Israel captura 4 brasileiros em flotilha humanitária para Gaza, diz organização

0
image (10)

O ativista brasileiro Thiago Ávila ao desembarcar no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, após ser deportado de Israel em 2025

por Folha de S.Paulo

Quatro brasileiros participantes de uma nova flotilha que pretendia levar ajuda humanitária à Faixa de Gaza foram capturados por forças de Israel, segundo os organizadores da iniciativa. O grupo teria sido interceptado na quarta-feira (29) em águas internacionais, nas proximidades da ilha de Creta, na Grécia. No total, 175 pessoas, de várias nacionalidades, foram detidas, informou Tel Aviv.

Entre os detidos está o ativista Thiago Ávila, que já foi preso por militares israelenses em outras duas iniciativas semelhantes. Em uma das ocasiões, familiares denunciaram maus-tratos e afirmaram que o brasileiro recebeu ameaças e foi colocado em uma solitária. Na missão mais recente, ele integrava o comitê diretor internacional da flotilha, ainda de acordo com a organização.

Além de Ávila, os outros brasileiros detidos por Israel são Amanda Coelho Marzall, Leandro Lanfredi de Andrade e Thainara Rogério. Todos participavam da missão da Global Sumud Flotilla, que havia partido de Catânia, na Itália, no último domingo (26), com destino ao território palestino.

Amanda Marzall, também conhecida como Mandi Coelho, é militante do PSTU e pré-candidata a deputada federal por São Paulo. Leandro Lanfredi é petroleiro da Transpetro, diretor do Sindipetro-RJ e da Federação Nacional dos Petroleiros. Já Thainara Rogério possui dupla nacionalidade brasileira e espanhola e estava em um barco com delegação catalã.

O Ministério das Relações Exteriores de Israel divulgou nota, na quinta (30), em que chama os ativistas de “provocadores profissionais”. Também diz que suas forças agiram dentro da lei. “Devido ao grande número de embarcações participantes e ao risco de escalada do conflito, bem como à necessidade de evitar o descumprimento de um bloqueio legal, uma ação imediata se fez necessária em conformidade com o direito internacional”, diz o comunicado publicado no X.

O premiê israelense Binyamin Netanyahu, por sua vez, escreveu nas redes sociais que a flotilha é composta por apoiadores do grupo terrorista Hamas. “Nenhum navio e nenhum apoiador do Hamas alcançou nosso território nem mesmo nossas águas territoriais. Eles foram repelidos. Continuarão a ver Gaza no YouTube.”

Os organizadores receberam informação de que Israel transportava os brasileiros em um navio da Marinha israelense para o porto de Ashdod, no sul de Israel. Não há informações atualizadas sobre o paradeiro nem o estado de saúde deles. Já o governo israelense diz que eles serão levados à Grécia.

Ainda segundo a Global Sumud Flotilla, a prisão é ilegal e representa um agravamento “perigoso e sem precedentes” nas ações de Israel para além de suas fronteiras. Segundo a organização, as interceptações ocorreram em águas internacionais, o que, em sua avaliação, viola normas do direito internacional.

Os responsáveis pela flotilha também afirmam que houve uso de força durante a abordagem. Mencionam ainda danos a embarcações e bloqueio deliberado de sistemas de comunicação. Em um dos episódios descritos, participantes teriam sido detidos enquanto outros ativistas permaneceram em barcos avariados e sem energia apesar da aproximação de uma tempestade.

“Como parte da sua agressão, a Marinha israelense interceptou veleiros, bloqueou as comunicações, incluindo canais de socorro, e sequestrou civis agressivamente. Estas não são áreas fronteiriças contestadas, estamos falando de águas internacionais”, diz trecho de nota divulgada pela organização.

Outros brasileiros participam da ação, mas não foram capturados. Lisi Proença, coordenadora da Global Sumud Brasil, desembarcou na Sicília para atuar na equipe de apoio em terra. Ariadne Teles, também coordenadora da organização no Brasil, não embarcou na saída da flotilha da Itália pelo mesmo motivo.

Já Beatriz Moreira de Oliveira, integrante do Movimento dos Atingidos por Barragens, permanece a bordo de uma embarcação que conseguiu evitar a interceptação e entrou em águas territoriais gregas.

Segundo a organização, 22 barcos da flotilha tinham sido interceptados, e outros 33 continuavam em águas gregas antes de partirem em direção a Gaza. Mais de 180 ativistas participavam da iniciativa.

Ainda segundo os organizadores, uma eventual ação militar na região poderia gerar um incidente diplomático com o governo grego, conforme as normas do direito internacional.

A ação israelense, inclusive, já provocou reações de líderes europeus. A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, condenou a interceptação e exigiu a libertação imediata de cidadãos italianos, que ela considera “detidos ilegalmente”.

O premiê da Espanha, Pedro Sánchez, afirmou que a ação israelense foi ilegal. “Israel está mais uma vez violando o direito internacional ao atacar uma flotilha civil em águas que não lhe pertencem”, escreveu no X, instando a UE a congelar imediatamente as relações bilaterais e a exigir o respeito ao direito marítimo.

Em paralelo, os ministérios das Relações Exteriores da Alemanha e da Itália divulgaram uma nota conjunta afirmando acompanhar os desdobramentos do caso com preocupação. O texto, que não menciona Israel diretamente, pede “pleno respeito ao direito internacional” e o fim de “ações irresponsáveis”.

Em Roma, a capital italiana, dezenas de manifestantes protestaram em frente ao Coliseu, com bandeiras palestinas, em apoio à flotilha e contra as detenções feitas por Israel.

About Author

Compartilhar

Deixe um comentário...