Caminhoneira há 30 anos diz que mulher ‘ainda é presa fácil’ na estrada
Avó de 4, a paulista Roselene Aparecida prefere não ser identificada como mulher na estrada - Divulgação
por Folha de S.Paulo
Roselene Aparecida, 62, dirige toda semana para a Baixada Santista (SP). De vidros fechados e com escolta atrás, ela prefere não ser vista no volante da carreta de 22 metros.
Motorista desde os 32 anos, a paulista que também dirige moto, caminhão e ônibus ainda carrega o receio de ser mulher à frente de uma atividade predominantemente masculina no país.
“Eu me reservo porque mulher é presa fácil”, diz a motorista da empresa de logística JSL.
A bordo de uma carreta prancha, ela transporta diariamente máquinas agrícolas em estradas como a via Anchieta, que requer habilidade para suas curvas perigosas na Serra do Mar. Roda todos os dias pelo menos 460 km.
“Pernoitei várias vezes em postos [de gasolina] com caminhão. Chego cedo, analiso quem está perto, tomo meu banho, faço janta e fico ali dentro sem que alguém perceba que é uma mulher dirigindo.”
Natural de São José do Rio Preto, a 440 km de São Paulo, Roselene conta que sempre foi apaixonada pela direção. Aos 12 anos, deu sua primeira volta no quarteirão a bordo do Fusca do tio, escondida.
Trabalhou na roça, foi doméstica e faxineira. Mas foi só em 1996 que o sonho se realizou, com o emprego de motorista de caminhão na Braspress. “Não tinha mulher. Entrei na briga.”
Mãe de duas crianças, a caminhoneira ainda ajudava a carregar e descarregar cargas, como de praxe na profissão. Anos depois, Roselene foi dirigir ônibus coletivo —e ainda os chamados “duplo decks”, de dois andares— na cidade de Jundiaí (SP).
“Daí me separei, meu nome sujou, fui demitida. Minha vida virou de ponta cabeça”, lembra ela, que precisou aumentar a jornada de trabalho para pagar as contas como mãe solo. “Foi um sufoco.”

Daquela época, ela lembra-se de passageiros que se recusavam a entrar no ônibus quando viam que a motorista era mulher. “Eu tirava de boa. Falava para a pessoa aguardar o próximo para embarcar então, dali a 3 ou 4 horas.”
Apesar dos esforços, a motorista diz ainda lidar com comentários misóginos. “O preconceito infelizmente existe, e nas empresas não é diferente. Mas ele vem da minoria. A maioria apoia, orienta, ensina.”
Em 2021, ela viu o anúncio do programa Mulheres na Direção, iniciativa da JSL para formar e contratar profissionais para cargos como motorista de empilhadeira e de carreta —modelo que ela nunca tinha se aventurado, apesar da habilitação na categoria E, que a autoriza a dirigi-lo.
Roselene foi uma das 12 selecionadas entre as 600 inscritas no programa que teve 17 edições pelo país. “Adivinha quem era a candidata mais velha?”, lembra ela.
Foram três meses de aulas em mecânica, borracharia, elétrica, direção defensiva, direção econômica, logística, legislação de trânsito, entre outras. E, depois, veio a contratação para a operação da companhia em Piracicaba, no interior de São Paulo.
“Fizemos uma análise em cada cargo e detectamos somente 4% de mulheres nas funções operacionais da companhia, sendo apenas 1,5% mulheres motoristas”, afirma Bianca Furlan, gerente de Desenvolvimento Humano e Organizacional da JSL.
“Então o programa veio não só para ofertar emprego, mas para desenvolver uma nova carreira e captar talentos em uma mão de obra que está escassa”, completa ela.
Reportagem da Folha mostrou que, na última década, o número de pessoas autorizadas a dirigir um caminhão caiu 62,9% no país, segundo o Senatran (Secretaria Nacional de Trânsito). Condutoras de veículos pesados, como caminhões e carretas, representariam 3,4% da categoria, de acordo com dados de 2022.

Pouco mais de 50% das 300 mulheres formadas pela JSL (sendo 145 mulheres com filhos) seguem na empresa, em diversos cargos, com “turn over” 10% menor do que aquele registrado entre homens ali. Os salários iniciais variam de R$ 2.000 a R$ 4.000.
No período, não houve nenhum registro de acidente fatal entre as caminhoneiras, diz a companhia.
“Na estrada e em qualquer outro lugar, a gente tem que ganhar espaço aos poucos. Não é no grito, isso não resolve”, diz Roselene após 30 anos de estrada.
Avó de 4 netos, ela se emociona ao pensar em uma possível aposentadoria. “Eu tô sozinha em Piracicaba e minha família toda fica em Rio Preto. Sei que está chegando o momento de ir embora. Amo o que faço, mas quero viver um pouquinho mais com eles.”