População de Brumadinho (MG) ainda depende de transferências da Vale sete anos após tragédia
Imóvel comercial fechado no centro de Brumadinho (MG) com oferta de contratação de mão de obra - Artur Búrigo - 21.jan.2026/Folhapress
por Folha de S.Paulo
Após sete anos do rompimento da barragem da mina Córrego do Feijão, da Vale, a economia de Brumadinho (MG) enfrenta um novo desafio: a angústia pelo fim dos pagamentos mensais aos atingidos pela tragédia.
O chamado Programa de Transferência de Renda (PTR), previsto pelo acordo de reparação da tragédia assinado em 2021 entre a mineradora e o Governo de Minas Gerais, determinava o depósito de meio salário-mínimo por adulto considerado atingido, além de valores menores para crianças e adolescentes.
Para familiares de vítimas e moradores de zonas mais impactadas, o pagamento era de um salário mínimo por mês.
O termo determinou que a Vale depositaria R$ 4,4 bilhões em um fundo que faria o repasse aos atingidos até que esse valor, acrescido de sua rentabilidade, fosse atingido.
Isso aconteceu em outubro do ano passado, e por cerca de um mês os pagamentos deixaram de ser feitos. Uma decisão judicial de novembro obrigou a retomada das transferências em formato emergencial.
Nesse intervalo em que os depósitos cessaram, as vendas do comércio despencaram, conforme relatos ouvidos pela Folha no município.
A comerciante Vitória Cardoso dos Santos, dona de uma loja de cosméticos, afirma que seu faturamento chegou a cair 60% no período.
“A gente tem o sentimento de que as pessoas priorizaram o pagamento das dívidas quando viram que o auxílio acabou”, diz.
Ela, que trabalha no setor comercial da cidade há cerca de sete anos, diz que os preços aumentaram em diversos segmentos após o início das transferências e vê que a cidade se tornou dependente desses recursos.

Rubens Rossi e Sueli Maria, proprietários de duas lojas de papelaria no município, afirmam que as vendas caíram cerca de 40% no período em que o PTR foi interrompido.
Eles também relatam uma dificuldade para contratar funcionários, e dizem que têm sido mais comuns no município empresas formadas por familiares.
O impacto dos repasses financeiros sobre o mercado de trabalho, porém, não é percebido de forma tão clara entre os comerciantes.
Uma pessoa que ocupa função gerencial em uma rede varejista no município confirmou à Folha ter vagas em aberto, mas relatou que a procura por emprego não mudou durante o período de interrupção dos pagamentos. Ela falou com a reportagem sob condição de anonimato, por não ser autorizada a dar entrevistas.
O professor Bernardo Campolina, da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), destaca que a transferência dos recursos foi feita de forma direta aos atingidos por anos, sem o planejamento do poder público para o fim do programa.
“Uma parte importante da população passou a depender desses recursos, que acabam girando a economia local. Por outro lado, o município não foi capaz de planejar e buscar atrair ou promover outras atividades econômicas para além da atividade mineradora”, diz o professor.
Procurada, a Prefeitura de Brumadinho diz em nota que tem articulado políticas de diversificação econômica baseadas no turismo, na economia criativa, na atração de empresas e na formação profissional para reduzir a dependência do auxílio e ampliar a circulação de renda no município.
“O desafio do fim do PTR é real, mas Brumadinho segue trabalhando para construir um futuro que vá além da tragédia, valorizando sua cultura, seu território, sua gente e sua capacidade de gerar desenvolvimento, alegria e qualidade de vida”, afirma a gestão.
A diretora da reparação da Vale, Gleuza Jesué, afirma à Folha que a companhia atua desde 2019 na capacitação da mão de obra e na melhoria dos negócios locais.
Sobre o PTR, a companhia diz em nota que já havia realizado pagamentos emergenciais de R$ 2,4 bilhões entre 2019 e 2021 e que, após a assinatura do acordo, destinou R$ 4,4 bilhões ao programa, “estabelecido como solução definitiva para o pagamento emergencial”.
Outro reflexo da tragédia de sete anos atrás na economia do município aparece nos aluguéis, segundo os moradores do município.
João Castro, proprietário de uma imobiliária local desde 2017, diz que a demanda por moradias aumentou com a procura de funcionários da Vale e empresas terceirizadas que atuam com ações de reparação no local.
Ele afirma que o preço do aluguel de moradias chegou a dobrar no período após o rompimento, e hoje está cerca de 50% acima do valor praticado até janeiro de 2019.
“Famílias foram muito prejudicadas em função disso, principalmente as que não tiveram alteração na renda. Aconteceu de proprietários solicitarem a devolução do imóvel para disponibilizarem para aluguel para a Vale ou outra empresa. Muita gente teve que ir embora da cidade por causa disso”, diz o dono da Imobiliária Brumadinho.

A diretora da Vale reconhece a alta dos aluguéis, mas diz que a companhia estimula as empresas terceirizadas a trabalharem com mão de obra local e que as contratadas são responsáveis pelo alojamento de funcionários que vêm de fora.
A prefeitura afirma que busca a inserção do município em programas de habitação social, facilitar o acesso a linhas de crédito para reformas e avalia novas formas de apoio à moradia para famílias de baixa renda.
Presidente da Avabrum, associação que reúne as vítimas da tragédia de Brumadinho, Nayara Porto discorda do modelo definido no acordo de reparação para indenização aos atingidos.
“É um dinheiro que é muito comemorado em Brumadinho, mas para nós, familiares, isso é muito triste porque é um dinheiro de sangue, de 272 vidas”, diz.
“Esse dinheiro todo que está sendo distribuído por Minas Gerais afora, principalmente por ser devido ao rompimento da barragem, ele tem que virar legado. E esse dinheiro, do PTR, não é legado”, afirma Porto.