Ações da Ferrari despencam após críticas ao primeiro carro elétrico da marca

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Imagem de divulgação da Ferrari do modelo Luce, o primeiro elétrico da marca italiana - Handout Ferrari Press Office/AFP

A aposta da Ferrari para liderar a transição elétrica no mercado de carros de luxo provocou uma reação negativa nas redes sociais e entre investidores, aprofundando a divisão dentro da indústria sobre se os super-ricos estão preparados para abandonar o motor a combustão.

Na internet, reação também foi ruim. Comentários chamam o Luce de “um insulto à marca” e “terrivelmente decepcionante”. Antes do lançamento, o CEO da Ferrari, Benedetto Vigna, disse ao Financial Times que “não estava com medo” de como as pessoas reagiriam ao modelo não convencional.

As ações da empresa despencaram na terça-feira (26), com queda de 5,26% na Bolsa de Nova York e recuo ainda maior, de 8,37%, na Bolsa italiana.

O Luce foi projetado pelo famoso ex-designer da Apple, Jony Ive, de uma forma que minimiza o peso da bateria. Seus motores elétricos e componentes produzem um som inspirado em uma guitarra elétrica. O modelo é moldado em formato de concha com a silhueta de uma casa de vidro.

“Não parece nada com uma (Ferrari). É isso que se considera ‘inovação’? Quem sabe o que Enzo Ferrari diria”, escreveu o vice-primeiro-ministro e ministro dos Transportes italiano, Matteo Salvini, no X.

“Corremos o risco de destruir uma lenda, e lamento muito por isso”, disse o ex-presidente da marca, Luca di Montezemolo, que ocupou vários cargos de liderança na Ferrari por mais de 20 anos antes de uma saída conturbada em 2014.

Ele disse que o Luce era “certamente um carro que pelo menos os chineses não vão copiar”, acrescentando: “Espero que pelo menos removam o cavalo empinado [logotipo da marca] daquele carro”.

Analistas disseram que a reação negativa inicial ao novo modelo da Ferrari não foi surpreendente e que o principal desafio para a empresa era preencher a carteira de pedidos com os clientes altamente específicos que ela havia visado para o Luce.

Executivos da Ferrari afirmaram que o Luce não era direcionado à base de fãs principal da empresa. Pela primeira vez na história da empresa, a Ferrari dará prioridade igual a pedidos de clientes novos e tradicionais.

O modelo tem um preço inicial de 550 mil euros (R$ 3,2 milhões) na Itália, tornando-o o mais caro de seus modelos que não são supercarros.

Embora a Ferrari não divulgue suas metas de vendas, Scott Sherwood, analista independente de marcas de carros de luxo, disse que o foco principal da empresa provavelmente são empreendedores de tecnologia do Vale do Silício e o preço reflete o “escopo de sua ambição”.

“No cálculo da Ferrari, se a maioria dos clientes atuais da Ferrari acha o Luce legal é irrelevante”, disse Sherwood. “Se ele foi bem testado com o público de tecnologia o suficiente para preencher a carteira de pedidos, isso é tudo com que eles se preocupam.”

Executivos da Ferrari e muitos analistas não estão muito preocupados com o impacto financeiro do Luce.

Vigna disse que a incursão da Ferrari em veículos elétricos não prejudicaria sua margem operacional líder do setor de 30%, já que a empresa pretende vender apenas volumes limitados. A montadora agora pretende que 20% de seus modelos sejam totalmente elétricos até 2030, metade de sua meta original.

ELÉTRICOS DE LUXO

A aposta da Ferrari no que a própria marca reconhece ser uma estratégia “polarizadora” ocorre em um momento em que executivos da indústria estão divididos sobre se existe alguma demanda natural por carros de luxo movidos a bateria.

Um punhado de grupos de luxo avançou para os veículos elétricos e está mantendo a estratégia, mesmo diante da indiferença ou oposição dos motoristas.

A Jaguar Land Rover causou alvoroço com o reposicionamento da Jaguar como uma marca premium totalmente elétrica em 2024. Ainda assim, a Jaguar está dando continuidade à sua busca por clientes mais jovens e ricos e pretende lançar um novo modelo elétrico com preço superior a 100 mil libras (R$ 676,8 mil) ainda este ano ou no início de 2027.

A Rolls-Royce, da BMW, está criando um veículo elétrico de dois lugares feito sob medida exclusivamente para seus cem colecionadores ultra-ricos.

Mas outros reduziram significativamente suas ambições com veículos elétricos. A mudança radical da Porsche para elétricos fracassou, resultando em uma baixa contábil significativa enquanto a empresa realocava investimentos para modelos a gasolina e híbridos.

A rival italiana Lamborghini cancelou recentemente os planos de lançar seu primeiro carro totalmente elétrico, o Lanzador, até 2030 e, em vez disso, lançará um modelo híbrido plug-in.

A fabricante britânica de carros de luxo Lotus, da chinesa Geely, também fez uma guinada acentuada para focar em modelos híbridos plug-in, enquanto a Aston Martin adiou o lançamento de seu primeiro veículo elétrico para o início dos anos 2030.

Apesar da fusão com uma startup de veículos elétricos, a McLaren também está desenvolvendo uma versão híbrida de seu primeiro utilitário esportivo a ser lançado nos próximos anos. A Bentley está no caminho para lançar seu primeiro modelo elétrico no próximo ano, mas planeja continuar vendendo híbridos plug-in além de 2035.

Com informações Reuters

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