PCC se especializou na diplomacia, mas é um grupo ultraviolento, diz promotor de São Paulo

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Ônibus incendiado na estrada do Alvarenga, na zona sul de São Paulo, durante onda de ataques em 2006 - Apu Gomes - 15.mai.06/Folhapress

por Folha de S.Paulo

O Primeiro Comando da Capital (PCC) é uma facção que se especializou na diplomacia com outros grupos criminosos para expandir seus negócios, sobretudo no tráfico internacional de cocaína, avalia o promotor Juliano Atoji, do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) do Ministério Público de São Paulo.

Ele estima que ao menos dois terços do faturamento do grupo sejam provenientes das exportações da pasta-base da droga a destinos europeus, principalmente. É uma cifra bilionária, segundo ele, e que demanda cada vez mais mecanismos de lavagem de dinheiro para que os recursos sejam usufruídos por seus integrantes.

Fintechs, bets ilegais e criptomoeda são um prato cheio para isso por estarem em uma zona cinzenta, como classifica o promotor.

Embora episódios como os ataques de 2006, que chegam a 20 anos neste mês, não estejam mais na cartilha corrente da facção, isso não significa que a violência ficou para trás.

Atoji caracteriza o PCC como ultraviolento, sempre podendo acionar ameaças, intimidações armadas e execuções como meio para alcançar os fins desejados. Foi o que houve no assassinato do delator Vinícius Gritzbach, em 2024, e do delegado Ruy Ferraz, em 2025, ele relembra.

“É um combate contínuo, e, toda vez que se afrouxa um pouco esse combate, o PCC ganha espaço”, diz o promotor em entrevista concedida à Folha nesta semana na sede do Ministério Público paulista, no centro da capital.

Qual é a prioridade do PCC hoje?
Dois terços das atividades criminosas lucrativas do Primeiro Comando da Capital são do tráfico da cocaína para o exterior, tráfico da pasta-base. Tanto que abandonaram muito a questão do tráfico interno. Eles notoriamente migraram, de 2018 para cá, [para o setor] que é mais rentável. Muito dos custos eles assumem quando dá errado.

Ao contrário do Comando Vermelho e de outros grupos criminosos do Brasil, aqui o PCC se especializou nesse ato de diplomacia, nesse ato de convergir com outros grupos criminosos. O Comando Vermelho, não. Tem o domínio territorial, o primeiro investimento que eles vão fazer é a arma. O PCC virou quase um “hub”. Eles buscam parceiros e, digo mais, os parceiros também buscam o PCC, a exemplo do Vinícius Gritzbach [morto a tiros no aeroporto de Guarulhos em novembro de 2024].

O senhor falava de dois terços do orçamento. Quanto seria isso?
Dois terços a três quartos, assim a gente calcula. É uma cifra com certeza bilionária. Tem outras atividades envolvidas, mas o grosso hoje do PCC é o tráfico internacional pelo Porto de Santos [no litoral de São Paulo]. Por todos os portos do país, mas em especial a gente tem uma defasagem aqui de fiscalização no Porto de Santos.

Há algum tempo se fala que o PCC abandonou a violência como ferramenta. Mas nos últimos anos vimos casos emblemáticos, como o do Gritzbach e o do delegado Ruy Ferraz, assassinado a tiros. A lógica da facção se alterou?
Eles nunca abandonaram a violência e são um grupo ultraviolento. Nos ataques de 2006, agiram como um grupo terrorista, patrocinando a desordem. Mas viram que foi um prejuízo.

Os integrantes notaram que, na ausência de enfrentamento com o Estado, conseguiam estabelecer [maiores] lucros, crescer financeiramente. E obviamente eles nunca abandonaram a questão de ser um grupo violento.

Quando eles precisam usar da violência, eles demonstram essa força, como demonstraram no Gritzbach, que era um delator da facção, como demonstraram com o Ruy, que era um inimigo notório da facção, que era um sujeito que combateu e eles nunca esqueceram, como nunca esquecerão o Lincoln [Gakiya, promotor do Ministério Público paulista] também. O Lincoln precisa dessa proteção eterna, porque eles sabem quem da engrenagem do Estado combateu o crime organizado.

É intuitivo pensar que, embora ações como os ataques de 2006 não sirvam mais ao interesse deles, é uma violência que pode ser acionada caso isso mude. Faz sentido?
O PCC, como agente racional, calcula mais ou menos os ganhos e prejuízos de qualquer ataque violento. Eles sabem que o Estado brasileiro ainda se mantém forte com instituições que combatem o crime organizado, com troca, compartilhamento de informações entre os órgãos e várias operações recentes que enfraqueceram financeiramente e prenderam lideranças, contando obviamente com os serviços de inteligência.

O PCC, se ele visse fraqueza do Estado, como aconteceu em outros lugares, como o México, não tenha dúvida alguma que iria se valer de todo esse poderio de violência para dominar, para se tornar o que a gente chama de narcoestado.

Falamos que estamos enxugando o gelo, mas estamos evitando que a coisa degringole de vez, que suba até condições inaceitáveis. É um combate contínuo. Toda vez que se afrouxa um pouco esse combate, o PCC ganha espaço.

Com tanto dinheiro em mãos, os mecanismos de lavagem têm se diversificado. Por que eles têm buscado meios como bets ilegais e fintechs?
É atrativo pela opacidade. A partir do momento em que não há fiscalização por parte do Estado, fica uma zona cinzenta em que não há os mecanismos de controle, e o PCC se vale desse mercado.

Toda vez foi assim, com criptomoeda, com a fintech, com a questão das contas-bolsões. Também no mercado informal.

Na questão dos ônibus, eles se valiam da licitação lá no passado e aí não tinha fiscalização em relação à cartelização. Eles dominaram a questão das empresas de ônibus em São Paulo [objeto de investigação na operação Fim da Linha].

Sempre que há essa condição de não fiscalização de uma zona cinzenta, fica mais fácil lavar dinheiro.

De quais instrumentos os senhores dispõem para rastrear e entender o que está acontecendo nesses negócios opacos?
Por que os bancos não são um atrativo para lavagem de dinheiro? Porque eles comunicam, têm uma comunicação formal [com as autoridades]. Toda vez que entra um dinheiro, está lá o gerente digitando e reporta automaticamente ao Coaf [Conselho de Controle de Atividades Financeiras], ao órgão de controle.

Não tinha esse reporte por parte das fintechs. Então eles [PCC] viram aí um nicho poderoso, como nas criptomoedas. A não ser que seja operada pelas grandes corretoras, você tem pessoas que usam a cripto para ocultar o patrimônio.

As próprias bets foram regulamentadas agora, mas quanto dinheiro que já não entrou do crime organizado? Tem que ter um controle. Do contrário, você deixa ao deus-dará.

Recentemente operações apontaram o papel da corrupção policial na sustentação da facção. Qual é a importância desse problema na manutenção do poder do PCC e na ampliação dos lucros?
Tem um primeiro fator aí, que mais compromete o Estado, que é o compartilhamento de informações. Como você compartilha informações com agentes públicos notoriamente corruptos? Você não tem confiança.

O Estado acaba compartimentando as informações porque não se confia em determinado órgão. Você busca aliados, não busca órgãos de Estado. Mas é uma relação pessoal e não existe, infelizmente, essa relação de Estado, porque há desconfiança.

Corrupção policial é o grande gargalo, o grande calcanhar de aquiles de toda essa força conjunta do Estado.

Fora isso, como visto no caso Gritzbach, tem os policiais que migraram de lado, né? Eles estão lá para fazer segurança do faccionado. Ah, não sabia que o sujeito era faccionado? Os policiais civis que estavam envolvidos com o pessoal da zona leste lá, denunciado por nós na Operação Tacitus, todos tinham envolvimento com o Primeiro Comando. Ajudando a facção a se fortalecer, tendo informações privilegiadas.

Quantos policiais fazem escolta para carga, escolta para criminosos, protegem rede de informações de criminosos?

Enquanto a gente não tem um combate efetivo à corrupção —não só de policiais, de agentes públicos no geral, porque a gente tem outros setores do Estado comprometidos com a corrupção—, o combate se enfraquece.


Raio-X | Juliano Atoji, 43

São Paulo, 1983. Promotor de Justiça há dez anos, é integrante do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) do Ministério Público de São Paulo. Foi delegado da Polícia Civil de São Paulo de 2011 a 2016. É mestre em direito e professor de pós-graduação em processo penal.

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