Brasil cresce na questão ambiental, mas COP30 não deve atrair votos a Lula, dizem analistas
O presidente Lula brinca com uma lente de câmera, após reuniões com países na COP30, na quarta (19) - Danilo Verpa/Folhapress
Em discursos recentes, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) repetiu, como um mantra, que a recém- encerrada conferência da ONU sobre mudanças climáticas, em Belém (PA), foi a COP da verdade. O consenso reduzido a promessa, no entanto, frustrou organizações ambientais.
Para o governo brasileiro, o saldo político é duplo. De um lado, a realização da COP30 na capital do Pará reforçou a importância internacional do Brasil no debate sobre as mudanças climáticas. De outro, é pouco provável que Lula consiga amealhar capital político a partir da conferência para a corrida eleitoral de 2026, de acordo com especialistas ouvidos pelo jornal Folha.
“Daqui a um mês ninguém mais vai falar de COP30”, afirma Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Washington e em Londres e presidente do Irice (Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior).
“Não tem nada a ver com eleição, porque essa cúpula não é representativa do poder político que Lula tem.”
De acordo com Barbosa, a COP30 foi realizada em meio a uma conjuntura internacional complexa, com o crescente negacionismo de potências econômicas, como os Estados Unidos, e as contradições de países relevantes. A Noruega, lembra o diplomata, alicerçou sua economia na exploração de petróleo, mas doou US$ 3 bilhões ao TFFF, o fundo idealizado pelo Brasil para remunerar países que mantiverem suas florestas de pé.
Como se sabe, a decisão de mutirão, como se tornou conhecido o documento mais importante da COP30, excluiu o plano do mapa para o fim da dependência dos combustíveis fósseis, iniciativa impulsionada por Lula, mas barrada por países árabes.
O texto aprovado no sábado (22) também não foi contundente sobre o aumento de recursos para adaptação climática (a forma com que os países lidam com os efeitos da crise do clima já em curso). Em paralelo, o documento trouxe um reconhecimento inédito da importância de afrodescendentes e indígenas para o meio ambiente.
Em Joanesburgo para o encontro de líderes do G20, Lula admitiu ter sido muito difícil chegar a um acordo para o encerramento da cúpula do clima. Ele disse ter feito ligações de madrugada para líderes que ainda estavam em Belém.
No que diz respeito à geopolítica, Barbosa afirma que o governo Lula se reposicionou diante do cenário internacional, com a realização da conferência na amazônia.
“O Brasil saiu mais forte no tema ambiental. É um dos três campos que o país pode explorar, além da segurança alimentar e da transição energética”, diz o diplomata. “Não temos cacife para nos metermos na rivalidade entre Estados Unidos e Venezuela.”
Secretário-executivo do Observatório do Clima, Márcio Astrini, que participou de reuniões com Lula na COP, diz ver o copo nem cheio nem vazio.
“A gente evitou que o copo se quebrasse. Foi uma conferência com muitas crises, muitos desentendimentos”, conta ele, representando uma rede de mais de 130 instituições ambientais. “Isso não quer dizer que o resultado foi bom para o clima, foi insuficiente para o desafio.”
Embora o tal mapa do caminho não tenha sido adotado, Astrini diz que a proposta passará a ser debatida.
“Lula sai fortalecido, porque ele veio aqui, fez a proposta e todo mundo discutiu a proposta dele, falando dele”, afirma Astrini. “A relação dos ambientalistas com Lula depende das decisões que ele toma. Quando Lula libera petróleo, ele é criticado, mas, quando ele põe boas propostas na mesa, ele é elogiado.”