Globo: A história de manipulações eleitorais da família Marinho

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Criticada por “novo PowerPoint” contra Lula no caso Banco Master, emissora acumula histórico de distorções e omissões que marcaram as eleições e a redemocratização do país

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Cerimônia de abertura da exposição comemorativa dos 100 anos do Grupo Globo no Salão Negro do Congresso Nacional – (Geraldo Magela/Agência Senado)

Após a emissora de notícias das Organizações Globo, a Globo News, ter levado ao ar na tarde desta sexta-feira (20) uma ilustração sobre o escândalo do Banco Master distorcendo fatos e omitindo e minimizando o papel de personagens que seriam centrais no caso, diversas críticas têm sido feitas ao grupo de comunicação.

O formato utilizado pela emissora remete ainda ao PowerPoint utilizado pelo ex-procurador da Operação Lava Jato Deltan Dallagnol, que apontava o então ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como centro da suposta organização criminosa investigada pela força-tarefa.ebcebc Pela apresentação, Dallagnol foi condenado pela Justiça a pagar R$ 146 mil em indenização por danos morais a Lula.

Embora o escândalo do Banco Master tenha implicado até agora praticamente só nomes da direita e figuras ligadas ao bolsonarismo, a peça feita pela emissora mostrava próximos ao banqueiro Daniel Vorcaro, no centro da imagem, fotos do presidente Lula, do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, do “PT da Bahia” e do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, ainda que tenha sido na gestão de Roberto Campos Neto, nomeado por Bolsonaro, que Vorcaro tenha conseguido autorização para assumir o controle do Banco Máxima, que posteriormente se tornou o Banco Master.

O ex-diretor de Fiscalização do BC, Paulo Sergio Neves de Souza, também da gestão de Campos Neto, e o ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária (Desup), Belline Santana, foram apontados pela Polícia Federal (PF) como “funcionários” ou “consultores informais” de Vorcaro. E o Master firmou convênio com o INSS para operar o crédito consignado em 2020, também no governo Bolsonaro.

Nada disso pareceu fazer com que a Globo fizesse a equivalência correta na sua ilustração. O deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS) classificou como “muito grave” o episódio. “É muito grave o que a Rede Globo fez, o novo PowerPoint. Sinceramente, eu achei que depois do PowerPoint do Dallagnol, a gente não teria tão cedo outra tentativa tão grotesca de manipulação da opinião pública através da criação de uma narrativa através de um PowerPoint”, declarou, em vídeo publicado nas redes sociais.

“As duas campanhas do Brasil que receberam mais dinheiro nas últimas eleições foram as campanhas do Bolsonaro e do Tarcísio de Freitas. E eles não aparecem, não aparecem no PowerPoint da Rede Globo”, acrescentou, mencionando alguns nomes omitidos pela emissora.

O histórico da Globo e o caso Proconsult

Não é a primeira vez em que as Organizações Globo são acusadas de interferirem em processos eleitorais ou pré-eleitorais. A extrema direita costuma tecer teorias conspiratórias, mas os fatos apontam que é a esquerda quem foi alvo de coberturas enviesadas, falsificações e distorções.

Um dos casos emblemáticos envolve as primeiras eleições diretas para governador durante o processo de abertura política, no fim da ditadura iniciada com o golpe de 1964. No Rio de Janeiro, a empresa Proconsult, que contava com militares em sua direção, venceu a licitação do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) para totalizar os votos no estado, mesmo sem contar com nenhuma experiência no setor.

O professor do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio, Mauro José de Souza Silveira, analisava no trabalho O caso Proconsult: embates na apuração das eleições para o governo fluminense em 1982 a diferença entre a cobertura do Jornal do Brasil e do grupo Globo. “Depois de uma dificuldade inicial em seu sistema de computação, o Jornal do Brasil rendeu-se aos dados apurados pelo esquema paralelo montado por sua emissora de rádio e passou a projetar os números relativos aos votos obtidos pelos candidatos a governador. Ao mesmo tempo, o Globo divulgava um número muito inferior de urnas apuradas”, conta.

“Enquanto o JB já projetava a vitória de Brizola, o concorrente reproduzia a lenta apuração oficial, sempre com Moreira na frente, e divulgava projeções indicando uma indefinição quanto ao resultado final das eleições. À medida que avançava na apuração, o JB comemorava sua atuação, com anúncios institucionais em suas páginas. Quando já era flagrante o fracasso da Proconsult, O Globo passou a criticar a empresa, a quem atribuiu os problemas de sua própria apuração”, destaca.

Silveira aponta que “a pesquisa realizada me permitiu comprovar o empenho do grupo Globo, declaradamente na campanha e de uma forma não assumida na cobertura da apuração para derrotar Leonel Brizola e eleger Moreira Franco”.

Em artigo, o jornalista Altamiro Borges lembra que, mesmo depois das eleições, a Globo seguiu em campanha contra Brizola. “Passadas as eleições, mesmo desmoralizada, a Globo continuou a fazer campanha feroz contra o governador Leonel Brizola, democraticamente eleito pelo povo. Ela procurou vender a imagem de que ele era culpado pelo aumento da criminalidade e, sem provas, tentou associá-lo ao mundo do crime. Numa entrevista ao jornal The New York Times, em 1987, o próprio Roberto Marinho confessou essa ilegal manipulação. ‘Em determinado momento, me convenci de que o Sr. Leonel Brizola era um mau governador. Ele transformou a cidade maravilhosa que é o Rio de Janeiro numa cidade de mendigos e vendedores ambulantes. Passei a considerar o Sr. Brizola daninho e perigoso e lutei contra ele. Realmente, usei todas as possibilidades para derrotá-lo’”.

Edição do debate de 1989

Outro episódio marcante foi a edição distorcida feita do último debate do segundo turno das eleições presidenciais entre os candidatos Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Collor de Mello, em 1989.

No dia seguinte do encontro ao vivo organizado por um pool de emissoras, a Globo exibiu uma matéria com o que seriam os melhores momentos do debate no Jornal Nacional, à época o principal meio de informação da maioria dos brasileiros. Contudo, os “melhores momentos”pareciam reservados apenas a Collor.

À época, o PT chegou a mover uma ação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) solicitando que novos trechos do debate fossem apresentados no Jornal Nacional ainda antes das eleições, mas seu pedido foi negado.

Em entrevista ao livro Jornal Nacional, a notícia faz história, do projeto Memória Globo, o jornalista Armando Nogueira, então diretor da Central Globo de Jornalismo, acusou Alberico de Souza Cruz, um de seus diretores, e o editor de política, Ronald de Carvalho, de terem deformado a edição do debate que foi apresentada no Jornal Hoje e que deveria ser repetida sem qualquer alteração.

“Alberico, à minha revelia, mandou fazer alterações, das quais eu só tomei conhecimento no ar. Então eu estava diante de um caso típico de deslealdade, de traição profissional, traição funcional (…). Foi um caso típico de deslealdade profissional desse rapaz que era uma pessoa de minha confiança e que segue até hoje e vai continuar negando até o Juízo Final. Mas, no Juízo Final, continuarei a responsabilizá-lo por isso”, disse.

Anos depois do malfeito, a própria Globo admitiria o erro, de forma quase envergonhada. “A partir deste episódio, a Globo decidiu não editar debates políticos, limitando-se a apresentá-los na íntegra e ao vivo. Concluiu-se que, ao condensar um debate, bons e maus momentos dos candidatos ficarão de fora, segundo a escolha de um editor ou de um grupo de editores, e sempre haverá a possibilidade de um dos candidatos se sentir prejudicado”, diz a emissora no site do Memória Globo.

A Globo na cobertura das Diretas Já

Não se tratava de um processo eleitoral, mas uma votação na Câmara dos Deputados que seria decisiva para a história brasileira e definia, justamente, o direito de votar.

A Emenda Dante de Oliveira, proposta em 1983 pelo deputado homônimo, visava restabelecer eleições diretas para presidente no Brasil, resultando no movimento “Diretas Já”, que uniu boa parte da sociedade que lutava pela redemocratização.

Parafraseando Garrincha, faltou combinar com a Globo. Em 25 de janeiro de 1984, ocorreu um comício histórico na Praça da Sé, em São Paulo, com mais de 300 mil pessoas reunidas para exigir “Diretas Já”, com a presença de grandes líderes políticos, como os governadores Franco Montoro e Leonel Brizola, Ulysses Guimarães, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Mário Covas.

O Jornal Nacional daquela noite exibiu imagens da multidão monumental, mas omitiu em sua chamada o caráter político e reivindicatório do evento. “Festa em São Paulo. A cidade comemorou seus 430 anos com mais de 500 solenidades. A maior foi um comício na Praça da Sé”, dizia o locutor do programa.

Mais uma vez, a própria Globo admitiu, nas palavras do então vice-presidente de operações da Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, que atribuiu o jornalismo feito àquela época como resultado das pressões dos militares, que teriam ameaçado cassar a concessão da emissora. “Naquele momento, a pressão sobre Roberto Marinho foi intensa. Foi uma frustração para mim e para toda a equipe de jornalismo, uma tristeza para o Armando Nogueira e a Alice-Maria, não poder fazer a cobertura de maneira adequada. Nós ficamos limitados pelo poder de audiência que a TV Globo tinha. Isso foi uma tristeza muito grande, mas naquele momento o Dr. Roberto não podia resistir”, disse, ao Memória Globo.

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