Jovem preso após comprar pão no Jacarezinho diz que passou fome no presídio: ‘Quero justiça’
Yago Corrêa, de 21 anos, deixou a prisão nesta terça-feira (8), em Benfica, na Zona Norte do Rio, após passar duas noites encarcerado por um crime que não cometeu. O estudante foi preso no último domingo (6), por policiais militares no Jacarezinho, Zona Norte do Rio, no momento em que havia saído para comprar pão. — Foto: FÁBIO COSTA/AGÊNCIA O DIA/AGÊNCIA O DIA/ESTADÃO CONTEÚDO
O jovem Yago Corrêa de Souza, de 21 anos, preso no último domingo (6) por, supostamente, estar associado ao tráfico de drogas na Favela do Jacarezinho, na Zona Norte, deixou o Presídio de Benfica, no Rio de janeiro, nesta terça-feira (8).
Ao sair do sistema prisional, Yago, que trabalha com a irmã vendendo doces, disse que durante os dois dias que esteve preso passou fome.
“Horrível, passei fome, comida estragada. (…) Quero justiça”, disse o jovem.
A decisão pela soltura do jovem aconteceu nesta terça durante audiência de custódia no Presídio de Benfica, considerada a “porta de entrada” do sistema penitenciário fluminense.
O g1 ouviu parentes do rapaz que afirmam que ele é inocente e que, no momento da prisão, Yago apenas tinha ido a uma padaria na favela. Imagens obtidas pela equipe de reportagem reforçam a versão da família.
Para Érica Corrêa, irmã de Yago, a liberdade do jovem só foi possível por conta da mobilização da comunidade.
“Valeu a pena, valeu a pena, sensação de dever cumprido, a favela tem voz, a gente não vai se calar, agente tá cansado de injustiça. Ele é inocente, ele ta saindo aqui com a provisória, mas vamos conseguir livrar ele de tudo”, disse Érica Corrêa.
Imagens de câmeras mostram jovem comprando pão e, depois, sendo preso no Jacarezinho
Num dos vídeos obtidos pelo g1, numa padaria no Jacarezinho, às 19h34, Yago aparece de bermuda jeans e camisa do Flamengo comprando pão. A imagem mostra a atendente servido ao menos sete pães a Yago, que pega o pedido e caminha em direção à porta do estabelecimento.
A outra gravação é de câmeras de uma farmácia para onde familiares do jovem e uma testemunha contam que Yago correu ao notar uma confusão na rua envolvendo policiais militares.
Não é possível saber qual é o horário, mas no vídeo Yago aparece entrando às pressas na drogaria e com as mãos levantadas, como se estivesse se rendendo. Numa das mãos ele segura a sacola.
Em seguida, um policial com um fuzil também entra na farmácia, apontando a arma na direção de Yago. Em seguida, o jovem é levado pelo PM enquanto outras pessoas observam a cena.
Atualmente, a Favela do Jacarezinho está ocupada por forças policiais para implementação do programa Cidade Integrada, aposta do governo estadual para retomar a região do controle de uma organização criminosa.
‘Preso com um saco de pão’
Parentes e testemunhas disseram que houve um princípio de tumulto e correria na Rua Amaro Rangel, uma das vias na parte baixa da favela, com policiais empunhando fuzis. Segundo uma testemunha, Yago e outras pessoas correram para se proteger.
Além de Yago, os PMs também apreenderam um adolescente com uma sacola com drogas. Mas parentes de Yago reforçam que ele só correu porque, no tumulto, viu os policiais armados. Uma amiga da família, que não quis se identificar, disse que viu tudo o que aconteceu na ocasião da prisão.

“Tava eu e meu esposo tomando uma cerveja no bar ao lado da farmácia onde ele foi detido. Ele passou por mim e veio comprar o pão. Então, de onde eu estava tem a visão da padaria, né! Ele entrou na padaria e veio com o pão. (…) Teve uma correria. Eu e meu esposo, nós corremos pra dentro do bar e ele correu pra dentro da farmácia. Aí eles abordaram um menino do lado de fora e olharam pra dentro da farmácia, aí pegaram ele e puxaram ele pela bermuda e levaram ele também”, disse.
Um despacho da 25ª DP desta segunda cita que policiais da delegacia conversaram “informalmente” com Yago e tiveram a impressão de que o jovem talvez estivesse “no lugar errado, na hora errada” .
Levando em conta os relatos dos policiais e informações da polícia, o delegado que analisou o caso também se manifestou pela soltura de Yago. E ainda orientou que os parentes levassem o documento com a representação na audiência de custódia do jovem.
Esperando julgamento
Apesar de ter deixado o presídio, Yago ainda não foi inocentado pela Justiça. O jovem vai aguardar em liberdade pelo julgamento definitivo no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.
Na decisão desta terça, o juiz Antonio Luiz da Fonsêca Lucchese entendeu não haver provas suficientes para manter Yago preso.
“Diante das circunstâncias em que teria se dado a prisão, sem perder de vista que aqui há evidente necessidade de que os fatos sejam mais apurados, sobretudo diante da dinâmica dos fatos, certamente faz com que se esvaia qualquer substrato para se cogitar, neste momento, de prisão cautelar, ainda mais diante da manifestação a posteriori da autoridade policial”, dizia um trecho da decisão.
O advogado Vivaldo Lúcio, que representa Yago no caso, disse que a prisão do rapaz foi mais um caso de racismo no Rio de Janeiro.
“O que aconteceu é o que todos sabemos: racismo estrutural. Estereotipo do bandido brasileiro: negro, jovem e de favela. Teve incursão na favela, todo mundo correu, incluindo ele, com saco de pão na mão, a polícia entrou na farmácia, olhou quem tava ali e levou ele pra delegacia e prendeu. Na verdade, ele não sabe nem porque foi preso”, disse Vivaldo.
O que dizem as polícias
Em nota, a Secretaria de Estado de Polícia Militar informou que PMs do Batalhão de Choque que patrulhavam a Travessa Amaro Rangel e vielas do Jacarezinho se depararam com “dois indivíduos – um deles carregando uma bolsa – e que tentaram fugir ao avistarem os policiais”.
A corporação afirma que eles foram capturados com drogas. “Os dois indivíduos, um homem [Yago] e um adolescente, foram conduzidos à 25ª DP (Engenho Novo) para o registro da ocorrência. Nesta ação foram apreendidos 32 pinos de cocaína, 32 papelotes de skunk e 58 papelotes de maconha.”
De acordo com a Polícia Civil, a ocorrência foi registrada na 19ª DP (Tijuca) e, depois, encaminhada para a 25ª DP (Engenho Novo). A corporação acrescentou que o caso está sendo investigado.