As duas reações mais comuns sobre a ascensão da inteligência artificial têm sido parecidas no seu efeito prático. Uma tenta reduzir tudo a uma moda passageira, como se bastasse continuar repetindo a palavra “bolha” e esperar que isso tudo vai passar.

A outra se concentra em denunciar seus riscos reais, mas faz isso como se a melhor resposta fosse manter a distância. No fim, as duas atitudes levam ao mesmo resultado, deixando a tecnologia avançar sem a participação de quem deveria influenciar o seu rumo.

A opinião pública está longe de estar empolgada sobre IA. Uma pesquisa no fim de 2025 do Pew Research Center em 25 países mostrou que 34% dos adultos estão mais preocupados do que entusiasmados com o aumento do uso da IA, enquanto 42% estão igualmente preocupados e entusiasmados.
E é aqui que está o erro do século. Muitos ainda parecem agir como se minimizar ou criticar uma tecnologia fosse capaz de enfraquecê-la. A realidade é que as tecnologias transformadoras, como a máquina a vapor e a eletricidade, avançaram mesmo quando a sociedade ainda estava desconfiada e dividida em relação aos seus potenciais.
A comparação mais repetida pelos céticos da IA é com o metaverso, que acumulou US$ 80 bilhões em prejuízos na Meta, e acaba de ter seu produto principal encerrado. Mas o metaverso nunca fez sentido. A proposta era convencer bilhões de pessoas a colocar um capacete desconfortável para frequentar salas virtuais vazias, sem um problema real a ser resolvido.
A IA, por outro lado, sempre fez muito sentido. Traduzir línguas, resumir documentos, auxiliar diagnósticos, acelerar pesquisas e automatizar tarefas repetitivas são problemas concretos que a humanidade tenta resolver há séculos. O metaverso era uma solução em busca de um problema, enquanto a IA é uma solução que encontrou centenas de problemas.
Uma terceira possível reação à ascensão da IA é a única realmente adulta: entrar de cabeça.
Quem minimiza seus impactos futuros precisa acordar para o tamanho da transformação que está começando. Quem teme viés, manipulação e concentração de poder deveria correr para estudar seus mecanismos, testar modelos, documentar falhas, propor limites e construir alternativas melhores.
Os grupos que mais desconfiam da IA hoje são exatamente os que mais podem melhorar a tecnologia amanhã. A área precisa de mais estatísticos, médicos, professores, juristas, gestores públicos, jornalistas e cientistas que façam perguntas incômodas antes que os produtos virem realidade.
A inteligência artificial vai avançar com ou sem você. Ignorar a IA não vai fazer ela ir embora, vai apenas garantir que ela seja desenhada por quem começou primeiro, por quem tem mais tempo ou por quem tem menos escrúpulo. Quem entrar agora ainda poderá ajudar a decidir como essa história será escrita. Quem continuar tratando a IA como um delírio temporário vai descobrir tarde demais que estava perdendo seu tempo enquanto o futuro já estava sendo construído.
Por Alexandre Chiavegatto Filho