Após escalada de tensões, Trump ironiza ida a Davos e diz que é ‘aguardado com muita felicidade’

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aponta para repórter durante entrevista coletiva na Casa Branca, em Washington - Nathan Howard/Reuters

Diante da escalada de tensões com países europeus e após intensificar a pressão para anexar a Groenlândia, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ironizou na terça-feira (20) sua viagem a Davos, para onde embarca em breve para o Fórum Econômico Mundial. “Na Suíça, sou aguardado com muita expectativa e felicidade, sem dúvida”, ironizou o americano.

No dia em que completou um ano de volta à Presidência, Trump anunciou de surpresa que ele próprio falaria com jornalistas na Casa Branca. Pela agenda oficial, a entrevista para marcar a ocasião seria conduzida pela porta-voz Karoline Leavitt. Poucos minutos antes do início do evento, no entanto, a imprensa foi informada de que o republicano assumiria as respostas.

Trump evitou dizer o que pretende fazer se a Dinamarca, país membro da Otan, se recusar a entregar a Groenlândia —e não descartou o uso da força.

Analistas avaliam que a aliança militar ocidental, cujo princípio basilar é que um ataque contra um representa um ataque contra todos, pode chegar ao fim em caso de ação militar americana para conquistar o território dinamarquês.

Questionado sobre o fato de que os groenlandeses se manifestaram contra a anexação, Trump disse: “Eu não falei com eles ainda. Quando eu o fizer, eles vão ficar muito animados [com a possibilidade de fazer parte dos EUA]”.

Logo no início da entrevista, Trump mostrou à imprensa fotos de supostos estrangeiros criminosos no estado de Minnesota. O lugar está sob alvo de operações massivas de imigração em meio a protestos contra a violência de agentes federais, que mataram uma mulher no início do mês.

“Em Minnesota, o crime está surreal”, disse o presidente, que criticou o governo de Joe Biden, afirmando que a culpa dos crimes no estado está na conta do democrata. “Ele que os deixou entrar. Se não fosse por ele, isso não estaria acontecendo”, afirmou Trump.

“O problema são os rebeldes e encrenqueiros” em Minnesota, disse o republicano, que voltou a atacar a comunidade somali do estado. “Pessoas com o QI muito baixo. A Somália nem é um país. Eles não têm nada que os faça parecer ser um país. Eles vêm aqui, ficam ricos e não trabalham mais.”

Durante vários momentos da entrevista coletiva, Trump ficou em silêncio mostrando os cartazes com fotos de supostos imigrantes criminosos em Minnesota. Também falou sobre a morte de Renee Good, a mulher baleada por um agente do ICE, o serviço de imigração americano.

“Achei terrível que aquela mulher tenha morrido. É uma tragédia, o ICE diria a mesma coisa, mas quando descobri que seus pais são grandes fãs de Trump… Foi terrível. Muito triste”, disse o presidente.

Trump afirmou ainda que “a maioria” dos agentes federais de imigração “é hispânico” —na verdade, apenas 30% dos agentes do ICE se identificam dessa forma. Disse também que ama as pessoas hispânicas e que está em um ótimo momento na relação com a Venezuela. E citou o recente encontro com a líder da oposição María Corina Machado, que presenteou o americano com o Prêmio Nobel da Paz.

O presidente voltou a criticar a premiação, repetindo que deveria ter sido o escolhido para a láurea. “Não caiam nessa de que a Noruega não controla [o Nobel da Paz]”, disse Trump, em aparente referência a uma mensagem que recebeu do premiê Jonas Gahr Store na qual o norueguês diz que Oslo não participa da seleção do prêmio. “O Nobel é de lá”, disse Trump.

“Por isso María Corina [Machado] me disse: eu não mereço o prêmio, o senhor merece”, continuou, em referência ao fato de que a líder da oposição venezuelana lhe entrou a medalha do Nobel que recebeu em 2025.

Ao longo de toda a entrevista coletiva, Trump pulou de assunto em assunto, atacando seu antecessor, Joe Biden, e exaltando dados da economia americana. O republicano, por exemplo, voltou a demonstrar preocupação com a decisão da Suprema Corte que pode derrubar as tarifas que impôs ao longo de 2025. “Se isso acontecer, não sei o que vamos fazer. Vamos ter que devolver muito dinheiro”, disse.

Ele ainda aproveitou a ocasião para atacar outros democratas, caso do governador da Califórnia, Gavin Newsom, e Kamala Harris, vice de Biden e que o enfrentou nas urnas. “Se [Newsom] governasse esse país, seríamos como a Venezuela”, disse o republicano. O presidente citou que aumentou o investimento em fábricas americanas em 41%. “Se a Kamala tivesse sido eleita, teriam tido uma queda de 41%.”

Sobre a política externa, criticou a Otan, disse que gasta muito dinheiro com a organização e também comentou sobre a criação do Conselho da Paz, que foi anunciado na semana passada sob o pretexto de garantir a reconstrução a Faixa de Gaza.

“Acho que vai ser incrível, esperava que a ONU pudesse fazer mais, esperava não precisar deste conselho, mas as Nações Unidas… em nenhuma das guerras que eu encerrei, as Nações Unidas me ajudaram”, disse o presidente. A fala confirma o temor de países convidados de que o objetivo do americano seria esvaziar a ONU com a criação de uma organização em que ele teria total comando.

“Eu acho que a ONU tem grande potencial, mas nunca fez jus a ele”, continuou Trump. “Eles deviam ter acabado com todas as guerras que eu acabei.” Quando questionado, evitou pedir o fim das Nações Unidas: “Eu quero que a ONU continue por causa do seu potencial”.

A entrevista ocorreu numa semana marcada pelo endurecimento do discurso de Trump sobre a Groenlândia.

Na noite de segunda (19), o presidente americano atacou líderes europeus, reiterou o desejo de ter controle sobre a Groenlândia e divulgou mensagens trocadas com o presidente francês, Emmanuel Macron. Trump também ameaçou impor tarifas de 200% sobre vinhos franceses caso a França se recuse a participar do Conselho da Paz.

Em Davos, na Suíça, Macron evitou citar Trump nominalmente, mas afirmou que, em vez de lidar com valentões, a Europa prefere o respeito. “Diante da brutalização do mundo, a França e a Europa devem defender um multilateralismo eficaz, porque ele serve aos nossos interesses e aos de todos que recusam se submeter ao domínio da força”, afirmou.

A expectativa é que Trump compareça em Davos com grande comitiva e se reúna com o ditador egípcio, Abdel Fattah al-Sisi, parte atuante nas negociações para o cessar-fogo em Gaza e também convidado para o conselho. Além disso, autoridades egípcias participam do Conselho Executivo para Gaza, o braço técnico previsto no plano de Trump que deve assumir a gestão do território palestino.

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