China vê EUA enfraquecidos após redução de arsenal americano na guerra do Irã
Destróier da Marinha americana, em local não informado, dispara míssil contra alvo no Irã - Comando Central dos EUA - 28.fev.26/via AFP
A guerra no Irã drenou de forma tão severa o poder de fogo americano que analistas chineses estão questionando a capacidade dos Estados Unidos de defender Taiwan. Essa mudança de cálculo ameaça enfraquecer a posição de negociação do presidente Donald Trump em sua cúpula de alto risco na próxima semana com o líder da China, Xi Jinping.
Desde que a guerra começou, no final de fevereiro, os EUA consumiram cerca da metade de seus mísseis de cruzeiro furtivos de longo alcance e dispararam aproximadamente dez vezes o número de mísseis de cruzeiro Tomahawk que compram por ano, de acordo com estimativas do Departamento de Defesa e com autoridades do Congresso.
Para analistas militares e geopolíticos chineses, a guerra fez mais do que esgotar os estoques de munições dos EUA. Eles argumentam que também expôs uma grande falha na estratégia de Washington: sua incapacidade de fabricar armas de forma rápida o suficiente para repor seu arsenal em um conflito intenso e prolongado.
Esse esgotamento “diminuiu de forma significativa a capacidade militar dos EUA de projetar seu poder de combate, expondo as deficiências de sua hegemonia militar global”, disse Yue Gang, coronel aposentado do Exército de Libertação Popular, como são chamadas as Forças Armadas chinesas.
Tais argumentos ajudam a alimentar uma narrativa entre analistas chineses linha-dura, e potencialmente no regime, de que as forças americanas não poderiam mais defender Taiwan de forma eficaz caso os EUA e a China entrassem em guerra pela ilha.
A lógica dos nacionalistas chineses é que, se os EUA não conseguiram alcançar uma vitória rápida contra o Irã, uma potência militar regional, então provavelmente teriam ainda menos sucesso contra a China, que eles veem como um competidor do mesmo nível.
Dessa perspectiva, o impasse dos EUA com o Irã enfraquece a posição de Trump nas negociações com Xi marcadas para a semana que vem. “Trump originalmente pretendia visitar a China com ares de vencedor, aproveitando sua posição para aumentar a pressão sobre a China”, disse Yue. “Agora, porém, com o conflito em impasse, e a campanha militar paralisada, ele se encontra em uma posição difícil.”
Trump, acrescentou ele, “não conseguirá projetar a mesma arrogância”.
Espera-se que Trump busque acordos com Xi para ajudar a diminuir o déficit comercial dos EUA com a China. Isso pode incluir compromissos de Pequim para comprar mais soja americana e aviões da Boeing.
Trump também pressionará Xi sobre as compras contínuas de petróleo iraniano pela China, disse Jamieson Greer, representante comercial dos EUA, à Bloomberg TV na última quarta-feira (6).
A China, por sua vez, quer estabilizar as relações com o governo Trump e estender a trégua comercial para se concentrar em revitalizar sua economia e desenvolver suas próprias tecnologias.
Pequim também quer que o governo Trump reduza seu apoio a Taiwan. Xi alertou o presidente americano, em fevereiro, que a China “nunca permitirá que Taiwan seja separada da China”, ao instá-lo a lidar com as vendas de armas americanas para a ilha com prudência.
Desde então, o governo Trump vem adiando o anúncio de um novo pacote de vendas de armamentos para Taiwan com o objetivo de evitar irritar Xi.
O principal diplomata da China, Wang Yi, sugeriu que a China pode buscar algum tipo de avanço. Em uma ligação no mês passado com o secretário de Estado americano, Marco Rubio, Wang pediu que China e EUA “abram um novo espaço” na questão de Taiwan, embora não tenha entrado em detalhes.
Antes da cúpula, os dois países tentam manter calma, ainda que ela seja desconfortável. A China tem pisado em uma linha cuidadosa ao discutir a guerra EUA-Israel contra o Irã, conflito que se opôs. O mais perto que Xi chegou de criticar Trump, sem nomeá-lo, foi denunciar o desrespeito ao direito internacional como um “retorno à lei da selva”.
O esforço para manter as boas relações, por enquanto, pode explicar por que os veículos de notícias estatais chineses têm sido cautelosos em seus comentários sobre as vulnerabilidades militares dos EUA como resultado da guerra no Irã.
Reportagens e comentários mencionam o esgotamento de mísseis e a realocação de recursos americanos, mas geralmente param antes de enquadrar a guerra como estrategicamente benéfica para a China, disse Manoj Kewalramani, chefe de estudos do Indo-Pacífico na Instituição Takshashila em Bangalore, na Índia, que monitora a mídia chinesa.
Uma exceção notável foi um ensaio na Qiushi, a principal revista teórica do Partido Comunista, que argumentou que “o conflito sobrecarregou os recursos estratégicos dos EUA, potencialmente deixando o país em uma posição precária”.
Outra foi um editorial do Global Times, um jornal nacionalista controlado pelo Partido Comunista, dizendo que, se os militares americanos não conseguissem implantar armas ao redor do mundo, seriam um “gigante manco”.
Mas os militares da China também têm problemas. A Casa Branca e autoridades dos EUA rejeitam a noção de que as operações no Oriente Médio prejudicaram a postura de Washington na Ásia. O secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, disse que dissuadir a China “por meio da força” estava entre as quatro principais prioridades da pasta.
Questionado durante audiência no Senado, no mês passado, se os recursos sendo desviados para o Oriente Médio estavam enfraquecendo a prontidão militar dos EUA no Pacífico, o almirante Samuel J. Paparo Jr., chefe do Comando Indo-Pacífico das Forças Armadas, disse: “Não vejo nenhum custo real sendo imposto à nossa capacidade de dissuadir a China.”
É certo que abundam questões sobre a própria prontidão militar da China. Não apenas o Exército de Libertação Popular não foi testado em um combate importante por quase cinco décadas, como sua liderança foi abalada por expurgos políticos e por uma campanha de repressão à corrupção.
Em comparação, os militares americanos demonstraram sua potência ao matar os líderes do Irã, estabelecer controle dos céus sobre o país persa e enviar forças especiais ao território inimigo para resgatar um piloto cuja aeronave foi abatida.
Mesmo sem entrar em guerra, a China pode apontar para as complicações que o governo Trump está enfrentando e argumentar aos aliados dos EUA na Ásia que Washington não pode ser confiável como um garantidor de segurança.
“Quando aliados enfrentam incertezas sobre deslocamentos e equipamentos, isso inevitavelmente levanta questões sobre a confiabilidade e consistência das garantias de segurança dos EUA na região”, disse Wang Dong, diretor executivo do Instituto para Cooperação e Entendimento Global da Universidade de Pequim. Os EUA, acrescentou, “estão encontrando os limites de sua presença militar global”.
A China pode, em última análise, ser encorajada pela guerra no Irã a se tornar mais assertiva na Ásia usando táticas de zona cinzenta —movimentos agressivos que ficam aquém de incitar uma guerra total. Nos últimos meses, por exemplo, a China tem construído uma ilha em águas disputadas na costa do Vietnã que a ajudará a ganhar mais controle do Mar do Sul da China.
É improvável que a China acelere planos de invadir Taiwan, disse Brian Hart, pesquisador do Projeto China Power no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais. Qualquer plano desse tipo teria como base principalmente “fatores políticos”, como um movimento repentino do território insular para declarar independência formal, disse ele.