Senado dos EUA questiona Marco Rubio sobre Venezuela e cita Bolsonaro e Lula
O novo secretário de Estado americano, Marco Rubio, durante evento republicano em Wisconsin, em julho passado - Jim Watson - 16.jul.24/AFP
Durante audiência do Senado, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, foi questionado sobre a sucessão de Nicolás Maduro na Venezuela e sobre a relação com a líder interina, Delcy Rodríguez, e pressionado por não ter havido consulta ao Congresso antes do ataque a Caracas. O chefe da diplomacia americana teve de responder ainda a perguntas sobre Jair Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Rubio afirmou que eleições vão acontecer na Venezuela, mas que o cenário exige tempo e cautela. “Em três semanas estamos muito mais avançados do que imaginávamos que estaríamos”, disse. “Temos de entender que não se trata de uma refeição congelada, que você coloca no micro-ondas e fica pronta. É uma situação complexa e demorada.”
Ele ainda disse que o governo Donald Trump está monitorando de perto o desempenho das autoridades interinas e não descartou a possibilidade do uso de força. “Não se enganem, como o presidente [Trump] já declarou, estamos preparados para usar a força para garantir o máximo de cooperação, caso outros métodos falhem.”
O secretário foi cobrado por senadores democratas e republicanos pelas ações do Poder Executivo. O republicano Rand Paul retomou o argumento da Casa Branca segundo o qual a intervenção militar na Venezuela, em 3 de janeiro, não foi um ato de guerra.
Paul questionou, no entanto, se Rubio usaria a mesma régua caso um país estrangeiro bombardeasse o sistema de defesa aérea dos EUA, “capturasse e removesse” seu presidente e impusesse um bloqueio ao país.
Rubio, por sua vez, afirmou que o governo Trump não removeu uma pessoa eleita, mas um homem que fraudou as eleições na Venezuela e que foi condenado por tráfico de drogas.
O senador republicano fez, então, uma menção ao Brasil para, ao mesmo tempo, concordar e questionar Rubio. “Bolsonaro diz que Lula não foi eleito. Hillary Clinton disse, em 2016, que Trump não era o presidente. Há todos esses argumentos. E eu concordo com você: ele [Maduro], muito provavelmente, não foi eleito, mas ao mesmo tempo, isso pode levar ao caos, e é por isso que temos leis.”
No início da audiência, um homem que estava na plateia se levantou com um cartaz em que se lia “Tirem as mãos da Venezuela” e se manifestou contra as ações dos EUA. Ele foi retirado da sala.
O secretário de Estado foi questionado ainda sobre os planos do presidente para o país sul-americano. Trump e o alto escalão de seu governo, Rubio incluso, têm demonstrado que estão trabalhando com Delcy, que era vice de Maduro e agora é a líder interina do regime em Caracas.
Do outro lado, há a líder da oposição, María Corina Machado. Impedida pelo regime de disputar a eleição, ela vive na clandestinidade. Ao ganhar o Nobel da Paz no ano passado, dedicou o prêmio a Trump e depois até o presenteou com a medalha que representa a láurea, mas o americano a escanteia reiteradamente. Seu argumento é o de que ela não tem respeito e apoio popular suficientes para governar a Venezuela.
Rubio disse o óbvio. Ele afirmou que a situação na Venezuela é complexa e reiterou um argumento que também tem sido usado contra María Corina. “As pessoas que controlam as armas estão a serviço deste regime”, disse o secretário, em referência ao alinhamento do alto escalão militar ao chavismo.
Rubio também afirmou que a opositora poderia ter um papel na transição da Venezuela, mas não especificou qual —María Corina, que está nos EUA, teria uma reunião com o secretário ainda nesta quarta.
Os senadores também questionaram Rubio sobre suas posições em relação à Otan, a aliança militar liderada pelos EUA e sob ameaça e crítica constantes de Trump desde que ele voltou à Casa Branca.
O secretário usou os argumentos do chefe, ainda que de modo suavizado, ao defender que a Otan “seja reimaginada”. Também minimizou a tensão ao dizer que este não é o primeiro governo americano a questionar a organização.
Rubio foi pressionado a responder sobre a falta de consulta ao Congresso antes do ataque que derrubou Maduro. “Se tiveram tempo para pôr em prática, tiveram tempo para a consulta”, disse o senador democrata Chris Coons.
O secretário tergiversou. Disse que o Congresso só não foi informado sobre o ataque porque, até o fim dezembro, o governo não sabia se a operação seria possível.
Petróleo
Em meio aos questionamentos sobre os recursos da venda do petróleo da Venezuela, país que possui uma das maiores reservas do mundo, Rubio disse que o dinheiro será depositado em uma conta bancária controlada pelo Tesouro dos EUA. Também afirmou que o montante será gasto pelo governo venezuelanos em benefício do povo.
O plano foi criticado por senadores presentes na audiência, caso do democrata Chris Murphy, que acusou o governo Trump de tentativa de roubo.
“O escopo do projeto que o senhor está levando adiante na Venezuela não tem precedentes”, disse Murphy. “O senhor está retendo e vendendo esse petróleo, colocando os recursos em uma conta bancária offshore”.
A fala do senador foi uma referência a uma reportagem da CNN que mostra que os rendimentos da venda do petróleo estão sendo enviados ao Qatar. “O senhor está decidindo como e para quais fins esse dinheiro será usado em um país de 30 milhões de pessoas. Acho que muitos de nós acreditam que isso está fadado ao fracasso.”