Tereza Cristina (Foto de Egberto Nogueira)

Tereza Cristina (Egberto Nogueira/ímãfotogaleria/.)

Recentemente, Tereza Cristina, líder do PP no Senado, atendeu uma chamada de um número dos Estados Unidos. Havia um nítido tom de apreensão na voz do outro lado da linha. “Mãe, que história é essa de você ser candidata a vice?”, ouviu a congressista sul-mato-grossense. Em 2022, o nome da senadora foi ventilado para compor a chapa ao lado do capitão. Era a preferida dos partidos do chamado Centrão, mas o então presidente escolheu um general. Produtora rural, Tereza é considerada uma parlamentar de perfil moderado, goza do respeito dos empresários do agronegócio e voltou a ser cotada para disputar a Vice-Presidência, agora ao lado de Flávio Bolsonaro. Em entrevista a VEJA, repetindo o que disse à filha, ela garante que não foi consultada formalmente sobre essa possibilidade, mas não esconde o alinhamento com as propostas defendidas pelo pré-candidato oposicionista, como o fim da reeleição para o Palácio do Planalto e a diminuição da maioridade penal. A senadora também afirma que não houve tentativa de golpe, defende um indulto ao ex-presidente e, com muita veemência, dispara contra a política agrícola do governo Lula.

O presidente do PL, partido do senador Flávio Bolsonaro, a descreveu como uma “vice ideal”. A senhora é candidata ao posto ou vai permanecer no Senado?

Me sinto honrada com isso. Também me sinto preparada, mas isso não depende da minha vontade. Ser vice-presidente não é o meu sonho de consumo. Todo mundo fala “ah, se a senhora tivesse sido vice em 2022, Bolsonaro teria ganho a eleição”, mas nunca conversaram comigo sobre essa possibilidade.

O PP vai apoiar Flávio Bolsonaro?

Hoje vejo que tem muita chance de o PP apoiar o Flávio Bolsonaro. Isso ainda não está posto, oficialmente. Mas vejo que a direção é uma candidatura de direita, tenho certeza, porque já conversei sobre isso com o presidente do PP, o senador Ciro Nogueira, em algumas reuniões.

O filho do ex-presidente é a melhor opção da direita? Sempre disse que o melhor candidato seria aquele com condições efetivas de vencer o presidente Lula e que tivesse também a capacidade de unir a direita, ainda que fosse em segundo turno. Neste momento, a candidatura de Flávio Bolsonaro é a que se mostra, sem dúvida, mais competitiva.

A marca do golpismo e o julgamento do 8 de Janeiro não podem prejudicar o projeto eleitoral da oposição? Nós ainda vamos ver mais para a frente o que aconteceu nesses julgamentos. Tenho muitas dúvidas sobre as provas contra as pessoas que foram presas. Os processos não foram individualizados. Vejo com muita tristeza a situação de Jair Bolsonaro. Qualquer prisão para quem foi presidente da República é ruim, seja na Papudinha, seja em casa, com tornozeleira eletrônica. É um assunto que me incomoda muito.

Houve tentativa de golpe? Para uns, sim, para outros, não. Houve manifestações de um grande número de pessoas Brasil afora. Não foi só em Brasília. Os que estavam na capital vieram e fizeram aquele ato, muito mais de vandalismo, na minha opinião. Não tinha uma arma, não tinha nenhum militar comandando. Então tenho muita dúvida. Deram a isso o nome de tentativa de golpe. Será que foi isso mesmo? A história vai dizer.

“Sou a favor da volta da doação de empresas nas eleições, com regras claras de governança, como há em outros países. É muito dinheiro público para as campanhas”

Qual é a opinião da senhora em relação à anistia aos condenados? A dosimetria já resolveria muita coisa. Poderia diminuir penas que eu acho excessivas. A anistia é mais difícil passar no Congresso. Mas, se ela viesse, pacificaria o país. Trabalhei pela dosimetria, porque isso tiraria da cadeia muitas pessoas que já poderiam cumprir sua pena em casa.

Na hipótese de assumir um cargo no próximo governo, a senhora defenderia um indulto ao ex-presidente Bolsonaro? Defenderia.

A investigação sobre o caso do Banco Master mostra uma proximidade entre o presidente de seu partido, Ciro Nogueira, e o banqueiro Daniel Vorcaro, além de ministros do STF e de gente do governo. Qual sua opinião a respeito do escândalo? Não pega só um partido, não pega só um dirigente. É um assunto sério e grave pelo envolvimento dos Três Poderes e de tanta gente. Mas todos precisam ter o direito de ampla defesa. A gente tem que ter muita calma para não cometer injustiças e começar a condenar as pessoas antes da hora. A investigação precisa acontecer. Temos aqui no Congresso a possibilidade de uma CPMI. É muito cedo ainda.

É a favor da redução da maioridade penal, uma das bandeiras da oposição? É um assunto muito complicado. A princípio, sim. Preciso estudar mais, porque às vezes a gente acha que é uma coisa, e não é bem aquilo. Ainda não tenho essa convicção formada. Temos outras propostas importantes que também precisam ser discutidas, como o fim da reeleição e do financiamento público das campanhas.

A senhora é a favor de ambas? Assinei uma PEC que o Flávio Bolsonaro apresentou sobre o fim da reeleição para o próximo presidente. Resolveria muita coisa. A gente deveria pensar em estender também para os governos estaduais. Melhoraria muito o ambiente e a oxigenação na política. Sobre o financiamento eleitoral, a gente tem que começar a repensar o modelo. É muito dinheiro público para as campanhas. Poderíamos voltar ao financiamento privado, como já foi no passado. Sou do agro. Nada mais natural que o agro possa doar para quem defende o setor. Seria muito saudável voltar a permitir a doação de empresas, com limite, com regras claras de governança, como tem em outros países.

Por falar nisso, como avalia a política do governo para o setor? Este governo não valoriza o setor como deveria. Quem puxou o PIB do Brasil em 2025 foi o agronegócio, de novo. A agricultura, em especial, enfrenta dificuldades de crédito. O mundo inteiro dá subsídios. Pagamos juros altos, não temos infraestrutura. Quando estive nos Estados Unidos, no ano passado, um economista disse para alguns deputados e senadores brasileiros: “Graças a Deus, vocês não investem em armazenamento. Se vocês tivessem onde armazenar, nós teríamos muito mais medo de vocês, porque vocês são competitivos”. Disse isso nas nossas barbas e tivemos que ouvir. Não temos recursos, não temos linhas de financiamento e não vejo o governo fazendo nenhum esforço. Estamos vivendo uma mudança climática e o governo não se mexe para dar um seguro rural. Esse ano foi zero. Eles não gostam dos produtores rurais.

A que atribui essa postura? É um ranço burro. O governo tinha que ter orgulho de um setor que, apesar de todas as intempéries, de todas as dificuldades de crédito, de seguro e de infraestrutura, é altamente tecnificado. E ano a ano tem batido recordes de safra. O governo prefere dar atenção ao MST, um movimento social que nunca vi produzir nada, que invade terra, que entra em propriedades, dizima pesquisas.

“Não temos linhas de financiamento. Estamos vivendo uma mudança climática e o governo não se mexe para dar um seguro rural. Eles não gostam dos produtores rurais”

A senhora, que é produtora rural e se define conservadora, se sentiu ofendida com o desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói em homenagem a Lula? Achei aquela crítica aos conservadores de um extremo mau gosto e muito infeliz. Será que ninguém do Palácio do Planalto viu que isso é um tiro no pé? É um desrespeito aos evangélicos e um desrespeito total para todos. Não sei como é que deixaram aquilo acontecer. Usou a música do Lula. Isso é campanha antecipada. O rigor com o presidente Bolsonaro foi diferente. Espero que o TSE realmente olhe isso de maneira imparcial, porque com certeza o desfile, além de ser de mau gosto, foi uma propaganda antecipada.

O que a senhora acha do fim da jornada 6 x 1, que vem sendo defendida pelo governo? Esse tema precisa ser mais estudado. Acabar com a escala 6 x 1 limita determinados setores. Você pode fazer uma modulação. É claro que as pessoas que ganham menos são as que trabalham na escala 6 x 1, mas nós temos que ver os impactos econômicos que isso trará ao Brasil. Às vezes achamos que estamos fazendo um bem para a população, mas os resultados podem não ser os esperados. O bem-estar é fundamental, mas nós temos que debater isso com profundidade para que a gente não faça uma lei que, em vez de ajudar, prejudique o trabalhador.

Defende algum tipo de pauta específica para as mulheres em um eventual programa de governo de um candidato conservador? As mulheres podem estar onde quiserem. Temos mulheres qualificadas. Ao contrário de outros países, no Brasil nós temos voz. Mas temos que trabalhar muito o combate à violência contra a mulher. E não é só a violência, é no trabalho. Ela ainda não recebe o salário igual se ela faz a mesma coisa. Na política, é o mesmo. Não apareceu nenhuma candidata a presidente da República. A gente precisa de um programa para dar condições às mulheres que queiram ser empreendedoras. Precisamos ter creche para que as mulheres possam trabalhar.

Já foi discriminada no Senado por ser mulher? Um pouco. Sempre tive profissão muito ligada ao mundo masculino. Sou engenheira agrônoma. Quando fui trabalhar na fazenda, com a botina no pé, na lama, tive que lidar com homens do campo e nunca tive problema, porque eu sempre impus respeito e eles me respeitaram. Agora, a política é o mundo mais machista que eu já vivi. Às vezes você fala e o homem não deixa você falar. Então você tem que dizer: “Está na minha vez de falar, já te ouvi, você vai ter que me ouvir”. Nossa cultura é machista, mas as mulheres vão dar a volta por cima e, em breve, vamos ver muitas mulheres aqui no Congresso.

A senhora foi relatora do acordo comercial Mercosul-União Europeia no Senado. Quais os primeiros impactos que prevê após o tratado entrar em vigor? Segundo os cálculos, no primeiro ano de vigência teremos um aumento no PIB de 560 milhões de reais, depois 1 bilhão de reais, depois 3 bilhões de reais. Nossas empresas já vão participar neste ano, por exemplo, de licitações do setor financeiro. O Brasil é muito avançado mesmo nas ferramentas digitais de bancos. Vamos poder exportar essa nossa tecnologia. Também haverá impactos para o cidadão. Em relação a preços, talvez não num primeiro momento. Mas haverá mercadorias novas vindo, novos produtos aos quais a gente não está acostumado. No início podem até ser mais caros, mas a nossa prateleira vai ficar mais diversificada.

Entrevista exclusiva Publicado em VEJA de 27 de março de 2026, edição nº 2988

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