Eduardo Leite recebe vaias ao lado de Lula e protesta: ‘Este é o amor que venceu o medo?’
Eduardo Leite (PSD), governador do Rio Grande do Sul, é vaiado durante cerimônia do governo federal na cidade de Rio Grande (RS), na terça-feira (20) - Reprodução/Canal Gov/YouTube
O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD), foi vaiado na tarde da terça-feira (20) quando participava ao lado do presidente Lula (PT) de uma cerimônia de assinaturas de contratos ligados a construção de navios para a Petrobras, em Rio Grande, no sul do estado.
As primeiras vaias ocorreram quando Leite teve o nome mencionado pelo cerimonial e depois no discurso da prefeita Darlene Pereira (PT), enquanto ela agradecia o governador pela parceria. Ao ser chamado ao microfone, as vaias ganharam corpo e Leite teve dificuldade para começar sua fala.
“É um ambiente institucional, não é um comício eleitoral”, protestou ele, enquanto era interrompido pelo barulho da plateia, formada principalmente por trabalhadores ligados à estatal e integrantes de movimentos sociais.
“Este é o amor que venceu o medo? Não, né? Vamos respeitar, por favor. Estou aqui cumprindo meu dever institucional. Eu e o presidente fomos eleitos pelo mesmo povo. Somos diferentes. Mas a gente não precisa pensar igual. É importante que pensemos no Rio Grande do Sul, no Brasil, e é isso que fazemos quando trabalhamos de forma coordenada”, disse Leite.
Ao longo do seu mandato, Leite se manteve no campo da oposição a Lula, mas também não é considerado um aliado de Jair Bolsonaro (PL), como outros governadores do campo da direita.
O PSD de Gilberto Kassab prefere apoiar o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), para a disputa presidencial em outubro, mas nomes do PSD também se apresentaram como opção, como o governador do Paraná, Ratinho Júnior, e o próprio Leite.
“Na última eleição, o Brasil teve um presidente eleito por 50,8% dos votos, 49% da população votou em outro candidato. Se vocês desejam união e reconstrução, não simplesmente hostilizem quem pensa diferente. Isso não leva a lugar nenhum. A efetiva união que a gente quer para o nosso país envolve respeito, respeito às funções, às pessoas, aos ambientes”, continuou Leite, tentando reduzir as vaias.
O governador disse que a postura da plateia leva a “incendiar na outra metade ainda mais ódio, rancor e mágoa, e nós não queremos isso”. Ele também pediu atenção do governo federal para a região Sul.
“Fizemos um grande esforço para atrair uma montadora de veículos para o Rio Grande, mas infelizmente há um profundo desequilíbrio federativo que precisa ser corrigido. A Sudene [Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste] oferece 75% de redução de Imposto de Renda”, reclamou Leite, em meio a vaias. “Não estou culpando o presidente. É uma distorção histórica”, respondeu ele para a plateia.
Último a discursar na cerimônia, Lula não tratou diretamente do episódio das vaias, mas mencionou o governador por duas vezes, em tom amistoso.
Pré-candidato à reeleição, Lula aproveitou a plateia entusiasmada —que em determinado momento gritou “sem anistia”— e deu um tom eleitoral para o discurso. O presidente tem repetido que está preocupado com “a fábrica de mentiras” que circula nos celulares e passou a pedir que as pessoas enfrentem o problema. “Denuncie ou delete, não passe para frente.”
“A direita tem uma indústria de mentir. Poderosíssima. Na campanha do [Donald] Trump, eles fizeram 2 milhões de mensagens contra a adversária dele, na última semana. Vai ser assim a campanha”, disse o petista.
O presidente desembarcou pela manhã no Rio Grande do Sul e teve duas agendas na cidade de Rio Grande. A primeira foi uma cerimônia de entregas de moradias populares. Em seguida, a comitiva do petista seguiu para o Polo Naval, para uma visita ao Estaleiro Rio Grande, administrado pela Ecovix.
No Polo Naval, o presidente participou da cerimônia de assinatura de um contrato entre a Ecovix e a Transpetro, subsidiária da Petrobras, para a construção de cinco navios gaseiros no Estaleiro Rio Grande, além de outras 36 embarcações (18 empurradores e 18 barcaças).
Ao todo, o investimento é de R$ 2,8 bilhões e integra o programa Mar Aberto, de renovação da frota da Petrobras.
Durante a agenda, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, também confirmou que a estatal vai investir R$ 6 bilhões na transformação da Refinaria Riograndense na primeira biorrefinaria do país, com previsão de início das operações no segundo semestre deste ano.
No início da tarde, Lula participou da cerimônia de entrega do empreendimento Junção, um conjunto habitacional do programa Minha Casa, Minha Vida. Iniciado em 2016, o Junção reúne 1.276 unidades habitacionais e deve beneficiar mais de 5.000 moradores, segundo estimativa da Prefeitura de Rio Grande.