Sedes dos bancos Master e BRB
Sedes dos bancos Master e BRB — Foto: Divulgação e Cristiano Mariz/Agência O Globo

Em janeiro de 2025, a sede do Banco de Brasília (BRB), estatal controlada pelo governo do Distrito Federal, passou a contar com uma sala na qual o seu então presidente, Paulo Henrique Costa, e um grupo restrito discutiam tecnicamente uma possível compra do Banco Master, de Daniel Vorcaro. Apelidado de “GT secreto” nos corredores do banco, o Grupo de Trabalho Vértice se debruçava sobre os aspectos técnicos da ideia de aquisição, que oficialmente mirava um salto na estratégia de nacionalização do BRB, reforçando a atuação em varejo, na estratégia digital e em alguns segmentos, como câmbio.

Já em fevereiro, BRB e Master fizeram uma sondagem preliminar com o Departamento de Supervisão Bancária (Desup), do Banco Central, que era comandado por Belline Santana e Paulo Sérgio Neves (ex-diretor de fiscalização do BC no período de maior expansão do Master), que hoje são alvos de processo administrativo e investigação de suspeita de relação indevida com Daniel Vorcaro, o dono do banco posteriormente liquidado. Ambos negam irregularidades.

Cercado de sigilo, o tema foi levado ao conselho do banco distrital na manhã de 28 de março, há um ano. A aprovação ocorreu por volta das 13h. A área técnica do BRB ainda não tinha começado a escrever o Fato Relevante quando o colunista do GLOBO Lauro Jardim publicou a notícia de que a operação seria anunciada oficialmente, agitando o mercado financeiro. A intenção inicial do BRB era de adquirir 49% das ações ordinárias do Banco Master.

Um ano depois, o BRB chega agora a um momento decisivo, tendo que apresentar ao Banco Central nesta semana uma saída para cobrir os prejuízos deixados com as transações com o Master. O montante necessário para provisionamento (reserva financeira) é de R$ 8,8 bilhões, de acordo com o o próprio banco. Mas o valor pode ser ainda maior.

Prioridade do BC

A partir do dia 28 de março de 2025, a negociação passaria a ser tratada formalmente pelo BC, que colocou o tema como prioritário por, entre outros motivos, as dificuldades financeiras pela qual passava o Master. A operação previa um pagamento superior a R$ 2 bilhões do BRB ao Master, valor próximo do capital social da instituição brasiliense.

A tentativa, já se sabe, terminou em fracasso. O BC negou a operação em setembro e a transação frustrada deixou uma sequência de problemas econômicos e políticos cuja extensão ainda é desconhecida. A liquidação do Master em novembro foi seguida das revelações sobre uma série de indícios de fraudes, entre eles, em parte das operações de venda de carteira de crédito do banco de Daniel Vorcaro para o BRB.

A instituição do Distrito Federal passou a enfrentar uma sucessão de crises de liquidez e desenquadramento de regras prudenciais e hoje batalha para conseguir um aporte de capital do seu controlador: o governo do Distrito Federal (DF). A atuação do governador Ibaneis Rocha também é cercada de questionamento. Ele deixou o cargo no mesmo dia em o início oficial do processo completava um ano, no sábado.

Relação começa em 2024

A relação entre BRB e Master começou em 2024, com compras de carteiras de crédito que ajudou nos problemas de liquidez que o banco de Vorcaro enfrentava e se agravaram naquele ano. A justificativa oficial para as aquisições era que se tratavam de oportunidades de negócios, mas não está claro como o dono do Master se aproximou do banco brasiliense. Até hoje, em suas conversas reservadas, o ex-presidente do BRB garante que as compras de carteiras são lucrativas para o banco.

Já em 2025, enquanto negociava a compra do banco de Vorcaro, o BRB adquiriu do Master R$ 12,1 bilhões em carteiras com indícios de fraudes, originadas por uma empresa obscura e na qual as investigações enxergam indícios de ser de fachada, a Tirreno. Descobertos os indícios de irregularidades, o BRB tentou substituí-las, recebendo R$ 10 bilhões em outros ativos – que em parte também tiveram problemas detectados, ampliando o tamanho do buraco a ser coberto.

Um “erro” dessa magnitude poderia ter sido suficiente para o encerramento das negociações entre as partes para a compra do Master. Mas não foi o que ocorreu. As duas instituições seguiram em tratativas, só que reduzindo o “perímetro” da operação, uma expressão curiosa para dizer que o BRB negociava a compra de uma fatia menor do que a originalmente proposta.

Comunicações ao MPF

Paralelamente, a descoberta da carteira com problemas fez a diretoria de Organização do Sistema Financeiro (Diorf) do BC, área responsável por conduzir o assunto, tratar o caso ainda com mais cuidado e crescente desconfiança. Também começaram as comunicações do BC ao Ministério Público (MP) e Polícia Federal (PF), que culminaram em operação que levou Vorcaro à prisão e a uma descoberta de uma série de tentáculos obscuros, como a relação com uma estrutura enorme de fundos de investimentos que estranhamente também compraram participação no BRB em 2024 e 2025.

Documentos que vieram à público recentemente confirmam que já nas primeiras semanas do ingresso do pedido de autorização para a compra, a Diorf já demonstrava inquietação e desconforto com a operação. Foram vários requerimentos cobrando mais informações, o primeiro já no dia 11 de abril.

Outras demandas foram formuladas pelo regulador e sempre foram obtidas respostas parciais, “incluindo relevantes modificações na configuração original do pleito”.

“Os novos documentos também foram apresentados com inconsistências de dados, problemas nas projeções e incongruências em relação a valores que seriam mantidos ou excluídos da transação, além da ausência de informações e de elementos mínimos indispensáveis ao prosseguimento do exame. A título de exemplo, destaca-se que, não obstante solicitação do Banco Central, não foi encaminhado o relatório conclusivo da due diligence (diligência prévia), mas apenas um documento preliminar, ainda na forma de minuta”, relatou o BC ao Tribunal de Contas da União (TCU).

Análise do TCU

Diversas reuniões foram feitas envolvendo os dois bancos e o regulador. Do lado do Master, a representação era sempre feita por Daniel Vorcaro, prometendo, e frequentemente não cumprindo, que iria resolver problema. No BRB, embora outros integrantes se envolvessem além de Paulo Henrique Costa, documentos do BC indicam que eles nunca conseguiram comprovar à autoridade o cumprimento dos requisitos de viabilidade econômica do negócio.

Em seu relatório da inspeção feita no Banco Central, a área técnica do Tribunal de Contas da União referendou a leitura de que algo estava errado com o processo e de que havia um clima de “a garantia sou eu” na postura dos bancos com a autoridade monetária.

“A análise do indeferimento da operação entre o BRB e o Banco Master evidenciou graves irregularidades, como a negociação de ativos bilionários sem comprovação de sua existência, ausência de análise detalhada (due diligence), projeções financeiras com erros primários e exposição a riscos elevados sem estratégias adequadas de mitigação”, diz o documento técnico do TCU. “Os gestores do BRB demonstraram falta de diligência e possível gestão temerária ao prosseguir com as negociações, mesmo diante de indícios de fraudes e reiterados pedidos de esclarecimentos do Banco Central”.

Os técnicos da Corte também jogaram duro com o governo do DF. Mencionam, inclusive, a tentativa de acionar o TCU como instância recursal ao BC para reverter o veto à operação, desconsiderando as deficiências apontadas pelo órgão regulador. “Tais condutas sugerem possível violação aos princípios constitucionais que regem a administração pública, como legalidade, moralidade, eficiência e economicidade”, diz o relatório.

Saída para cobrir rombo

Agora, o BRB busca uma saída para cobrir o rombo deixado com as transações. Na semana passada, um relutante Ibaneis deu início a um processo de negociação com o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para um empréstimo de R$ 4 bilhões, conforme antecipado pelo GLOBO, para aportar capital no BRB. Mas deixou para sua sucessora, Celina Leão (PP), uma aliada da cúpula do Centrão, a tarefa de concluir o processo.

Pelas regras do BC, o banco precisa entregar até 31 de março, junto com o balanço de 2025, uma saída concreta para os problemas gerados pelas perdas prováveis com os ativos do Master. Esse prazo tem chance de ser adiado, mas, se não o for, o BRB deve ser alvo de sanções e reforçar o quadro de insegurança que envolve a instituição, que tem milhares de servidores públicos entre seus correntistas e cerca de R$ 30 bilhões em depósitos judiciais sob gestão.

Apesar do esperneio de muitos e das dúvidas sobre as motivações reais para isso, a derrubada do sigilo da inspeção do TCU no caso ajudou a trazer luz para esse capítulo obscuro do sistema financeiro e das suas conexões políticas. Mas ainda há muito a se explicar sobre essa história e muitas responsabilidades ainda não estão claras, especialmente as políticas.

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