Negociação nuclear entre EUA e Irã avança mesmo com ameaças

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Barco da Guarda Revolucionária do Irã dispara míssil em exercício no estreito de Hormuz - Sepah News - 16.fev.26/AFP

por Folha de S.Paulo

A segunda rodada de negociações indiretas entre os Estados Unidos e o Irã sobre o programa nuclear do país persa foi concluída com avanços, mesmo com o aumento do tom por parte da teocracia: o seu líder supremo, Ali Khamenei, ameaçou afundar navios de guerra americanos que fazem um cerco a Teerã no Oriente Médio.

Segundo o líder da delegação iraniana que reuniu-se na casa do embaixador de Omã em Genebra, Abbas Araghchi, as conversas foram “mais produtivas” e chegaram a “princípios guias gerais” para mais negociações.

Em Washington, funcionários da Casa Branca disseram que houve progresso e que os iranianos deverão apresentar uma proposta mais detalhada em duas semanas.

Araghchi afirmou, contudo, que não é possível avançar sob a ameaça de um ataque de Donald Trump, que nas últimas semanas enviou diversos ativos militares para cercar o país persa.

Antes da reunião, Khamenei havia dito que Trump “não será capaz de depor a República Islâmica”, em referência ao regime instalado pelos religiosos radicais em 1979. O americano havia dito que a queda do regime “seria a melhor coisa que poderia acontecer”.

Segundo Khamenei, a armada montada por Trump nas últimas semanas, que em breve terá um segundo grupo de ataque de porta-aviões, não o impressiona. “Mais perigosa que os navios de guerra americanos é a arma que poderá mandá-los para o fundo do mar”, afirmou.

Pelo lado americano, estiveram em Genebra o negociador Steve Witkoff e o genro presidencial Jared Kushner. Os mediadores novamente eram os omanis, que haviam sediado em seu país a primeira rodada, há uma semana e meia.

As conversas duraram três horas e meia, tempo visto como curto. “Entramos com a mente aberta”, disse o porta-voz iraniano Esmaeil Baghaei à estatal Press TV.

Após o encontro, no qual cada grupo se reportou a diplomatas de Omã, a delegação americana foi participar de outro processo de paz, nas conversas entre delegações da Rússia e da Ucrânia na mesma cidade.

Na mesa do Oriente Médio, o próprio escopo das conversas era objeto de polêmica. Oficialmente, o debate é sobre um acordo para que os aiatolás renunciem às armas nucleares em troca do fim de sanções asfixiantes contra seu país.

Isso valeu de 2015 a 2018, quando o mesmo Trump deixou o arranjo, apontando falhas no processo de verificação da produção de urânio enriquecido por Teerã: até certo nível, o material tem fins pacíficos, mas depois as aplicações são militares.

Agora, os iranianos dizem aceitar negociar a diluição dos 60% de enriquecimento atingidos em cerca de 400 kg de urânio, o que dá para fazer talvez 15 artefatos atômicos rudimentares e de baixa potência. Os EUA querem o fim do programa todo.

Mas os americanos querem também incluir no acordo um fim ou limitação do arsenal de mísseis balísticos do Irã, que é sua principal arma de retaliação e foi usado amplamente, com ogivas convencionais, na guerra de 12 dias com Israel no ano passado.

Os iranianos dizem que só topam falar de energia nuclear, e Araghchi encontrou-se em Genebra com o chefe da agência da ONU do setor, o argentino Rafael Grossi. Israel insistiu com os aliados americanos sobre o ponto, cientes de que mesmo tendo sido bastante dominados em 2025, os iranianos mantêm capacidades para fustigar o Estado judeu.

Ao falar também de queda do regime, Trump aludiu aos protestos que desafiaram a teocracia em janeiro, que foram reprimidos duramente, mas mostraram a fragilidade do poder dos aiatolás. Seja como for, o americano abandonou a retórica de que iria em socorro aos manifestantes.

Na segunda (16), Trump havia dito que o acordo interessava ao Irã. “Eu não acho que eles querem as consequências. Nós podemos ter um acordo em vez de mandar os B-2 para acabar com o potencial nuclear deles. E nós já mandamos os B-2”, afirmou.

Ele se referia ao ataque de junho passado em apoio à ação de Tel Aviv, quando os EUA atingiram centrais nucleares iranianas com bombas destruidoras de bunkers lançadas por bombardeiros furtivos ao radar B-2, além de mísseis de cruzeiro.

Para enviar um sinal de força durante as conversas, o Irã iniciou na segunda-feira (16) uma série de exercícios navais no estreito de Hormuz, por onde passam 20% do petróleo e do gás consumidos no planeta. Na terça (17), partes da região sob controle do país estarão fechadas para navegação, o que é praxe, mas adiciona tensão ao ambiente.

As manobras haviam sido adiadas antes da primeira rodada de conversas, e sua retomada insinua o estado de espírito em Teerã.

Mais ao sul, no mar da Arábia, o grupo do porta-aviões USS Abraham Lincoln treinava sob condições difíceis o lançamento de missões sob ataque. Os iranianos têm mísseis antinavios eficazes, mas usualmente a escolta dessas embarcações pode dar conta de defendê-la.

Problema maior são os drones. Teerã tem um estoque estimado de 80 mil modelos Shahed-136, cuja cópia russa cai todo dia sobre a Ucrânia. O envio de grandes enxames contra um grupo de navios pode saturar sua defesa, ainda que os aviões-robôs não consigam afundar uma embarcação, mas sim abrir caminho para uma barragem com mísseis.

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