Trump cancela viagem de comitiva para negociações com Irã, que apresenta exigências e se retira do Paquistão
O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, se encontra com o primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, em Islamabad - Gabinete do Primeiro-Ministro do Paquistão via Reuters
por Folha de S.Paulo
O presidente Donald Trump anunciou na tarde de sábado (25) o cancelamento da viagem da missão diplomática dos EUA que negociaria o fim da guerra com o Irã em encontro no Paquistão. O grupo seria liderado pelo enviado especial ao Oriente Médio, Steve Witkoff, e seu genro Jared Kushner.
“Muito tempo perdido viajando, muito trabalho! Além disso, há uma tremenda disputa interna e confusão dentro da ‘liderança’ deles. Ninguém sabe quem está no comando, incluindo eles mesmos. Além disso, nós temos todas as cartas, eles não têm nenhuma! Se quiserem conversar, basta ligar!!!”, escreveu Trump em rede social.
Mais cedo no sábado, o chanceler iraniano Abbas Araqchi apresentou as exigências do Irã e suas ressalvas sobre as posições dos EUA ao Paquistão, que sedia o esforço para encerrar a guerra que já matou milhares de pessoas e abalou os mercados globais.
Araqchi se reuniu com o primeiro-ministro paquistanês Shehbaz Sharif e outras autoridades de alto escalão em Islamabad. Não foram dados detalhes dos termos exigidos pelo Irã.
Segundo a mídia iraniana, ele deixou o Paquistão ainda no sábado, antes de Trump anunciar que a comitiva de Washington estava cancelada. A agência Mehr afirmou, horas depois, que Araqchi deve retornar ao país mediador após concluir uma viagem a Omã, antes de seguir para a Rússia.
Washington e Teerã estão em um impasse, já que o Irã fechou em grande parte o estreito de Hormuz, que normalmente transporta um quinto das remessas globais de petróleo, enquanto os EUA bloqueiam as exportações de petróleo do país persa.
O conflito está entrando em sua nona semana, com um cessar-fogo que foi estendido por Trump na última semana. A guerra elevou os preços da energia a níveis recordes em anos, alimentando a inflação e diminuindo as perspectivas de crescimento global.
Araqchi “explicou as posições de princípio do nosso país em relação aos últimos desenvolvimentos relacionados ao cessar-fogo e ao fim completo da guerra imposta contra o Irã”, disse um comunicado na conta oficial do ministro no Telegram.
Questionada sobre as ressalvas de Teerã em relação às posições dos EUA nas negociações, uma fonte diplomática iraniana em Islamabad afirmou à agência Reuters que o lado iraniano não aceitará o que chamou de “exigências maximalistas”.
O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, havia dito anteriormente a repórteres que o Irã tinha a chance de fazer um “bom acordo”.
“O Irã sabe que ainda tem uma janela aberta para escolher sabiamente”, disse ele. “Tudo o que precisam fazer é abandonar a arma nuclear de maneiras significativas e verificáveis.”
Trump disse à Reuters na sexta-feira (24) que o Irã planejava fazer uma oferta destinada a satisfazer as exigências dos EUA, mas que ele não sabia qual seria. Ele se recusou a dizer com quem Washington estava negociando. “Mas estamos lidando com as pessoas que estão no comando agora”, afirmou.
Até o começo da tarde de sábado, o governo dos EUA afirmava que enviaria a comitiva a Islamabad.
Os voos internacionais foram retomados do Aeroporto Internacional Imam Khomeini, de Teerã, no sábado, disse a mídia iraniana. Os primeiros passageiros partiram para Medina (Arábia Saudita), Mascate (Omã) e Istambul (Turquia). Há previsão de que a operação cresça nos próximos dias.
O espaço aéreo iraniano está em grande parte fechado desde o início da guerra. Dezenas de milhares de voos foram cancelados em todo o mundo, fechando grande parte do espaço aéreo do Oriente Médio devido a ameaças de mísseis e drones.
Trump estendeu unilateralmente um cessar-fogo de duas semanas na terça-feira (21) para dar mais tempo para reconvocar os negociadores.
Os preços do petróleo dispararam esta semana, com os futuros do Brent subindo 16%, devido à incerteza sobre o destino das negociações de paz e ao aumento da violência na região.
Dados de navegação de sexta-feira mostraram que cinco navios cruzaram o estreito de Hormuz nas 24 horas anteriores, em comparação com cerca de 130 por dia antes da guerra lançada pelos EUA e Israel em 28 de fevereiro. Os navios incluíam um petroleiro iraniano de produtos petrolíferos, mas nenhum dos vastos superpetroleiros que normalmente abastecem os mercados globais de energia.
A empresa de análise de dados Vortexa disse esta semana que registrou 35 trânsitos totais através do bloqueio dos EUA de 13 a 22 de abril, envolvendo embarcações ligadas ao Irã ou sancionadas para viagens de entrada e saída.
“O inimigo, cujo objetivo de paralisar as capacidades militares e de mísseis do Irã fracassou, agora busca uma saída honrosa do atoleiro da guerra”, disse a mídia iraniana citando um porta-voz do ministério da Defesa. “O Irã está hoje em firme controle do estreito de Hormuz.”
Na quinta-feira (23), Israel e Líbano estenderam seu cessar-fogo por três semanas em uma reunião na Casa Branca mediada por Trump, mas havia poucos sinais de fim dos combates no sul do Líbano.
Israel invadiu seu vizinho do norte no mês passado para eliminar os aliados do Hezbollah do Irã depois que o grupo terrorista disparou através da fronteira. Teerã diz que um cessar-fogo na região é uma pré-condição para as negociações.
Quatro pessoas foram mortas em ataques israelenses no sul do Líbano no sábado, segundo a agência de notícias estatal do Líbano. O exército de Israel disse ter matado seis membros armados do Hezbollah no sul do Líbano na sexta-feira.
O exército israelense reiterou um alerta no sábado para que a população libanesa não se aproxime da região do rio Litani, no sul do Líbano, em razão de combates com o Hezbollah, e disse ter atacado lançadores de foguetes carregados pertencentes ao grupo em três locais durante a noite.