Galípolo diz que mercado de trabalho aquecido demanda BC conservador
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou que o mercado de trabalho está aquecido no Brasil, uma situação que leva a autarquia a ter uma postura conservadora sobre a política monetária.
A fala de Galípolo levantou questionamentos entre participantes do mercado se o Banco Central começará em janeiro a cortar a taxa básica de juros, a Selic, de 15% para 14,75% ao ano, conforme a previsão de analistas expressa no boletim Focus, do Banco Central.
“Por diversas métricas, é difícil contestar um mercado de trabalho que se mostra aquecido”, afirmou Galípolo em evento promovido pela XP Investimentos na segunda-feira (1º). Esses dados, somados a outros indicadores que, para ele, mostram “uma economia forte, aquecida e resiliente”, reforçam “uma postura humilde e conservadora por parte do Banco Central”.
Ao ser questionado se a pressão que o baixo desemprego exerce na taxa de inflação, Galípolo afirmou que as correlações econômicas no Brasil são muito mal comportadas. Na teoria, o mercado de trabalho aquecido deveria implicar aceleração da alta de preços, e altas taxas de juros deveriam aumentar o desemprego.
“Eu não consigo achar uma solução elegante para explicar isso”, disse o presidente do BC. Ele levantou dúvidas sobre a “tese do desalento”, ou seja, a ideia de que há pessoas fora do mercado de trabalho porque não veem esperanças de conseguir uma vaga.
O comentário de Galípolo veio depois de, na sexta-feira, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgar que a taxa de desemprego ficou em 5,4% no trimestre encerrado em outubro, menor nível da série histórica iniciada em 2012. É uma queda em relação ao patamar anterior, de 5,6%.
No entanto, um dia antes, os dados de outubro do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) revelaram que a criação de vagas formais (85.147) foi a pior para o mês de outubro desde 2020, quando começou a série histórica.
Galípolo ressaltou que dados de emprego e da atividade reforçam a necessidade de uma postura humilde e conservadora da autarquia.
Os comentários mais cautelosos de Galípolo colaboraram para uma leve alta da taxa do contrato de depósito interfinanceiro de contratos mais curtos, em um dia marcado pela alta do rendimento dos Treasuries, títulos do Tesouro americano. O presidente do Banco do Japão, Kazuo Ueda, sinalizou que as condições estavam se alinhando para um possível aumento dos juros no país.
“[A fala de Galípolo] apaga a expectativa de uma redução de juros já no começo de 2026”, disse André Braz, economista da FGV (Fundação Getulio Vargas). Segundo ele, ainda que haja flutuação do desemprego nos próximos meses, a tendência é que a taxa seja baixa a ponto de manter a demanda forte. Ele cita, por exemplo, o aumento de 9,6% do INCC-M (Índice Nacional de Custo da Construção) nos 12 últimos meses como um indicador disso.
Juliana Inhasz, professora do Insper, afirma que pela fala de Galípolo infere-se que os modelos de mercado de trabalho do Banco Central devem apontar que o desemprego seguirá baixo no futuro.
“Ele reforça o que as atas têm dito, e as atas andam conservadoras. Ele está dando o recado de que vai devagar com os cortes, ou seja, vai baixar, mas não sabe quando”, disse ela.
Na avaliação de Galípolo, a inflação ainda não está em 3%, que é a meta determinada pelo mandato do BC. “[Expectativas e projeções] caem bem menos do que a gente gostaria”, comentou o presidente da autoridade monetária.
Em relação à Selic, Galípolo relembrou que já faz “algum tempo” que a autarquia mantém o termo “bastante” em suas comunicações ao defender uma Selic restritiva por período “bastante prolongado”, enfatizando que essa contagem de prazo não zera a cada reunião de política monetária.
Por isso, o presidente do BC afirmou que a autarquia não tem sinalização sobre o próximo passo para os juros básicos porque segue analisando a evolução de dados a cada encontro do Copom (Comitê de Política Monetária).
“Você está falando assim: o ‘bastante prolongado’, já faz algum tempo que o ‘bastante’ está ali, então você está considerando que faz algum tempo, é isso mesmo”, disse ele ao responder a uma pergunta sobre a comunicação do BC. “O ‘bastante’, não é que ele zera a cada nova reunião que a gente escreve, ele não zera a cada reunião.”
Galípolo ponderou que, ainda assim, o processo de convergência da inflação à meta está se desenrolando de forma lenta e reafirmou a importância de uma postura conservadora por parte do BC.
O BC passou a defender juros contracionistas por “período bastante prolongado” em junho deste ano, quando fez sua última elevação da Selic no ciclo, a 15% ao ano.
Em julho e setembro, a autarquia manteve os juros básicos em 15% ao ano, reafirmando a necessidade de restrição monetária por período bastante prolongado, mas ainda avaliando se o nível de 15% seria suficiente para levar a inflação à meta.
Em novembro, novamente deixando a Selic em 15%, o BC passou a demonstrar convicção de que esse patamar é adequado para cumprir o objetivo, apontando a necessidade de “manutenção do nível corrente da taxa de juros por período bastante prolongado”.
Galípolo avaliou que o tamanho do déficit em transações correntes do Brasil é um indicativo de uma economia “bastante resiliente”. Ele também usou como exemplo as vendas da Black Friday no país, que levaram a mais um recorde de transações com Pix na última sexta-feira (28).
RESERVAS
O presidente do BC disse ainda que a valorização recente do ouro aumentou o valor das reservas internacionais do Brasil, embora esse não seja o objetivo inicial da autoridade monetária.
Segundo ele, a autarquia está menos preocupada com a valorização das reservas e mais interessada na diversificação adequada dos ativos.
Galípolo reafirmou que o BC está contente com o sistema de câmbio flutuante e que intervenções cambiais são feitas apenas em casos de disfuncionalidades.
Com Reuters