Soldados de Israel foram 8 de cada 10 casos de suicídio no país em 2024

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Soldado de Israel em meio à operação terrestre contra o Hamas, na Faixa de Gaza - Amir Cohen - 13.set.24/Reuters

Israel está enfrentando um aumento de casos de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e suicídio entre suas tropas após a guerra de dois anos na Faixa de Gaza, desencadeada pelo ataque do Hamas ao sul de Israel em 7 de outubro de 2023.

Relatórios recentes do Ministério da Defesa e de prestadores de serviços de saúde detalharam a crise de saúde mental dos militares, que ocorre enquanto os combates persistem em Gaza e no Líbano e as tensões aumentam com o Irã.

O Ministério da Defesa de Israel afirma ter registrado um aumento de quase 40% nos casos de TEPT entre seus soldados desde setembro de 2023 e prevê que o número aumentará 180% até 2028. Dos 22,3 mil soldados ou integrantes das forças que estão sendo tratados por ferimentos de guerra, 60% sofrem também com o transtorno, diz o órgão.

O departamento ampliou o atendimento de saúde oferecido àqueles que lidam com problemas de saúde mental, aumentou o orçamento e disse que houve um crescimento de cerca de 50% no uso de tratamentos alternativos.

O segundo maior provedor de serviços de saúde do país, Maccabi, disse em seu relatório anual de 2025 que 39% dos militares israelenses sob seu tratamento haviam procurado apoio de saúde mental, enquanto 26% haviam expressado preocupação com a depressão.

Várias organizações israelenses, como a ONG HaGal Sheli, que usa o surfe como técnica de terapia, receberam centenas de soldados e reservistas que sofrem de TEPT. Alguns ex-soldados também têm cães de suporte emocional.

Ronen Sidi, psicólogo clínico que dirige a pesquisa com veteranos de combate no Centro Médico Emek, no norte de Israel, disse que os soldados geralmente enfrentam duas fontes diferentes de trauma.

Uma fonte estava relacionada a “experiências profundas de medo” e “medo de morrer” enquanto estavam em Gaza e no Líbano e mesmo quando estavam em casa, em Israel. Muitos testemunharam o ataque do Hamas ao sul de Israel —no qual os terroristas também levaram cerca de 250 reféns para Gaza— e suas consequências em primeira mão.

Sidi disse que a segunda fonte é a lesão moral, ou o dano causado à consciência de uma pessoa por algo que ela fez. “Muitas decisões [dos soldados] em frações de segundo são boas”, tomadas sob fogo, “mas algumas delas não são, e mulheres e crianças são feridas e mortas por acidente, e viver com a sensação de que você matou pessoas inocentes… é um sentimento muito difícil e você não pode corrigir o que fez”, disse ele.

Um reservista israelense, Paul, 28, pai de três filhos, disse que teve de deixar seu emprego como gerente de projetos em uma empresa global porque “os assobios das balas” acima de sua cabeça o acompanhavam mesmo depois de voltar para casa.

Paul, que não quis dar seu sobrenome por questões de privacidade, disse que atuou em funções de combate em Gaza, no Líbano e na Síria. Embora os conflitos tenham diminuído nos últimos meses, ele diz que vive em um estado de alerta constante. “Eu vivo assim todos os dias”, relatou.

Um soldado que busca apoio do Estado para sua saúde mental deve comparecer perante uma comissão de avaliação do Ministério da Defesa, que determina a gravidade do seu caso e lhe concede reconhecimento oficial. Esse processo pode levar meses e dissuadir os soldados de procurar ajuda, afirmam alguns profissionais especializados em trauma.

O ministério afirma que oferece ajuda imediata aos soldados assim que eles iniciam o processo de avaliação e que intensificou esses esforços desde o início da guerra.

Uma comissão parlamentar israelense descobriu em outubro que 279 soldados tentaram o suicídio no período de janeiro de 2024 a julho de 2025, um aumento acentuado em relação aos anos anteriores. O relatório constatou que os soldados de combate representaram 78% de todos os casos de suicídio em Israel em 2024.

O risco de suicídio ou automutilação aumenta se o trauma não for tratado, disse Sidi, o psicólogo clínico. “Depois do 7 de Outubro e da guerra, as instituições de saúde mental em Israel estão completamente sobrecarregadas, e muitas pessoas não conseguem fazer terapia ou nem mesmo entendem que o sofrimento que estão sentindo tem a ver com o que viveram.”

Para os soldados, a chance de entrar em combate continua alta. As Forças Armadas de Israel permanecem posicionadas em mais da metade da Faixa de Gaza e os combates continuam, apesar do cessar-fogo apoiado pelos EUA em outubro, com mais de 440 palestinos e três soldados israelenses mortos.

Suas tropas ainda ocupam partes do sul do Líbano, enquanto o Exército libanês pressiona para desarmar o grupo Hezbollah, sob um acordo mediado pelos EUA. Na Síria, as tropas israelenses ocupam uma área ampliada do sul do país desde a derrubada do ex-líder Bashar al-Assad.

Com o agravamento das tensões com o Irã e a ameaça de intervenção dos EUA, Israel também pode se ver em outro confronto violento com Teerã, após a guerra de 12 dias em junho passado.

As forças israelenses mataram mais de 71 mil palestinos em Gaza e 4.400 no sul do Líbano, de acordo com autoridades de ambos os locais. Israel afirma que mais de 1.100 militares foram mortos desde o 7 de Outubro.

A guerra deixou grande parte de Gaza destruída e a maioria de seus 2 milhões de habitantes não tem abrigo adequado, comida ou acesso a serviços médicos e de saúde.

Especialistas palestinos em saúde mental disseram que os habitantes de Gaza estão sofrendo “um vulcão” de trauma psicológico, com um grande número de pessoas buscando tratamento e crianças sofrendo sintomas como terrores noturnos e incapacidade de se concentrar.


ONDE BUSCAR AJUDA

CVV (Centro de Valorização da Vida)
Voluntários atendem ligações gratuitas 24 horas por dia no número 188 ou pelo site www.cvv.org.br

Mapa Saúde Mental
Site mapeia diversos tipos de atendimento: www.mapasaudemental.com.br

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