado. Embaló dissolveu o Parlamento em seguida, e o país está sem Legislativo funcional desde então.

A tentativa de golpe mais recente havia sido anunciada no fim de outubro, quando as autoridades informaram ter prendido um grupo de oficiais de alta patente suspeitos de tentar derrubar o governo.

Durante o governo de Embaló, o tráfico de cocaína se intensificou, segundo um relatório de agosto da Iniciativa Global Contra o Crime Organizado Transnacional. O documento afirmava que a atividade poderia estar mais lucrativa do que nunca no país africano.

Em setembro de 2024, a polícia judiciária anunciou a apreensão de 2,63 toneladas de cocaína em um avião que pousou em Bissau vindo da Venezuela. Um brasileiro e outros quatro latino-americanos foram presos na ocasião.

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