“Provar tortura é dramático”, diz vítima da ditadura brasileira com caso julgado em corte internacional

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À esquerda, Denise Crispim e, à direita, Sonia Hipolito falando durante a cerimonia de comemoração dos 10 anos da Comissão de Anistia - Sergio Lima - 15.mar.2011/Folhapress

“Eu tenho impressão que aquele que executou o Eduardo estava lá. Há uma satisfação em apresentar o corpo e não se revelar como um dos autores. É quase um prosseguimento da tortura”.

O relato é da então militante política Denise Crispim, 76, presa e torturada em julho de 1970, quando estava grávida de seis meses. Ela descreve o dia em que o corpo do seu então companheiro Eduardo Leite, conhecido como Bacuri, foi entregue à família.

Membro da ALN (Aliança Libertadora Nacional), ele foi preso em agosto de 1970 e executado pelo regime no dia 8 de dezembro do mesmo ano. Bacuri é considerado o preso político submetido por mais tempo à tortura durante a ditadura militar: 109 dias.

A história deles foi objeto de decisão da Corte IDH (Corte Interamericana de Direitos Humanos) proferida em julho e divulgada em dezembro de 2025. O Brasil foi condenado pela terceira vez por crimes cometidos na ditadura militar.

A sentença responsabiliza o Estado brasileiro pela “falta de investigação penal oportuna e efetiva” no caso de Denise e de Bacuri. Também são citados a filha deles, Eduarda Crispim Leite Ditta, e o atual marido de Denise, Leonardo Ditta.

Por iniciativa do Cejil (Centro pela Justiça e Direito Internacional), o caso foi submetido à CIDH (Comissão Interamericana de Direitos Humanos) em 2012, e um relatório com medidas a serem cumpridas pelo Estado brasileiro foi proferido em setembro de 2021.

No ano seguinte, foi constatado que “não se observaram avanços substanciais” nas recomendações, e o processo foi enviado à Corte IDH. Parte do sistema de proteção de direitos humanos da OEA (Organização dos Estados Americanos), o tribunal é um órgão judicial estabelecido em 1979 pelo Pacto de San José da Costa Rica.

Denise vive na Itália, terra natal de Leonardo e onde se exilou ainda na década de 70. Ela descreve o processo de reunir informações sobre o caso como “dramático”, lembrando como foi difícil retornar ao Brasil para colher depoimentos e reunir documentos com antigos companheiros.

“O processo de produção de provas foi muito sofrido e injusto. O Estado tinha toda a documentação, inclusive fotos de torturados. Eles tinham todas as provas na mão, mas é a vítima que tem que provar”, disse.

Retrato frontal em preto e branco de uma jovem mulher com cabelo curto e escuro, usando camisa estampada sob suéter escuro. Fundo neutro e expressão neutra no rosto.
Denise Crispim durante a Ditadura Militar

Carolina Cyrillo, professora de direito da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e da UBA (Universidade de Buenos Aires), afirma que os casos da Corte IDH não devem se submeter às discussões de direito interno, no qual o ônus da prova recai sobre quem acusa.

“O Estado é, ao mesmo tempo, o violador dos direitos humanos e aquele que pode corrigir as violações. […] Ele é obrigado a produzir provas em busca da verdade”, diz Cyrillo. Ela afirma que Denise “teve de lutar para ser escutada”.

O NIDH (Núcleo Interamericano de Direitos Humanos), coordenado pela professora, fez parte da ação como terceiro interessado. O grupo foi responsável, segundo Cyrillo, pelo reconhecimento da perspectiva de gênero do julgamento.

Após o pedido, a demanda passou a incluir os sobrenomes de Denise e de sua filha Eduarda em sua nomenclatura oficial. A condenação por crimes da ditadura difere das outras duas do país perante a Corte ao tratar as violações cometidas contra elas como violência contra mulher. Denise deu à luz sob custódia em um hospital militar.

O Brasil já foi condenado pelo mesmo tribunal, em 2010, por fatos ocorridos durante a Guerrilha do Araguaia e, em 2018, pelo assassinato do jornalista Vladimir Herzog. Conforme lembra Cyrilo, todos os casos reconhecem a Lei da Anistia, promulgada em 1979, como um “obstáculo para a apuração da verdade”.

Em 2010, o STF (Supremo Tribunal Federal) rejeitou por 7 a 2 a revisão da anistia. Outra ação, protocolada pelo PSOL em 2014 (ADPF 320), aguarda julgamento e tem como relator o ministro Dias Toffoli.


Saiba mais

  • O que foi a ditadura militar

    O regime teve uma estrutura dedicada a tortura, mortes e desaparecimentos. Os números da repressão são pouco precisos, uma vez que a ditadura nunca reconheceu esses episódios. Auditorias da Justiça Militar receberam 6.016 denúncias de tortura. Estimativas feitas depois apontam para 20 mil casos. Presos relataram terem sido pendurados em paus de arara, submetidos a choques elétricos, estrangulamento, tentativas de afogamento, golpes com palmatória, socos, pontapés e outras agressões. Em alguns casos, a sessão de tortura levava à morte. Em 2014, a Comissão Nacional da Verdade (CNV) listou 191 mortos e o desaparecimento de 210 pessoas. Outros 33 desaparecidos tiveram seus corpos localizados posteriormente, num total de 434 pessoas.


Há também duas teses com repercussão geral reconhecida pendentes de julgamento. Os temas 1.374, 1.375 e 1.376 discutem a possibilidade de anistiar crimes classificados como graves violações de direitos humanos e são relatados por Alexandre de Moraes.

Já o tema 1.369, relatado por Flávio Dino, trata da impossibilidade de aplicar a Lei da Anistia a crimes permanentes, como a ocultação de cadáveres. No caso de Bacuri, apesar de ter sido enterrado por familiares, os restos mortais do militante foram posteriormente retirados do local e nunca foram encontrados.

Denise Crispim se emociona durante a cerimonia de comemoração dos 10 anos da Comissão de Anistia – Sergio Lima – 15.mar.2011/Folhapress

Carla Osmo, também professora de direito da Unifesp, ressalta que o prolongamento dos efeitos da morte de Eduardo na vida da ex-companheira e de sua família é reconhecido na sentença.

“Há compreensão das consequências de uma violência desse porte como dano a um projeto de vida. Esse conceito fala de toda a desestruturação da vida de uma pessoa, daquilo que ela tinha projetado para si e dos encargos da busca por justiça”, diz.

Denise comemorou o entendimento da Corte sobre o tema. “Ao invés de viver, você passa sua vida sem conseguir elaborar esse luto”, conta. Lembra também como a busca por respostas atrapalhou seu “projeto de vida” com o atual marido Leonardo. “Só deu certo porque ele me ama muito”, diz.

Ela espera que a relação dela com Eduarda seja impactada positivamente pela decisão: “Eu quero que a gente consiga elaborar melhor juntas e conversar como duas pessoas adultas que viveram essa experiência”.

A história delas é retratada no filme “Repare Bem”, dirigido por Maria de Medeiros e lançado em 2013.

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