Guerra no Irã pode custar eleições a Trump, que teme sofrer impeachment
O presidente dos EUA, Donald Trump, sentado à sua mesa na Casa Branca - Evelyn Hockstein - 3.fev.2026/Reuters
por Folha de S.Paulo
“Não vamos mais entrar em guerras, vamos acabar com elas”, prometia Donald Trump em campanha pela Presidência dos Estados Unidos, em 2024. De volta à Casa Branca, o discurso mudou. Nas redes sociais, o republicano anunciava o início da guerra no Irã: “Bombas serão lançadas em todos os lugares”.
Para analistas, ao declarar guerra no Oriente Médio, Trump prioriza a política externa, deixa de lado problemas domésticos e coloca as eleições legislativas em xeque.
Há, porém, um longo caminho até as eleições de meio de mandato. É comum que presidentes percam cadeiras nessas votações, mas no caso do republicano, o temor é de que, ao perder o controle do Legislativo, ele tenha que enfrentar um Congresso mais combativo.
Para aliados, ele confessou o temor de sofrer um impeachment. O presidente da Câmara dos Representantes, o republicano Mike Johnson, não esconde o receio pelas eleições: “Se perdermos as eleições, significaria o fim da Presidência de Trump na prática.”
Em 2024, enquanto buscava o retorno a Washington, Trump criticava conflitos externos, em linha com o movimento Maga, que defende que os interesses dos EUA vêm primeiro. Agora, pesquisas indicam que parte desse grupo desaprova o início da guerra no Oriente Médio.
Entre os críticos está Tucker Carlson, ex-âncora da Fox News. Aliado de Trump, ele aconselhou o presidente a não entrar no confronto, segundo o jornal The New York Times. Nas redes, chamou a guerra de “injusta”, “errada” e lamentou as mortes de americanos —ao menos seis militares desde o início dos ataques.
Pesquisas de diferentes veículos mostram que a população americana, de modo geral, desaprova a ação. Levantamento da CNN, feito pela SSRS, entre 28 de fevereiro em 1º de março, aponta que 59% dos americanos são contrários ao início do conflito.
Antes da guerra, Trump já enfrentava queda de popularidade. Atualmente, segundo a revista The Economist, a aprovação do presidente está em 58%, com leve queda de 0,6 ponto desde a semana anterior.
Para o professor de ciência política e especialista em política dos EUA, Carlos Poggio, o impacto político da guerra depende da duração do conflito. “Quanto mais tempo durar essa guerra, piores tendem a ser as consequências políticas para Trump”, diz.
Jonathan Hanson, professor da Universidade de Michigan, concorda que será preciso tempo para avaliar plenamente os efeitos, mas lembra que Trump tomou uma ação arriscada. “Pesquisas recentes mostram que uma sólida maioria de americanos não concorda com os ataques, e a história sugere que esses números só devem crescer com o tempo”, diz.
Para Jordan Tama, professor de política externa e segurança global na American University, o sucesso da operação na Venezuela, quando os EUA atacaram Caracas e capturaram o ditador Nicolás Maduro, pode ter dado excesso de confiança ao presidente, levando-o a acreditar que poderia derrubar o regime do Irã com custo mínimo.
“Historicamente, há muitos momentos em que líderes se tornam confiantes demais por causa de sucessos anteriores e passam a acreditar que, da próxima vez, será igual. Mas, as condições são diferentes em cada país”, diz.
Além da falta de apoio dos americanos, a falta de clareza sobre os objetivos da guerra, que mudam a cada declaração do presidente e de seu gabinete, é outro problema. O governo já falou em eliminação do programa nuclear iraniano, destruição de mísseis e combate a milícias apoiadas pelo Irã, por exemplo.
Também não se sabe quanto tempo a guerra vai durar. Trump já disse que poderiam ser “quatro a cinco semanas”, mas afirmou que os EUA têm capacidade para ir “muito além disso”. Na sexta-feira (6), afirmou que os confrontos só terminarão com a “rendição incondicional” do Irã.
Segundo Poggio, o republicano é um presidente “não ideólogo”. “Ele tem algumas convicções, mas são poucas as áreas em que é realmente consistente. Em política externa ou econômica aparecem muitas contradições”, diz.
Para Hanson, a falta de transparência e explicação para a população “não dá muita esperança de que [o governo] tenha refletido sobre suas consequências de longo prazo ou sobre o que fazer a seguir”. “[Trump] foi eleito porque uma parcela de indecisos estava insatisfeita com o aumento dos preços no período de recuperação pós-pandemia, não porque queria mais envolvimento em conflitos externos.”
Para além da impopularidade da guerra, o presidente dá sinais de tentativa de interferência nas eleições. “A aposta do Trump para novembro não é exatamente convencer a opinião pública, mas criar confusão. Ele pode tentar declarar emergência, falar em fraude e criar obstáculos para a votação”, afirma Poggio.
O presidente nunca abandonou sua acusação de que as eleições de 2020 contra Joe Biden foram fraudadas. Mesmo nas eleições de 2024, em que ele ganhou de Kamala Harris, ele diz que houve fraudes em estados em que ele não foi vitorioso.
Com base nessas acusações, que nunca tiveram respaldo em evidências, Trump já falou em “nacionalizar as eleições” e pressiona pela aprovação do Save America Act, que segundo ele garantiria eleições justas. Críticos alertam que a lei poderia dificultar o voto de milhões de americanos, já que exigiria documentos como passaporte ou certidão de nascimento para registro eleitoral. Muitos cidadãos não possuem esses documentos, e obtê-los pode ser burocrático e caro.
“Eu, como presidente, não assinarei outros projetos de lei até que este seja aprovado”, disse Trump no domingo (8), em referência ao Save America Act, enquanto passava o fim de semana em seu clube de golfe na Flórida.