Falcão lança disco ‘Sério’ e revela melancolia escondida pelo humor
O cantor Falcão, que lança o álbum 'Sério' - Tony Santos/Divulgação
por Folha de S.Paulo
O cantor e humorista Falcão passou décadas construindo um personagem associado à escrachada, ao deboche e às músicas de duplo sentido. No álbum “Sério”, porém, ele tenta deslocar essa imagem.
Com produção de Rick Bonadio e coprodução de Fagner, o disco reúne participações de Elba Ramalho, Chico César, Zeca Baleiro e Sérgio Britto e apresenta um repertório menos gozador, melancólico até, em certas passagens.
A ideia do projeto nasceu justamente da contradição. “A música está tanta esculhambação hoje em dia que a verdadeira esculhambação virou fazer um disco sério”, resume Rick Bonadio. “Eu pensei: o que eu posso propor para o Falcão que ele ainda não fez? E aí veio essa ideia.”
Falcão diz que topou imediatamente. “Achei o mote muito bom. Está tão ruim o negócio… por que não fazer uma coisa séria?”, afirma o cantor. Mas o próprio Falcão já avisa: “É sério se você comparar com o que eu já fiz. Eu sempre estava esculhambando na cena.”
Ao longo da audição do disco, realizada no estúdio Midas, em São Paulo, a palavra “sério” virou quase uma piada recorrente entre os convidados. Um dos jornalistas chegou a comparar o resultado aos discos antigos do cantor: “Perto dos outros, esse aqui parece Frank Sinatra”.
O próprio Falcão reconhece que o humor continua ali, ainda que menos explícito. “Para mim é um experimento. O que dá o Falcão cantando esse tipo de música?”, diz.
O disco alterna canções inéditas e releituras. Entre essas últimas está “Jumento Celestino”, música dos Mamonas Assassinas que Rick Bonadio escolheu, produtor histórico do grupo. Segundo Falcão, a faixa fazia sentido pela ligação cultural entre ele e Dinho.
“O Rick insistiu nessa música. Eu até preferia outra, mas ele disse: ‘Tem que ser essa’. E ele tinha razão. Tem a ver comigo ser nordestino, com o Dinho ser nordestino, com a história do jumento. Nós somos apaixonados pelo jumento. Tenho até o mesmo DNA do jumento”, brinca.
A conversa acabou entrando, então, no avanço das inteligências artificiais capazes de simular vozes de artistas mortos. Rick rejeita a ideia de reconstruir os Mamonas digitalmente. “Tudo que a inteligência artificial faz hoje é muito clichê, muito sem graça, muito óbvio”, afirma. “Quando pensei nessa música, pensei em tocar os instrumentos como os meninos tocariam hoje.”
Embora o disco tenha nascido de uma provocação, aos poucos a conversa sobre humor foi dando lugar a outro tema: melancolia. Rick Bonadio afirma que sempre enxergou isso na voz de Falcão. “Ele tem uma melancolia nordestina muito forte, pesada até, que sempre ficou escondida pelo humor e pela figura.”
Falcão concorda. “Minha obra toda foi calcada no humor e na sacanagem porque talvez eu não tivesse coragem de botar essas outras coisas para fora”, diz. “Então eu preferia seguir um caminho menos cruel.”
O disco também reflete o envelhecimento da própria voz do artista. “Tem uma questão da idade. Minha voz ficou mais pesada”, afirma Falcão. Rick concorda: “Isso ajudou também. A voz ficou mais encorpada.”
Mesmo tentando apresentar outro lado do cantor, “Sério” não abandona completamente o personagem construído ao longo de décadas.
O humor continua aparecendo em comentários, títulos e interpretações. Talvez por isso o disco funcione menos como ruptura e mais como revelação de algo que a caricatura já escondia.