Iranianos que EUA tinham em mente para liderar país quando a guerra terminar estão mortos, diz Trump
O presidente dos EUA, Donald Trump, sentado à sua mesa na Casa Branca - Evelyn Hockstein - 3.fev.2026/Reuters
por Folha de S.Paulo
O presidente Donald Trump disse na terça-feira (3) que todas as pessoas que os Estados Unidos tinham em mente para assumir o comando do Irã após o fim da guerra “estão mortas”. O republicano não especificou quem seriam essas pessoas, nem em quais circunstâncias elas morreram.
A declaração do presidente americano foi dada poucas horas depois de um ataque à sede da Assembleia de Especialistas —órgão constitucionalmente encarregado de selecionar o novo líder supremo do país persa.
A autoria exata do bombardeio contra a cidade de Qom, ao sul de Teerã, ainda é desconhecida, mas Israel havia dito mais cedo, na terça, ter atacado a sede da Presidência e do Conselho de Segurança do Irã, enquanto os Estados Unidos realizaram novas incursões aéreas na capital. O conflito no Oriente Médio entrou em seu quarto dia nesta terça.
Logo após o ataque, um funcionário israelense disse ao jornal The Times of Israel, sob condição de anonimato, que os clérigos foram atingidos. A Assembleia é composta por 88 autoridades islâmicas altamente graduadas eleitas por voto popular a cada oito anos.
A agência local Fars, no entanto, disse que o prédio foi esvaziado antes do ataque e, por isso, não houve vítimas. Ainda segundo a agência, os membros do órgão se reúnem de maneira remota e estão nos “estágios finais” para definir o novo líder supremo.
Durante conversa com jornalistas na Casa Branca, Trump fez referência ao ataque desta terça ao comentar a morte de autoridades do Irã. “Tudo foi destruído”, afirmou ele. “Como vocês sabem, 49 pessoas [da liderança iraniana] foram mortas no primeiro ataque [no sábado, 28]. E acho que houve outro hoje [terça] contra a liderança, que parece ter sido significativo”, afirmou, em aparente referência ao bombardeio da Assembleia de Especialistas.
Trump disse também que o “pior cenário possível” no Irã seria um líder “tão ruim” quanto o aiatolá Ali Khamenei, morto pelos ataques de Estados Unidos e Israel no sábado. As declarações do presidente americano foram dadas durante encontro em Washington com o primeiro-ministro da Alemanha, Friedrich Merz.
Na segunda-feira, ao falar com jornalistas, o secretário de Estado Marco Rubio afirmou que os EUA enfrentavam uma ameaça iminente porque Israel estava prestes a atacar o Irã, e que Teerã estaria preparado para retaliar contra forças americanas. Durante o encontro com Merz, porém, Trump contradisse essa versão ao dizer que foi ele quem pode ter “forçado a mão de Israel” para dar início ao bombardeio.
“Acho que eles iam atacar primeiro, e eu não queria que isso acontecesse. Então, se for o caso, pode ser que eu tenha forçado a mão com Israel”, afirmou o presidente.
O republicano disse ainda que “provavelmente há uma terceira onda” de ataques contra a liderança iraniana a caminho.
A destruição do prédio da Assembleia dos Especialistas, junto com ataques contra a sede da Presidência e o Conselho de Segurança, indica que os EUA e Israel permanecem mirando lideranças iranianas. O conselho é responsável pela política de defesa nacional, e o presidente Masoud Pezeshkian é um dos líderes no comando do Irã no momento.
Especialistas, entretanto, não estão certos de que a estratégia de decapitação do regime sem uma invasão terrestre será suficiente para derrubar o regime.
Além disso, embora tanto Trump quanto o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu tenham convocado o povo iraniano a tomar controle do país, o governo americano tem recuado desse objetivo.
Em fala na segunda (2), Trump não mencionou uma derrubada da teocracia, dizendo que a guerra está sendo travada para impedir que o Irã produza mísseis balísticos e desenvolva uma bomba atômica —arma que Teerã nega desejar, embora tenha enriquecido urânio a níveis muito superiores do que os necessários para usos civis.
Mais cedo nesta terça, Washington e Teerã deram sinais de que não há espaço para diplomacia no momento. O presidente americano escreveu nas redes sociais que “as defesas aéreas, Força Aérea, Marinha e liderança [do Irã] se foram”. “Eles querem conversar. Eu disse: ‘tarde demais'”, completou o presidente.
Algumas horas depois, o embaixador da missão iraniana à ONU em Genebra, na Suíça, desmentiu Trump, dizendo que Teerã não está em contato com os EUA —seja para interromper a guerra, seja para retomar negociações sobre seu programa nuclear.
“Por ora, temos sérias dúvidas sobre a utilidade de negociações”, afirmou Ali Bahreini. “A única linguagem que os EUA entendem é a linguagem da defesa. Não é o momento de abrirmos canais de diálogo.”
A guerra teve início no sábado, quando Trump ignorou semanas de negociação e optou por bombardear o Irã em conjunto com Israel, matando Khamenei e outras lideranças do regime.
Desde então, ataques articulados por Washington e Tel Aviv mataram pelo menos 787 pessoas no Irã, segundo balanço do Crescente Vermelho, o braço da Cruz Vermelha para países muçulmanos.
Ataques iranianos, por sua vez, mataram dez em Israel e seis militares dos EUA em bases no Oriente Médio.
Qual a função da Assembleia de Especialistas?
A Assembleia de Especialistas, alvo do ataque desta terça, é liderada pelo clérigo Mohammad Ali Movahedi e vota para eleger o novo líder supremo a partir de uma lista previamente aprovada pelo Conselho Guardião. Esse órgão, por sua vez, é composto por 12 pessoas: seis clérigos, escolhidos pelo líder supremo, e seis juristas, selecionados pelo presidente da Suprema Corte iraniana.
Entre os requisitos constitucionais para que um clérigo se torne líder supremo, com controle completo do Executivo, Legislativo e Judiciário do país, estão conhecimento profundo da lei islâmica, capacidade comprovada de liderança, compreensão de assuntos políticos e sociais, e uma personalidade “justa e piedosa”.
Antes de Khamenei ser escolhido para o cargo, a Constituição também exigia que o líder supremo fosse um aiatolá, um dos cargos mais elevados para clérigos do islamismo xiita, dominante no Irã. Entretanto, como o sucessor escolhido por Ruhollah Khomeini não era um aiatolá, o texto constitucional foi alterado para que Khamenei pudesse ser eleito.
Com Reuters