‘Total indignidade’, diz auditor sobre condições em que vivia doméstica resgatada de trabalho análogo ao escravo

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Trabalhadora é resgatada após 39 anos em situação análoga à escravidão na Paraíba — Foto: Grupo Especial de Fiscalização Móvel (GEFM)/Divulgação

Trabalhadora doméstica é resgatada após 39 anos em situação análoga à escravidão na PB (veja vídeo clicando aqui).

A situação em que vivia a trabalhadora doméstica que foi resgatada após passar 39 anos em situação análoga à escravidão, em Campina Grande, era de “total indignidade”, segundo contou o auditor fiscal do trabalho Nei Alexandre ao Bom Dia Paraíba desta sexta-feira (3). O nome do patrão não foi divulgado.

“A situação era de total indignidade, com condições de trabalho degradantes. No interior da casa habitavam 40 cães, na cozinha, na sala de estar e nos quartos. Eles transitavam livremente nestes ambientes e não saiam porque do lado de fora já tinham outros animais. É um ambiente de fezes, de urina de cachorro, sem um mínimo de higiene. Uma coisa chocante até para a equipe”, disse.

A vítima, de 57 anos, foi resgatada na quarta-feira (2), durante uma operação deflagrada pela auditoria-fiscal do Grupo Especial de Fiscalização Móvel (GEFM), Polícia Federal (PF) e Defensoria Pública da União (DPU).

Trabalhadora é resgatada após 39 anos em situação análoga à escravidão na Paraíba — Foto: Grupo Especial de Fiscalização Móvel (GEFM)/Divulgação
Trabalhadora é resgatada após 39 anos em situação análoga à escravidão na Paraíba — Foto: Grupo Especial de Fiscalização Móvel (GEFM)/Divulgação

O empregador da mulher e a família dele tiraram a mulher da cidade onde nasceu, em Cuité, quando ela tinha 18 anos. Na casa onde ela vivia e trabalhava, em Campina Grande, ela era responsável por cuidar dos patrões idosos, limpar a casa, arrumar a cozinha e fazer os cuidados da matriarca da família, que ficou acamada e com dificuldades de locomoção.

“Ainda, a empregada vivia um processo de coação psicológica que a levava a aceitar as condições indignas de trabalho com afirmações de que ela teria responsabilidades com os idosos por ser uma pessoa considerada da família”, descreveu a também auditora fiscal do trabalho Lidiane Barros.

A carga de trabalho da vítima aumentou ainda mais há pelo menos cinco anos, quando ela passou a ser responsabilizada pelo cuidado de cerca de 100 cães adotados pelos patrões. Essas atividades eram feitas todos os dias da semana, inclusive aos domingos e feriados.

A jornada da trabalhadora iniciava por volta das 7h e se encerrava após a meia-noite por causa do alto número de cachorros e da obrigação de limpar toda a casa e espaços destinados ao abrigo dos animais, além de alimentá-los.

Trabalhadora resgatada tinha que limpar fezes e urina de pelo menos 100 cachorros — Foto: Grupo Especial de Fiscalização Móvel (GEFM)/Divulgação
Trabalhadora resgatada tinha que limpar fezes e urina de pelo menos 100 cachorros — Foto: Grupo Especial de Fiscalização Móvel (GEFM)/Divulgação

As atividades diárias também envolviam limpar e lavar os canis, limpar fezes e urinas dos cachorros tanto na parte externa, quanto dentro da casa.

Apesar da mulher receber salário mensal, 13º e férias, ela não usufruía de descanso semanal remunerado, feriado e das férias de 30 dias. Apesar de ter folgas eventuais nos feriados de São Pedro e Réveillon, nunca pôde ficar mais de quatro dias fora das funções.

Segundo a auditora, este foi o primeiro caso de resgate em trabalho doméstico na Paraíba. A operação foi realizada a partir de uma denúncia feita Disque Direitos Humanos – por meio de ligação ao número 100 – sobre a possível exploração de trabalho.

Adoecimento no trabalho e condições precárias de moradia

A trabalhadora possuía um adoecimento das unhas das mãos, que segundo o relato dela, teve início “quando começou a pegar sabão, água sanitária e ficar muito com a mão na água”. Ainda aos auditores, ela contou que sente coceira, dor e inchaço nas unhas.

Segundo a fiscalização, o problema nas unhas junto a coceiras pelo corpo da trabalhadora, pode ser enquadrado como adoecimento em virtude do trabalho, já que tem contato diário com urina, fezes e vômitos dos aproximadamente 100 animais do canil e dentro da casa, explica a auditora que coordenou a ação fiscal.

A trabalhadora resgatada também disse que costumava dormir em um quarto com cama e armário, mas foi apurado durante a operação pelo Grupo que o colchão em que ela dormia foi destinado às cachorras em trabalho de parto. Por isso, ela teria passado a dividir um colchão de solteiro com a idosa da qual cuidava.

Trabalhadora resgatada mostra problema de saúde nas unhas — Foto: Grupo Especial de Fiscalização Móvel (GEFM)/Divulgação
Trabalhadora resgatada mostra problema de saúde nas unhas — Foto: Grupo Especial de Fiscalização Móvel (GEFM)/Divulgação

Após o resgate mulher voltou para cidade natal

Ainda na quarta-feira, a equipe de fiscalização levou a trabalhadora resgatada para casa de familiares no interior do estado.

Após o resgate, o empregador foi notificado para quitar a rescisão e fazer o pagamento de todos os direitos que não foram garantidos a ela durante o trabalho.

A trabalhadora também terá direito ao recebimento de três parcelas do Seguro-Desemprego especial do Trabalhador Resgatado, no valor de um salário-mínimo cada.

O patrão também será autuado por submeter a trabalhadora doméstica a uma condição análoga à escravidão.

A Defensoria Pública da União está representando a trabalhadora e propôs um acordo ao empregador para pagamento de todas as verbas rescisórias devidas e um valor a título de dano moral individual para reparar toda a exploração de trabalho e danos à saúde física e mental da empregada.

Não sendo aceito a proposta, ingressará com as outras medidas judiciais. Além disso, está acompanhando a empregada junto aos órgãos de serviço social e de saúde para garantir atendimento médico e psicológico.

A assistência social de Cuité prestou o acolhimento necessário à trabalhadora, a qual recebeu atendimento médico e da assistência social.

Veja como denunciar

Denúncias de trabalho análogo ao de escravo podem ser feitas de forma anônima no Sistema Ipê.

Trabalhadora doméstica é resgatada após 39 anos em situação análoga à escravidão na PB (veja vídeo clicando aqui).

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