No Congresso dos EUA, rei Charles discursa sobre incertezas com guerras e cita ataque a Trump
O rei Charles 3º durante discurso no Congresso com o vice-presidente e presidente do Senado, J. D. Vance, e o presidente da Câmara dos Representantes, Mike Johnson - Matt McClain/Reuters
por Folha de S.Paulo
Segundo monarca britânico a discursar no Congresso dos Estados Unidos, o rei Charles 3º afirmou na terça-feira (28) que o mundo vive “momentos de incerteza” no contexto das guerras no Irã e na Ucrânia e da tentativa de ataque contra Donald Trump ocorrida no último sábado (25), em Washington.
O rei também afirmou que a aliança entre EUA e Reino Unido é “insubstituível e inquebrável”.
“Nos encontramos em um momento de grande incerteza, em um momento de conflito da Europa ao Oriente Médio que impõe desafios imensos à comunidade internacional. O impacto é sentido nas comunidades dos nossos próprios países”, afirmou o monarca, aplaudido a cada trecho do discurso. Antes dele, sua mãe, a rainha Elizabeth 2ª, havia discursado diante do Congresso americano em 1991.
O rei Charles ainda mencionou que a sua visita aos EUA ocorre poucos dias após a tentativa de ataque durante o jantar de correspondentes da Casa Branca, no último sábado.
“Tais atos de violência nunca terão sucesso”, afirmou ele, num tom pacificador. “Quaisquer que sejam nossas diferenças, quaisquer que sejam os desacordos que possamos ter, estamos unidos no nosso compromisso de defender a democracia, proteger todos os nossos povos e saudar a coragem daqueles que diariamente arriscam suas vidas no serviço de nossos países.”
Charles também citou a rainha Elizabeth 2ª e afirmou que, ao discursar no Congresso americano, não conseguia deixar de pensar na “falecida mãe”, que “também recebeu esta distinta honra e igualmente falou sob o olhar vigilante da Estátua da Liberdade”.
O monarca afirmou que, diferentemente de 1991, hoje o mundo se encontra em uma nova era, “mais volátil e mais perigosa”.
Ainda no Congresso, o rei Charles 3º reforçou a importância da aliança entre Reino Unido e EUA como um pilar da segurança do Ocidente. Ele lembrou a resposta conjunta aos atentados do 11 de Setembro como símbolo de uma cooperação que atravessa mais de um século de guerras e crises internacionais.
O monarca afirmou que a mesma coesão é hoje necessária diante da Guerra da Ucrânia e defendeu o papel da Otan, a aliança militar ocidental liderada pelos EUA, na busca por uma paz “justa e duradoura”.
A fala chamou a atenção devido às tensões políticas na Otan agravadas por críticas recorrentes do presidente Donald Trump ao nível de contribuição dos aliados europeus, o que reacende dúvidas sobre o futuro da organização.
Além de deputados e senadores republicanos e democratas, também estava presente durante o discurso o vice-presidente dos EUA, J. D. Vance, que preside o Senado.
Após o encontro, a Casa Branca compartilhou uma imagem de Trump ao lado de Charles acompanhada da legenda “Dois reis”. A publicação ocorreu dias após manifestantes irem às ruas em protestos contra o republicano como parte do movimento “No kings” (Sem reis).
Mais cedo, durante um evento na Casa Branca com a presença do monarca, Trump disse que sua mãe, nascida na Escócia, amava a família real e tinha um “crush” em Charles. “Me pergunto o que ela está pensando agora”, disse o líder republicano, que é um autoproclamado fã da família real britânica.
Ele ainda prestou homenagem à história dos países —a viagem do monarca faz parte das comemorações dos 250 anos da independência dos EUA. “Antes mesmo de proclamarmos nossa independência, os americanos carregavam dentro de si o mais raro dos dons —a coragem moral— e ela veio de um pequeno, porém poderoso, reino do outro lado do mar”, disse Trump, em referência ao Reino Unido.
Também disse que “os americanos não tiveram amigos mais próximos do que os britânicos”, elogiou Charles e a relação entre as duas nações e disse acreditar que o “laço precioso” entre ambos continuaria. O presidente ainda afirmou que os EUA e o Reino Unido são as duas nações “mais excepcionais que o mundo já conheceu”.
Aos repórteres presentes no local, o presidente afirmou que o encontro foi muito bom. “Ele é uma pessoa fantástica, eles [Charles e a rainha consorte, Camilla] são pessoas incríveis e foi realmente uma honra.”
Apesar dos discursos amistosos, o momento atual é marcado por tensão entre EUA e Reino Unido no contexto da guerra do Irã. O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, recusou ajudar os EUA durante o conflito e foi alvo de duras críticas feitas por Trump.
Além disso, o caso de Jeffrey Epstein também é um ponto incômodo uma vez que o ex-príncipe Andrew, irmão de Charles, perdeu o título de monarca após envolvimento no escândalo sexual ligado ao financista, acusado de exploração sexual.
As tensões são diferentes da época do discurso da rainha Elizabeth 2ª no anos 1990. Na ocasião, os EUA eram governados pelo presidente George Bush, e a fala da rainha, que morreu em 2022, enalteceu o momento que os países viviam após a guerra do Golfo com EUA e Reino Unido lado a lado —o conflito começou em 1990 e encerrou no início do ano seguinte.
No discurso de mais de 30 anos atrás, ela elogiou a “coragem e habilidade” das Forças Armadas dos Estados Unidos e do Reino Unido, destacando o sucesso de seus esforços militares conjuntos.
Depois do discurso no Congresso, o rei, acompanhado da rainha consorte Camilla, retornaram à Casa Branca para um jantar.
Após a visita a Washington, os membros da realeza viajarão então para Nova York, onde devem homenagear os mortos nos ataques de 11 de setembro de 2001, antes do 25º aniversário da data, enquanto a rainha consorte Camilla também marcará o centenário das histórias infantis do Ursinho Pooh.
A viagem termina na Virgínia, onde o rei deve encontrar pessoas envolvidas em trabalhos de conservação ambiental, uma referência à sua campanha ambiental de décadas.